
Organizações católicas não escaparam também à investigação jornalística. Foto © Direitos Reservados
Os Legionários de Cristo surgem como grandes manobradores de negócios ocultos, feitos nas costas do Vaticano, nos milhões de documentos conhecidos como “Pandora Papers” (Papéis de Pandora), que esta segunda-feira começaram a ser revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ, na sigla em inglês).
Estas revelações vêm pôr a nu práticas ilegais de pessoas poderosas de largas dezenas de países, que assim procuraram ocultar avultados bens de que eram titulares.
Contudo, enquanto na maioria dos casos essas práticas visavam iludir as autoridades fiscais e as opiniões públicas, no caso dos Legionários procurou-se também ocultar os negócios face às investigações do Vaticano, numa altura em que o Papa Bento XVI tinha ordenado uma limpeza na instituição.
Os dados são publicados pela jornalista Georgina Zerega, correspondente do jornal espanhol El País no México, país que era (e em certa medida continua a ser) o “quartel-general” daquela instituição religiosa.
Em 6 de julho de 2010, três dias antes de o Vaticano anunciar publicamente a investigação aos Legionários de Cristo, mas já depois de esta medida ter sido comunicada internamente, os responsáveis da congregação abriram um trust irrevogável, para “arrecadar doações e fazer investimentos”, e, com esse dinheiro, “ajudar financeiramente aposentados, deficientes mentais ou feridos em algum acidente”, como se referia no ato de criação do trust. Essa entidade, com um capital inicial de um milhão de dólares, foi designada The Retirement and Medical Charitable Trust (RMCT), ou seja, Trust de Beneficiência Médica e de Reformados.
“Por detrás da fachada do benfeitor, no entanto, foi erguida uma estrutura composta por dois outros trusts (designados Salus Trust e AlfaOmega Trust) que investiram milhões de dólares por ano num portfólio demasiado exótico para uma congregação conhecida pela sua doutrina conservadora”, escreve o El País.
“Padres e empresários próximos da instituição – salienta ainda o diário – criaram entre 2010 e 2011 um intrincado esquema que em poucos anos acumulou mais de 295 milhões de dólares em ativos com investimentos em setores como imobiliário, tecnologia ou petróleo”.
Para os Legionários, a estrutura criada destinava-se a “receber donativos”, recusam controlar o entramado de interesses e investimentos entretanto feitos, envolvendo perto de trinta empresas.
Estes factos parecem indiciar que, enquanto o Vaticano, sob a orientação do cardeal Velasio de Paolis, procurou, ao longo de mais de dois anos, levar a congregação a reformar-se, rompendo com o que o Vaticano consideraria a opacidade das finanças e dos escândalos de abuso sexual e duplicidade moral, instalada pelo fundador, Marcial Maciel, os sucessores deste trabalhariam na sombra numa direção bem diferente.
Daí a conclusão da jornalista do El País, antes de fornecer nomes e pormenores dos negócios ao longo destes anos: “Os Pandora Papers revelam agora como, enquanto se gabavam de ter uma casa limpa, eles montaram um esquema para absorver dinheiro por meio de três trusts [criados] na Nova Zelândia. Um destino regular para quem quer fugir dos impostos sobre a fortuna.”









