Leigos e mulheres à frente de paróquias: Igreja Católica alemã ensaia novos modelos de liderança

| 21 Jun 20

Foto KFD Comunidade Catolica das Mulheres Alemanha

“… porque eu também sou Igreja”, diz o cartão que esta mulher alemã tem na mão. Foto © KFD/Mulheres Católicas da Alemanha

 

“Que formato necessita a Igreja para estar capaz de enfrentar o futuro? Como responder às mudanças profundas que acontecem na sociedade, na pastoral e nos campos profissionais dentro da Igreja, de forma a que a Igreja possa responder aos desafios do nosso tempo?”

Com esta introdução, a diocese de Münster, uma das maiores da Alemanha, acaba de apresentar um documento sobre o tema “Liderança e responsabilidade na Igreja”. Trata-se de uma brochura destinada a provocar debate e reflexão a todos os níveis diocesanos. Apresentam-se vários modelos de liderança para as comunidades paroquiais, como alternativas ao modelo tradicional de um padre/pároco por paróquia.

Segundo o documento, este modelo tradicional não é praticável, por falta de recursos humanos (padres), nem é desejável numa Igreja que, desde o Concílio Vaticano II, não se cansa de sublinhar a responsabilidade conjunta de todos os baptizados. E também não tem futuro numa sociedade que cada vez mais tem dificuldades em perceber, por exemplo, a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados da Igreja ou a falta de participação democrática de todos os membros ao nível das decisões que a todos dizem respeito. “A liderança na Igreja tem muitos rostos”, podia bem ser o título deste documento publicado neste mês de Junho.

Entre esses rostos, entre os diferentes modelos possíveis, está a possibilidade de a responsabilidade pela paróquia do futuro ser entregue a um leigo, homem ou mulher, possibilidade aliás já prevista no cânon 517 §2 do Código de Direito Canónico.

Münster está a reflectir, mas outras dioceses já o concretizaram. Na diocese de Osnabrueck, vizinha de Münster, uma mulher orienta duas paróquias em Bad Iburg. Trata-se, neste caso concreto, de uma mulher, leiga, com estudos de teologia, a assumir a responsabilidade correspondente à do pároco.

Mulheres em cargos directivos nas dioceses alemãs é algo que vem de há algum tempo e deixaram de ser casos “exóticos” ou raros. Há várias cúrias diocesanas que incluem mulheres. A diocese de Limburgo tem uma mulher à frente da cúria da pastoral diocesana, responsável directa por vários secretariados. A diocese de Mainz tem também uma mulher no grupo de pessoas que todas as semanas se reúne com o bispo para, em conjunto, tomar decisões e ditar directivas para a diocese.  Segundo um estudo da Conferência Episcopal Alemã, já em 2018, cerca de 19% dos responsáveis diocesanos – ao mais alto nível, isto é, membros das cúrias diocesanas – eram mulheres (contra 42% de homens leigos e 39% de clérigos). De então para cá, a percentagem de mulheres deve ter aumentado. Já nos quadros intermédios (responsabilidade por secretariados ou institutos diocesanos) a percentagem de mulheres atingia, em 2018, os 23%.

Apesar disso, os movimentos de mulheres católicas alemãs não se dão por satisfeitos. Aquando da preparação do debate sinodal em curso, designado “Caminho Sinodal”, iniciado no Advento de 2019 e cuja primeira assembleia geral teve lugar em Frankfurt em finais de Janeiro passado, a questão do lugar das mulheres na Igreja foi admitida à última hora como “fórum” (quatro no conjunto), sob pressão dos grupos de mulheres e das suas delegadas ao Comité Central dos Católicos Alemães. Nada de relevante acontece na Igreja alemã – como seja uma assembleia plenária da Conferência Episcopal ou uma jornada nacional – que as mulheres não se mobilizem para manifestar o seu protesto contra a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados.

O presidente-cessante da Conferência Episcopal, cardeal Reinhard Marx, levantou mesmo a possibilidade de colocar uma mulher como vigário-geral, num duo em conjunto com um padre. O cardeal Marx defende claramente a necessidade de colocar mais mulheres nas instâncias de liderança da Igreja. Num relatório apresentado ao Conselho dos Cardeais, o órgão de consulta do Papa do qual é membro, Marx afirmava que “mulheres na liderança da Igreja dão um um contributo decisivo para a superação de círculos clericalistas fechados”, círculos esses que seriam meio propício para fenómenos como a violência e os abusos sexuais sobre menores. “Para que acreditem em nós como Igreja, e como bispo desta Igreja, temos de tentar tudo para conseguir mais mulheres para tarefas e instâncias directivas”, afirmava Marx perante o Conselho de Cardeais.

O sucessor de Marx na presidência da Conferência Episcopal Alemã, Georg Bätzing, bispo de Limburgo, considerado um moderado dentro da conferência, segue, no entanto, a mesma linha reformadora. Interrogado sobre a questão das mulheres na Igreja, afirmava: “Como bispo tenho de verificar que a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados é vista pela sociedade como uma injustiça e como uma postura nada adaptada ao nosso tempo”. No entanto, numa entrevista recente ao Kölner Stadtanzeige, Bätzing recuava, afirmando que exigir igualdade entre homens e mulheres dentro da Igreja não implica necessariamente defender a ordenação das mulheres. A crítica a esta posição conciliadora não se fez esperar. Um grupo de mulheres do movimento Maria 2.0, da diocese de Hildesheim, numa carta que lhe dirigiu, protestava que a igualdade não se pode fragmentar. Ou se trata de igualdade em tudo ou não é igualdade.

O tema do lugar das mulheres na Igreja é, na Alemanha, um tema de actualidade permanente. A vizinhança das Igrejas luteranas que, como é sabido, têm mulheres como pastores e como bispos, não deixará de ter a sua influência. Mas, mais que a experiência ecuménica, é decisiva a evolução no seio da própria Igreja Católica na Alemanha e na teologia. E aqui há que referir o peso das faculdades de teologia, com um número crescente de mulheres catedráticas, bem como a percentagem maioritária de mulheres entre os estudantes de teologia. Estudantes de teologia que, uma vez formadas, têm acesso não só a aulas de religião e moral, mas aos secretariados diocesanos e capelanias, bem como aos lugares de assistente pastoral.

Na sua maioria, são as mulheres que coordenam de facto as actividades e iniciativas diocesanas. E aí sim está a grande força das mulheres, o seu lobby, na Igreja da Alemanha. A questão da ordenação das mulheres é uma entre muitas outras. A presença de facto das mulheres na liderança das comunidades – mulheres-pároco – já é uma realidade, um “facto consumado”, um passo em frente neste tema da igualdade dentro da Igreja, tanto ou mais importante que a questão da ordenação.

 

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