Em cada dia da Semana Santa deste ano, em média, 18,7 milhões de pessoas acederam às aplicações da empresa YouVersion para lerem a Bíblia, mais 15 por cento do que na Páscoa do ano passado. Além de lerem na Internet os textos sagrados de várias religiões, há centenas de milhões de pessoas que “conversam” com “Deus”, ou sobre Deus e a sua vida, com programas de computadores através de assistentes virtuais que simulam uma conversa humana via texto ou voz.
A YouVersion, lançada em 2006 pela Life.Church, uma Igreja Evangélica de Oklahoma (EUA), apresenta-se como a empresa cujas aplicações gratuitas de acesso à Bíblia foram descarregadas por mais de mil milhões de dispositivos em todo o mundo e aspira a “ser uma espécie de departamento de tecnologias de informação para Igrejas em todos os lugares do planeta”.
O maior número de sempre de visitas num só dia – 21,6 milhões – foi registado pela empresa no último domingo de Páscoa (5 de abril), sendo o versículo mais lido o de Mateus 28:6: “Ele não está aqui; ressuscitou, como havia dito. Venham ver o lugar onde ele jazia.” A leitura da Bíblia por estes meios digitais cresceu em todo o mundo, mas sobretudo na África subsaariana (37%) e na América Latina (22%).
A jornalista Madeleine Davies cita, num artigo publicado no Church Times de 14 de abril, o pastor Bobby Gruenewald, fundador da YouVersion, que na semana depois da Páscoa afirmou: “Nos últimos meses, o interesse mundial pela Bíblia continuou a crescer. É encorajador ver pessoas a procurar e a voltar constantemente às Escrituras em busca de orientação, encorajamento e respostas. Ver gente em todo o mundo a contactar com as Escrituras, muitas pela primeira vez, é exatamente a razão pela qual criámos estas aplicações”.
Todas as aplicações da YouVersion são gratuitas, não contêm anúncios e estão disponíveis em 2.400 idiomas (incluindo o português) e mais de 3.750 traduções. Em 2008 foi uma das 200 primeiras aplicações gratuitas disponíveis quando a Apple lançou sua App Store. O referido artigo do Church Times recorda que já “em 2021, uma investigação com um painel de ‘cristãos praticantes’ — encomendada pela Sociedade Bíblica e realizada pela Christian Research — revelou que 30 por cento deles usavam uma aplicação para ler a Bíblia”.
Em Portugal, a Sociedade Bíblica Portuguesa disponibiliza uma tradução da Bíblia na internet e a Conferência Episcopal Portuguesa está a proceder a uma nova tradução dos textos bíblicos que podem ser consultados (e comentados) aqui. O movimento católico Equipas de Jovens de Nossa Senhora (EJNS) lançou no passado mês de janeiro o podcast +365 com a proposta de ajudar a ler a Bíblia inteira num ano [ver 7MARGENS].
Milhões à conversa com “Deus”

Os chats digitais religiosos proporcionam a quem os descarrega uma sensação de interatividade, de comunicação nos dois sentidos. Foto © Igor Omilaev | Unsplash
Em setembro de 2025, Lauren Jackson dava conta, num artigo publicado no New York Times das dezenas de milhões que “confessam os seus segredos a chatbots [programas de computadores através de assistentes virtuais que simulam uma conversa humana via texto ou voz] espirituais. Falam das suas pequenas vaidades e preocupações mais profundas, desejos gulosos e impulsos mais sombrios. Os bots, treinados em textos religiosos, são como padres, imãs ou rabinos disponíveis a qualquer momento, oferecendo conforto e orientação. Algumas destas plataformas afirmam mesmo sintonizar Deus”.
Não se trata apenas de aceder à leitura dos textos sagrados desta ou daquela religião. O que estes chats digitais religiosos proporcionam a quem os descarrega é uma sensação de interatividade, de comunicação nos dois sentidos. E em todos eles o “outro lado” é, por norma, sempre compreensivo e acolhedor, nada incomodativo ou crítico de quem entra em contacto.
Os chatbots “dizem-nos o que queremos ouvir”, disse ao New York Times Heidi Campbell, professora na Texas A&M onde desenvolve estudos de tecnologia e religião. “Não se trata de usar discernimento espiritual, mas sim de usar dados e padrões”. Talvez seja exatamente esse um dos grandes trunfos destas máquinas inteligentes, como testemunhou àquele jornal uma cristã que disse ter encontrado mais apoio na aplicação Bible Chat do que na sua igreja. Ela referiu que enfrentou julgamentos severos dos outros cristãos quando partilhou os seus problemas de saúde com a sua congregação. “As pessoas pararam de falar comigo. – disse – Foi horrível.”
Os criadores deste tipo de aplicações religiosas dizem que consideram a tecnologia uma espécie de capelania digital, uma ferramenta que ajuda milhões de pessoas, dentro e fora dos campos da fé, a expressarem-se espiritualmente. Vários líderes religiosos também referiram ao jornal que “até agora, apoiam o uso dos chatbots, desde que eles complementem, e não substituam, o trabalho das comunidades religiosas”.
Contestados ou apreciados, o facto é que o setor de ‘tecnologia religiosa’ está em plena expansão. Segundo os dados recolhidos pela jornalista Lauren Jackson, no final do verão passado, só na Apple App Store, o Bible Chat, uma aplicação cristã, tinha mais de 30 milhões de downloads, enquanto o Hallow, uma aplicação católica, superou a Netflix, o Instagram e o TikTok, conquistando o primeiro lugar na loja em determinado momento de 2024. Não admira que tais aplicações estejam a atrair dezenas de milhões de dólares em investimentos, com as pessoas a pagar assinaturas anuais que podem chegar aos 70 dólares. “Agora, aplicações como a Pray.com — que tem cerca de 25 milhões de downloads — também estão também a lançar os seus próprios chatbots”.
Todos os que defendem o impacto positivo destas ferramentas recordam que só nos Estados Unidos cerca de 40 milhões de pessoas deixaram as igrejas nas últimas décadas. Talvez estas “aps” contribuam para diminuir a barreira para o retorno à vida espiritual comunitária. Para já, o que é certo é que elas estão a permitir que as pessoas expressem as suas curiosidades existenciais e teológicas sem o desconforto ou a vergonha de um encontro presencial.










