Semana Laudato Si’ (III)

Lembrar ao nosso coração aquilo que importa

| 22 Mai 2023

Foi por causa do presépio do último Natal que esta ideia nasceu: um presépio (o nascimento) no centro do do mundo e do globo, a nossa casa comum. Foi isso que a paróquia de Valongo do Vouga (Águeda, diocese de Aveiro) quis marcar com essa proposta, depois retomada em cada um dos domingos da Quaresma, entre Fevereiro e Abril. Uma reflexão animada por Manuel José Marques, que fez o curso de animador Laudato Si’, do Movimento com o mesmo nome da encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum e que o 7MARGENS publica a propósito e durante a Semana Laudato Si’, iniciada no domingo, 21, como forma também de desafiar outros grupos, comunidades e paróquias a debater a encíclica do Papa e agir em favor da Criação e da casa comum. Este é o texto correspondente ao II Domingo da Quaresma (5 Março) e sucede à reflexão do I Domingo da Quaresma.

O globo revestido com uma cruz, na igreja paroquial de Valongo do Vouga: “Podemos fazer jejum não como um simples sacrifício, mas como uma atitude forte”. Foto: Direitos reservados

 

Na segunda semana da Quaresma [2023], durante uma celebração da palavra, reflectimos e dialogámos sobre esse período de preparação para a Páscoa. Um tempo de reflexão, caridade, oração e penitência, onde a abstinência e o jejum podem ser práticas comuns.

Para o Papa Francisco, na sua homilia da Quarta-feira de Cinzas, a “Quaresma é o tempo propício para reavivar as nossas relações com Deus e com os outros e isso pode ser feito através da oração, esmola e jejum”.

Assim, a Quaresma torna-se também um tempo de renovação, de mudança, de conversão. E quando se inicia este processo de profunda interiorização que nos transforma o coração e a mente, existe um objectivo definido, que não tem de ser grande ou vistoso, importa é que seja alcançável. Sem dúvida, são mudanças pessoais que afectam a particular sensibilidade de cada um com diferentes intensidades. Apelam à nossa motivação, à determinação e ao compromisso e podem levar o seu tempo.

Mas, tal como referido no livro de orações do Movimento Laudato Si, “a conversão não é real nem verdadeira se não tiver um impacto directo no cuidado com o nosso mundo. Esse impacto é baseado em pequenas acções que, realizadas repetidamente pela convicção de muitas pessoas, são capazes de gerar grandes mudanças. E essas pequenas acções, como desligar uma luz desnecessária, não são muito difíceis de realizar. Basta começar com uma delas: então, a força do hábito fará com que sejam realizadas com naturalidade e, assim, aumentarão em número, intensidade e eficácia.”

Efectivamente, no decurso normal da mesma reflexão dessa celebração da palavra, tratando-se também de conversões ou abstinências, partilhámos algumas acções que cada um realiza em prol do ambiente, em prol da casa comum. São testemunhos que manifestam passos de uma conversão ecológica, inimagináveis há uns anos.

[Em 5 de março] assinala-se o Dia Mundial da Eficiência Energética, que tem como objectivo sobretudo consciencializar a população sobre a importância de reduzir o consumo energético através da utilização mais consciente e sustentável dos recursos.

Pela nossa factura de electricidade, sabemos que cerca de 63 % da energia eléctrica ainda é proveniente de combustíveis fósseis, tais como o gás, carvão e o petróleo.

Ao optarmos por comermos o pão simples em vez de ser torrado, já estamos a contribuir para reduzir o uso de combustíveis poluentes, sem que de modo algum, comprometamos a nossa alimentação. Uma simples acção e, sem dúvida, uma abstinência de enorme valor. Uma mera sugestão.

Em tempos, os sinos tocavam a assinalar a aproximação da celebração da missa. E as pessoas, com muito ou pouco tempo, com ou sem chuva, com frio ou sem frio, individualmente ou em grupo, tal como numa pequena peregrinação ou romaria, a caminhar ou de bicicleta, dirigiam-se, determinadas, dos diferentes lugares, para participar naquela celebração. Um saudosismo nostálgico.

Tal como noutros tempos, os sinos tocam para o mesmo efeito. Tal como noutros tempos, podemos realizar a mesma viagem sem usar o carro, podendo ser mais uma oportunidade de fazer abstinência. É para quem pode, claro, e para quando é possível. Cada um saberá optar, respeitando pacificamente a sua decisão.

Será, contudo, uma viagem realizada de consciência mais tranquila. Não tem de ser penitência, muito menos castigo, bem pelo contrário. Podemos aproveitar para exercitar o corpo, melhorando a nossa saúde. Podemos aproveitar para meditar, para contemplar uma ave que passa, uma flor, uma nuvem, o sol. Podemos acenar, saudar, sorrir, e naturalmente, evidenciar o nosso testemunho de fé perante outros. Podemos ter a companhia de uma outra pessoa e conversar. Podemos aproveitar o momento para uma oração, podemos fazer dessa poupança uma esmola, e fazemos caridade porque estamos a cuidar da casa de todos nós. Podemos fazer jejum também, “não como um simples sacrifício, mas como uma atitude forte para lembrar ao nosso coração aquilo que importa”, como referido pelo Papa naquela homilia quaresmal.

Tenhamos, pois, o impulso, a coragem, a ousadia e a alegria de experimentar essa viagem. Que seja sugestão para a realização de outras viagens. Que seja Quaresma, que seja Ressurreição!

 

Manuel José Marques é animador de encontros sobre a encíclica Laudato Si’ na paróquia de Valongo do Vouga (Águeda).

 

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