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Momento da homilia na missa. Foto Vatican Media
"A homilia reservada ao sacerdote ou diácono não é resultado de uma simples norma disciplinar, mas sim resulta da natureza própria da liturgia", defende o Vaticano. Foto © Vatican Media

Decisão polémica

Leigos não podem fazer homilias: Vaticano rejeita pedido da Conferência Episcopal Alemã

| 24/06/2026

O Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos informou o presidente da Conferência Episcopal Alemã, Heiner Wilmer, de que a homilia integrada na celebração da eucaristia está reservada aos padres e aos diáconos.

Em carta enviada no passado dia 17, a decisão foi a resposta à solicitação dos bispos alemães, em fevereiro passado, no sentido de que os leigos comprometidos nas suas paróquias pudessem fazer a pregação após a leitura do Evangelho nas missas.

No pedido enviado a Roma, o bispo de Münster, Heiner Wilmer, argumentava que perante “a escassez de sacerdotes, agora significativamente agravada”, muitos deles de idade avançada ou mesmo “fragilidade física”, encontram-se “incapazes de proferir a homilia de maneira adequada”.

A rádio pública da Alemanha, a Deutsche Welle (DW), dava conta de que a solicitação do episcopado do país enviada ao Vaticano é coincidente com “os sentimentos de muitos bispos em outros países europeus e nos Estados Unidos, que afirmam que muitos leigos são tão capazes de pregar quanto os padres”. A experiência, aliás, já foi feita em muitas comunidades, incluindo em Portugal, nas últimas décadas.

A propósito, recorde-se que a decisão de o episcopado solicitar a Roma esta permissão foi decida e votada conjuntamente com os leigos representantes das paróquias no âmbito do processo do “Caminho Sinodal”, e com a qual concordaram noventa por cento dos bispos alemães. Mesmo assim, o Dicastério do Culto Divino não foi permeável à solicitação de Heiner Wilmer.

 

Uma Igreja em queda…

O cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, autorizou a realização de “cerimónias públicas de bênção” para casais homossexuais na sua arquidiocese. Foto © FDI2 / Pixabay

 

Não se fizeram esperar vozes discordantes do teor da decisão de Roma, mesmo no interior da Igreja Católica na Alemanha. Na terça-feira, 23, a rádio pública da Alemanha dava voz ao renomado canonista Thomas Schüller que reafirmou ser o processo sinodal umas das principais esperanças dos católicos alemães.

Thomas Schüller considerava que a recusa do Vaticano traduzia um “tempo de decepções” para os católicos romanos no país, até porque a Igreja alemã tem vindo a perder um significativo número de fiéis. O censo de 2025 dá conta de que no espaço de um ano (2024) os católicos tinham diminuído em 550 mil, passando a representar somente 23 por cento da população.

“Os sonhos sinodais alemães estão a desfazer-se”, disse Schüller sobre esta proibição de Roma, sublinhando ser quase certo que o Vaticano não confirmará os estatutos para a conferência sinodal dos católicos alemães, considerado um dos mais avançados relativamente às normas de Roma.

Recorde-se que, ao arrepio do que Roma entende, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, autorizou a realização de “cerimónias públicas de bênção” para casais homossexuais na sua arquidiocese. Além de coincidir com a Conferência Episcopal que havia aceitado “a imposição de mãos para casais impedidos de casar pela Igreja”, o próprio cardeal recomendou aos padres um guia para formalizar aquela bênção.

Por isso, Thomas Schüller defende que agora devem ser os bispos e os leigos, mediante consultas, “a decidir juntos qual o núcleo do Caminho Sinodal”. E se por um lado, reconhece que com esta nota de Roma existe “um receio justificado de que este caminho [sinodal] também seja proibido por Roma”, o canonista contrapõe que, diante dos leigos e teólogos muitos qualificados do seu país, “Roma está a travar uma batalha perdida, do ponto de vista sociológico e factual”, até porque reconhece que “realisticamente falando, não pode aplicá-la [a directiva]”.

 

…e as contradições do documento

Não deixando de anotar incoerências no texto do Vaticano, o Comité Central de Católicos Alemães – grupo que a nível nacional representa os leigos de todas as dioceses, com uma participação em algumas decisões da Conferência Episcopal –, afirma esperar que os bispos não recuem. E pela voz da sua presidente, Irme Stetter-Karp, além de solicitar à Conferência Episcopal Alemã que “reforce os seus argumentos”, salienta que “em nenhuma circunstância [os bispos] aceitem a carta desencorajadora do cardeal [inglês Arthur] Roche”, prefeito do Dicastério do Culto Divino.

