
Católicos na Praça de Sao Pedro a aguardar os resultados do conclave de 2005: o esquema de eleição deveria mudar, defende o prestigiado jornalista Robert Mickens. Foto Tulumnes/Wikimedia Commons
O atual modelo de eleição do Papa “não faz qualquer sentido” e, em tempos de sinodalidade instituída como modelo da Igreja Católica, todos os batizados poderiam estar representados no processo de eleição do bispo de Roma.
A provocação é lançada pelo veterano jornalista e vaticanista Robert Mickens, na sua mais recente “Carta de Roma”, que publica cada fim de semana no jornal La Croix International.
A sugestão vem acompanhada de argumentos que ajudam a refletir. De resto, trata-se da visão de alguém que estudou na Universidade Gregoriana, tem várias décadas de acompanhamento dos assuntos da Igreja Católica e dos temas religiosos, tendo trabalhado na Rádio Vaticana e sido correspondente em Roma do jornal católico inglês The Tablet. Atualmente é editor-chefe do La Croix International.
O ponto de partida para o cenário que esboça articula-se bem com o que recentemente defendia no 7MARGENS o diretor deste jornal, António Marujo: que tendo o colégio cardinalício surgido no segundo milénio, bem poderia acabar no terceiro, modificando-se radicalmente o modo de eleição e de aconselhamento do Papa.
Robert Mickens interroga(-se): “E se a Igreja abandonasse o conclave só de cardeais e encontrasse uma forma mais ‘sinodal’ de eleger o Bispo de Roma?”. O sistema vigente faz com que apenas cardeais elejam o papa, desde que tenham menos de 80 anos e não tenham outro impedimento.
Trata-se de “um grupo totalmente masculino, clerical e hierárquico”, que, logo aí, exclui à roda de seiscentos milhões de mulheres batizadas, reflete o vaticanista.
Mudar este sistema eleitoral, que remonta ao século XIII, não é assim tão “absurdo”, num tempo em que a Igreja explora caminhos novos e, particularmente, num momento em que ela dá os primeiros passos na sinodalidade que é, segundo o Papa Francisco, aquilo que “Deus espera que a Igreja seja no terceiro milénio”.
Apesar de tudo, para Robert Mickens, não seria com uma composição como a do atual Sínodo que se encontraria uma verdadeira alternativa ao conclave, já que ela, apesar das inovações, “reflete a marginalização das mulheres nas estruturas decisórias e ministeriais da Igreja – de facto, a sua completa exclusão nos níveis mais elevados.”
Sendo o lugar das mulheres “a questão mais importante para o futuro da Igreja”, o articulista enuncia o que seria preciso fazer acontecer, no âmbito do processo sinodal: “Serão necessárias mudanças fundamentais na estrutura básica de governo da Igreja, que não é sinodal, mas de cima para baixo e monárquica em todos os níveis – universal, diocesano e paroquial”. Para isso, não bastam os órgãos de natureza consultiva a todos os níveis da estrutura, já que, no fim, “são os chefes desses órgãos (o papa, o bispo, o pároco) os que tomam a decisão final, independentemente do que esses ‘conselheiros’ digam”.









