Lembra-te que a cama é o altar…

| 24 Ago 2023

“Talvez que viver o sacerdócio a partir destes lugares existenciais trouxesse uma outra perspectiva, certamente mais evangélica e mais cristológica.”

 

Talvez por uma fixação mediática, o celibato tornou-se o tema monocromático quando se aborda o sacerdócio ministerial. Parece-me, sendo assim, que se cai num reducionismo colossal, na medida em que, e olhando para outras Igrejas e confissões religiosas em que os animadores das comunidades não são celibatários, encontramos frequentemente as mesmas questões que se colocam na Igreja Católica.

De facto, apercebo-me, por aquilo que vou lendo e pela experiência de ter vivido alguns anos num país maioritariamente protestante, que há igualmente uma crise de lideranças, tanto em quantidade como em qualidade, também nas Igrejas Evangélicas. Por outro lado, em várias Igrejas Ortodoxas, as paróquias não são mais que estabelecimentos privados, propriedade da família do pároco. Na verdade, adquiri essa visão no tempo em que vivi  e trabalhei na Roménia, país de maioria ortodoxa: sempre que entrava numa igreja, havia uma mulher à porta ou dentro de um pequeno quiosque ao fundo do templo. Quando perguntei aos meus colegas da universidade onde trabalhava quem era aquela senhora, responderam-me placidamente que era a mulher do padre que ali governava como a patroa da empresa. A paróquia surgia, assim, como um negócio familiar onde trabalhavam e de que se alimentavam o padre, a sua mulher e filhos!

Dou-me conta, por conseguinte, que, como em tudo, há vantagens e desvantagens em qualquer uma das normas disciplinares de cada tradição religiosa. Será, portanto, a partir do conhecimento mais aprofundado de outras Igrejas cristãs que se nos poderá ajudar, a nós católicos, a tomar as decisões mais correctas na hora de mudar, em qualquer aspecto, a nossa própria tradição. Por exemplo, e em jeito de nota de rodapé, depois da instituição  do diaconado permanente pelo Concílio há cinquenta anos, seria importante que os srs. bispos fizessem uma avaliação concreta deste ministério, começando por prestar mais atenção à actuação, com traços fortemente clericais, de alguns diáconos em certas paróquias! E são todos bem casados!

Julgo, além do mais, que a problemática do sacerdócio ministerial terá de ser encarada a partir do aprofundamento que se fizer da concepção teológica do sacerdócio comum dos fiéis, teologia já plasmada na Lumen Gentium, ao procurar dar hoje novos passos nesse caminho, esforçando-nos a todo o custo por sair da lógica do poder em que quase sempre nos enredamos ao abordar estes temas!

Ora, penso que o melhor exercício para fugir a essa tal lógica de poder é encontrarmo-nos todos, leigos, padres, bispos, religiosos, no serviço concreto aos mais necessitados, na assistência aos doentes à volta de uma cama de hospital, numa ronda pela cidade à noite, ao encontro dos sem-abrigo, no cuidado dos idosos nos lares e centro de dia que polvilham as cidades, vilas e aldeias de todo o país, ou na busca em tantos recantos impensáveis de pessoas que sofrem terrivelmente devido à doença mental que as corrói.

Falo agora a partir da minha experiência de cuidador: quando estou a mudar uma fralda a um doente, tantas vezes rica em urina e fezes, ou a limpar ferozmente um quarto do albergue de um sem-abrigo que ali veio dormir, é nesse corredor de fim de linha que verifico que se acabam as divergências teológicas, se travam a fundo as corridas pelos primeiros lugares, se reduzem a nada os interstícios litúrgicos e se extinguem completamente os jogos de poder. E nasce um grande silêncio…, só às vezes interrompido por um gemido de dor ou o sussurro de um “obrigado”. Ali, efectivamente, sinto-me verdadeiramente sacerdote, porque pequenino, débil, impotente perante o mistério da dor de um outro ser humano que é o meu “tu”, esse enigma de rosto despido, a quem só consigo apertar a mão para me aguentar e segurar a mim próprio e não cair de joelhos, vencido pelo peso da crueldade do sofrimento ou da enorme tragédia que é a pobreza. É ali que mais necessariamente ergo o meu olhar a Deus, para lhe falar, como o amigo fala ao seu amigo, da dor e da desgraça do meu irmão que é também a minha dor, a minha desgraça, junto com a minha impotência e quantas vezes… a minha revolta.

Talvez que viver o sacerdócio a partir destes lugares existenciais trouxesse uma outra perspectiva, certamente mais evangélica e mais cristológica. É que ver o outro, especialmente o que sofre, a partir dos pés que se lavam há-de ser radicalmente muito diferente de olhá-lo de cima, sobretudo quando se curva diante de mim. O próprio Mestre já nos tinha informado disso há mais de dois mil anos…

Um domingo em que o turno durava todo o dia, na unidade de saúde mental, cheguei ao fim da tarde à comunidade e desabafei com um Irmão velhinho, dizendo-lhe que não tinha conseguido nem sequer ir à missa. Então ele ensinou-me algo profundamente valioso e decisivo para a minha vida: “Lembra-te, ó Tereso, que a cama do hospital é o Altar e o doente que aí sofre é Jesus! A tua Missa está dita!” É a esta luz que o meu celibato se enche de sentido evangélico e a minha solidão se ilumina de Deus.

 

Santos Tereso é licenciado em Filologia Clássica, Filosofia e Teologia e está a finalizar o Mestrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Neste momento, vive em Itália.

 

 

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