De facto, como refere aquele comité, a notícia do Vatican News dá conta de que o Dicastério do Culto Divino não pode aceitar a solicitação do episcopado alemão tendo em conta “que a homilia reservada ao sacerdote ou diácono não é resultado de uma simples norma disciplinar, mas resulta da natureza própria da liturgia”.

Num outro parágrafo, diz que a homilia, estando “intrinsecamente ligada à proclamação do Evangelho”, é em si mesma “um exercício do munus docendi (o ofício de ensinar), confiado aos ministros ordenados mediante o Sacramento da Ordem. (…) [Por isso,] vincula Palavra e Sacramento na celebração eucarística”.

Mas a agência internacional católica ACI Digital, dando nota mais pormenorizada do documento do Vaticano, acrescenta ainda o facto de nele se salientar que na celebração da missa, “o sacerdote age in persona Christi (na pessoa de Cristo), e é Deus quem age por meio do padre durante o culto”. Ou seja, já nem aos diáconos seria permitido fazerem homilias…

 

A experiência em Portugal

Irmã Maria Juliete

A irmã Julieta Dias já fez uma “partilha da Palavra” depois da homilia do celebrante da eucaristia na Capela do Rato, em Lisboa. Foto © Ana Lúcia Esteves

 

Julieta Dias, freira da congregação do Sagrado Coração de Maria, que já presidiu a celebrações da Palavra em diferentes paróquias, devido à falta do presbítero, perante o conteúdo do documento polémico, é peremptória: “Nós [os católicos] somos sacerdotes pelo baptismo.” E não deixa mesmo de recordar o facto de “ser normal”, por exemplo na Capela do Rato, em Lisboa, o celebrante partilhar o momento da homilia com um comentário de uma religiosa ou um leigo, experiência que ela foi a primeira a concretizar nos tempos mais recentes.

Quem se mostra surpreendido com o conteúdo da diretiva do Discastério do Culto Divino é o padre José Manuel Pereira de Almeida, responsável pela paróquia de Santa Isabel, em Lisboa, onde “leigos também fazem homilias, de forma natural”. Recordando que “desde há muito que a homilia não está só a cargo do presidente [padre], mas também do diácono”, anota a discrepância no facto de o documento “relacionar o vínculo sacerdotal à exclusividade da homilia”.

E quanto à consistência desta advertência do Vaticano para a Igreja alemã – reforçando que ela “não se destina à Igreja portuguesa” –, Pereira de Almeida recorda o que aconteceu em duas outras normas: uma, em Fevereiro de 1962, quando João XXIII, pela Constituição Apostólica Veterum Sapientia, determinou o estudo e o uso do latim nos seminários, e a segunda, quando João Paulo II reafirmou a obrigatoriedade do uso da veste eclesiástica, não só aos sacerdotes do Vaticano, mas igualmente ao restante clero. “O latim caiu em desuso, assim como esta última norma”, diz o pároco de Santa Isabel que reafirma a decisão de continuar a convidar leigos a fazerem homilias, “sempre que considere conveniente”.

Na Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia, a experiência de Paulo Melo durante 26 anos revelou-se-lhe numa “dinâmica de intensa vida comunitária”, concretizada num “efetivo envolvimento e responsabilização” de todos os membros daquela comunidade, “a partir dos valores evangélicos”.

Liderada pelo padre Arlindo Magalhães (que morreu em Fevereiro de 2023), aquela comunidade comemorou os seus 50 anos de existência em 2024. Na ocasião, Paulo Melo, em texto publicado pelo 7MARGENS, recordou não apenas as homilias que foi convidado a fazer por aquele padre, mas igualmente a responsabilidade compartilhada, com outros leigos (entre eles uma mulher que assumiu a presidência) na dinamização da comunidade durante os anos de ausência do padre Arlindo, em Salamanca, para fazer o doutoramento.

Mas esta atitude, conforme Paulo Melo recorda, nasceu de “uma permanente atenção à vida, aos acontecimentos locais, nacionais e universais, à luz dos valores evangélicos”. Foi então que ganhou corpo e sentido a presença solidária da comunidade, quer no bairro degradado da Escarpa da Serra, ao compromisso no Bairro da Sé do Porto, a uma campanha contra a abertura do comércio aos domingos, ou ainda ao encontro de reflexão, “numa garagem, sobre o conflito israelo-palestiniano”.

 

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