Lembrar as mulheres refugiadas

| 7 Mar 20

Celebra-se neste 8 de Março, domingo, o Dia Internacional da Mulher e caberá por certo, em primeiro lugar, às próprias a luta pelos seus direitos e a outros, como eu, homenagear essa luta e, se possível, contribuir também para uma maior sensibilização para a problemática. E todos, enquanto sociedade, somos responsáveis. Estes dias evocativos têm sobretudo o condão de chamar a atenção e sensibilizar a sociedade para a problemática e relembrar-nos da nossa responsabilidade coletiva enquanto sociedade.

Permitam-me que inicie este meu contributo com uma pequena história. Dir-me-ão que será um pouco despropositada. Talvez, mas ela servir-me-á de ilustração à mensagem que hoje aqui quero partilhar.

Há já alguns anos – talvez no início dos anos 1980 – militava eu no jornal Libertar – Cristãos de Base, quando tive o privilégio de o representar na Conferência Mundial dos Cristãos pela Paz, em Praga. Aparte alguns episódios próprios do período de Guerra Fria e da visão dual que então se vivia, factos houve que me marcaram e me fizeram refletir sobre as causas que nos movem e a luta que por elas travamos.

Esse período era, então, muito marcado pelo desarmamento nuclear e pelas acusações mútuas entre os dois blocos. Um desses factos prende-se com as queixas dos então representantes africanos na Conferência, na maioria jovens, que diziam nada terem a ver com o assunto, pois os seus problemas eram outros e o desarmamento nuclear era uma disputa de países ricos. Sentiam-se completamente arredados da discussão, mesmo marginalizados. Não sendo o fundamento inteiramente exato, a verdade é que eles não deixavam de ter razão. O problema deles era, sobretudo, a questão do desenvolvimento, pois em África a morte fazia parte do quotidiano e nada tinha a ver com o armamento nuclear. Uma outra questão os preocupava e que tinha a ver com o tipo de notícias que as grandes agências noticiosas veiculavam e a forma como o faziam, sentindo-se os africanos sem qualquer voz. Era a consciência do poder da comunicação e da informação e de como esse poder pode moldar as consciências dos países ditos desenvolvidos.

Vem-me à memória amiúde este episódio por me questionar sobre o quanto as nossas preocupações (legítimas e razão da nossa luta) estão por vezes tão distantes das de outros  (também elas legítimas, mas sem voz) e que nos fazem perder o sentido da solidariedade. À semelhança do que se passa no plano individual, também no plano coletivo acabamos por ser um pouco egoístas e autocentrados quando se trata da defesa dos interesses que verdadeiramente nos movem.

Desde os finais do século XIX até hoje foi longo o caminho percorrido pelas mulheres na luta, na reivindicação dos seus direitos e na sua afirmação nas várias vertentes da sociedade, nomeadamente laboral. Contudo, sendo o mundo tão desigual, as vítimas dessa enorme desigualdade entre países, regiões ou grupos continuam a ser as mulheres e as crianças. Muitas delas, porventura a maioria, estão distantes das reivindicações que nas sociedades mais ricas são veiculadas quando até mesmo o direito a viver lhes é negado. Mas também nas sociedades ditas ricas existem grupos que são vítimas de atropelo aos seus direitos mais básicos. Atente-se, por exemplo, ao caso das mulheres vítimas de violência doméstica.

Mulher no campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

Mas neste dia quero sobretudo lembrar (e perdoem-me todas as outras, nomeadamente as que são vítimas) as que não têm voz, aquelas que não engrossam as manifestações de rua ou o espaço da comunicação, mas que calam a revolta e sofrem em silêncio a razão da sua luta. Elas fazem parte dos mais de 70 milhões de pessoas forçadas a deixar as suas casas por motivos de guerra, perseguição, violência e violação aos direitos humanos. Fazem parte dos quase quatro milhões de refugiados da Síria a viver na Turquia, sujeitos ao humor e chantagem do Presidente Erdogan e à incapacidade e indiferença da União Europeia. Fazem parte dos que fogem da Turquia em direção às ilhas gregas, onde são recebidos quase como inimigos. Elas são mães, filhas, esposas, viúvas chefes de família ou apenas mulheres e raparigas que lutam pelo direito a viverem dignamente em paz.

Transcrevo alguns testemunhos publicados pela Amnistia Internacional e que fazem parte do relatório Quero decidir o meu próprio futuro: mulheres refugiadas na Grécia fazem-se ouvir”, publicado pela organização em outubro de 2018 (versão em inglês)

Segundo o relatório, o acordo entre a UE e a Turquia, adotado pelos líderes europeus em março de 2016, bem como as regras europeias de asilo, são os dois principais fatores que estão no centro de muitos dos problemas que os refugiados enfrentam, nomeadamente mulheres e raparigas.

 

Não me sinto segura nem confortável na tenda com… estranhos. Saio do campo bem cedo de manhã e só volto depois à noite.”

(Maysa, refugiada síria)

 

“O chuveiro no campo é de água fria e a porta não tem fecho. Os homens entram quando estamos lá dentro. Não há lâmpadas nos sanitários.”

(Adéle, refugiada da República Democrática do Congo)

 

“[No país] de onde eu venho, a homossexualidade é ilegal e a minha família bateu-me severamente quando descobriu que eu era lésbica. Expulsaram-me de casa. Sinto-me muito nervosa aqui porque partilho um contentor com quatro homens que não conheço. Não quero que ninguém saiba sobre mim. Fico o dia todo fora do acampamento e volto apenas à noite, mas não durmo bem.”

(Simone, lésbica, 20 anos)

 

“Não consigo adormecer e ainda tenho muitos pesadelos por causa do que me aconteceu.”

(Abigail, refugiada camaronesa)

 

“Passo a maior parte do tempo no contentor porque não me sinto em segurança. Há muito álcool no campo e lutas todos os dias. Nunca saio à noite e não deixo os meus filhos sozinhos no exterior, mesmo que seja por perto. A polícia não intervém. Não querem saber o que se passa aqui. Ninguém nos protege”.

(refugiada síria)

 

Precisamos de um espaço onde nos possamos sentir seguras; onde possamos expressar os nossos medos e as nossos pedidos possam ser ouvidos.”

(Mina, refugiada iraquiana com dois filhos)

Em 2017, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) recebeu relatos de 622 sobreviventes de violência de género que se encontram sem saída nas ilhas gregas. Em quase 30% destes casos a violência foi cometida depois de a pessoa ter chegado à Grécia. De todos os incidentes registados pela agência das Nações Unidas no país durante a segunda metade do ano, 80% dos sobreviventes são mulheres.”

“Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres” é o tema proposto pelas Nações Unidas para a comemoração do Dia Internacional da Mulher deste ano.  A mensagem do secretário-geral sublinha que a igualdade de género deve ser uma realidade no século XXI.

Louvo a ousadia, mas pergunto-me se um século será suficiente para tornar este mundo mais justo no sentido de, como dizia Ary dos Santos:

“A posse vai-se acabar/no tempo da liberdade/o que importa é saber estar/juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem/naquilo que a gente quer/é igual dizer meu homem/ou dizer minha mulher.”

Que neste Dia Internacional da Mulher todos nos sintamos irmanados, sobretudo as mulheres, com aquelas que, no silêncio da sua luta, tecem a sua revolta que um dia nos fará ouvir o seu grito. Tentemos que não seja demasiado tarde.

Tentem ser felizes em seara de gente.

 

REFUGIADOS NO MUNDO

(legendas no final)

Legendas do quadro

70,8 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo (dos quais)

41,3 milhões de deslocados internos

25,9 milhões de refugiados

3,5 milhões de requentes de asilo

 

80% dos refugiados vivem nos países vizinhos aos seus países de origem

 

57% dos refugiados registados pelo ACNUR vêm de três países:

6,7 milhões da Síria

2,7 milhões do Afeganistão

2,3 milhões do Sudão do Sul

 

341.800 novos requerentes de asilo: o maior número de novos pedidos, em 2018, foi de venezuelanos

 

Países com maior nº de refugiados acolhidos

Turquia – 3,7 milhões

Paquistão – 1,4 milhões

Uganda – 1,2 milhões

Sudão – 1,1 milhões

Alemanha – 1,1 milhões

 

3,9 milhões de apátridas – número sobre as quais o ACNUR tem dados, mas pensa-se que são vários milhões mais

 

92.400 refugiados recolocados

 

37 mil pessoas são forçadas diariamente a deixar as suas casas, por causa de conflitos ou perseguições

 

16,803 funcionários do ACNUR 

134 é o número de países onde o ACNUR trabalha (Maio 2019)

O ACNUR é financiado inteiramente por contribuições voluntárias, com 86 por cento dos governos e da União Europeia, e 10 por cento de doadores privados.

 

José Centeio é gestor de organizações sociais e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); jose.centeio@gmail.com

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