7MARGENS revela monumento evocativo da vigília da Capela do Rato

“Lembrar o que se queria conquistar, o que se conquistou e o que queremos manter”

| 30 Dez 2023

Dois muros retos, lisos, intransponíveis. Inclinados, não paralelos. Definindo um espaço interior sufocante, apenas possível porque seis êmbolos mantêm os dois grandes blocos de mármore afastados um do outro. Para lá chegar, percorre-se um piso de palavras gravadas na pedra branca. Muitas palavras, muitas. Paz, democracia, dignidade, esperança… É o monumento da autoria da artista Cristina Ataíde que será implantado num esquina do Jardim das Amoreiras para recordar a Vigília da Capela do Rato de 1972 e que o 7MARGENS aqui revela em primeira mão.

Memorial da Vigília da Capela do Rato

Antevisão do monumento no lugar: “Fazer uma obra pública em Lisboa, num sítio tão especial, a propósito de um acontecimento tão importante para a conquista da democracia como a Vigília da Capela do Rato era irrecusável, irrecusável”, repete Cristina Ataíde.” Foto: Direitos Reservados

 

Num sábado à tarde como o de hoje, passava pouco das 19h30, há precisamente 51 anos, no dia 30 de dezembro de 1972, em plena ditadura, uma voz feminina convidava os presentes na capela e todos os que se lhes quisessem juntar a iniciar uma vigília de reflexão e denúncia da guerra colonial. É para recordar “o que se quis conquistar naquela altura, o que se conquistou e o que queremos continuar a manter” afirma Cristina Ataíde a autora do monumento evocativo dessa vigília que em breve será erigido no Jardim das Amoreiras.

A voz que naquele dia se fez ouvir era a de Maria da Conceição (Xexão) Moita.

A voz que hoje ouvimos é a de Cristina Ataíde, a artista convidada pela Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril para conceber e realizar a escultura a implantar no Jardim das Amoreiras, a 100 metros da porta da Capela do Rato, onde a fomos encontrar. Foi um convite por várias razões “irrecusável”. “Fazer uma obra pública em Lisboa, num sítio tão especial como o Jardim das Amoreiras, a propósito de um acontecimento tão importante para a conquista da democracia como a Vigília da Capela do Rato era irrecusável, irrecusável”, repete Cristina Ataíde.

Ainda sem data marcada para a inauguração, mas já em fase adiantada de acabamento que impacte espera a artista que a sua obra tenha junto do público? “Primeiro, gostava que as pessoas não se sentissem agredidas, como, por vezes, me sinto agredida por algumas esculturas que por aí vejo…” E acrescenta com uma ponta de malícia: “Depois, estou preparada para que digam imenso mal, essa é uma constante nacional, faz parte de nós próprios. Para isso estou preparada”.

Agora, retomando o propósito essencial: “A minha intenção foi provocar um sentimento de curiosidade nas pessoas e espero também que possam usufruir a escultura. A peça pode ser vivida, pode-se entrar nela – com respeito, espero! Gosto imenso desta interação com o público e, portanto, as pessoas podem entrar, podem deambular, podem envolver os êmbolos com o corpo, podem circular… espero, sobretudo, que esta obra alcance os seus objetivos: relembrar a Vigília da Capela do Rato de 1972. Para que uns não esqueçam, outros relembrem e outros ainda conheçam aquela que foi uma luta muito importante para a conquista da democracia.”

 

Uma ideia que se impôs

Cristina Ataíde.

Cristina Ataíde: “Numa das minhas caminhadas vi uma obra extraordinária com duas placas empurradas por êmbolos para as afastar, êmbolos que abrem, afastam, empurram, separam. É isto – pensei para mim – não preciso de inventar nada, é isto, está feito. Foto: Direitos reservados.

 

Com tanta carga simbólica como nasce e se encontra um conceito que preste homenagem ao acontecimento que se pretende trazer à memória? “Por acaso foi relativamente fácil chegar a uma proposta – diz a artista para acrescentar, rindo – “não sei se devia dizer isto com tanta franqueza!…” Mas sim, reconhece, algo se impôs naturalmente no seu processo criativo que, habitualmente, passa por “muitos esquissos, repetidas idas ao local, muita leitura sobre o acontecimento e sobre o que se está refletindo a propósito da obra pública”. Desta vez também foi assim, mas “foi muito interessante” a forma como chegou ao conceito da peça. “Sabe, gosto imenso de andar a pé e numa dessas minhas caminhadas vi numa estrada uma obra completamente extraordinária com duas placas empurradas por êmbolos para as afastar, êmbolos que abrem, afastam, empurram, separam. É isto – pensei para mim – não preciso de inventar nada, é isto, está feito.”

Foi esse movimento de empurrar os muros que a vigília significou: “Vivíamos num tempo em que tínhamos paredes que nos comprimiam, muros que nos tapavam e um grupo de cristãos e de outras pessoas, todos de uma força incrível, resolvem unir esforços para derrubar, alargar, abrir estes muros horríveis que nos continham.” A partir daqui, houve muito trabalho de composição, “mas o conceito estava adquirido” e “na obra pública, o conceito – a capacidade de transformar uma ideia abstrata numa forma concreta – é fundamental, é o desafio principal”.

Adquirido o conceito, nunca mais o colocou em causa, embora tivesse “desenhado várias formas”, lembra Cristina Ataíde: “tentei fazer ao alto, coloquei um dos blocos a entrar no outro, passei, é verdade, por uma série de formas anteriores, mas quando cheguei a estes muros e a estes êmbolos fixei-me nesta forma.” Porquê? “Porque era uma forma relativamente abstrata, o que me interessava: não ia indicar isto ou aquilo. Era só aquilo. Não ia parecer – o que é terrível em arte, principalmente na escultura: parecer que é, mas afinal não é”.

Outro aspeto interessante foi o tamanho, conta. No início, “tinha feito a maquete no atelier e parecia algo de enorme”, mas depois veio ao Jardim das Amoreiras fazer a implantação no terreno, hábito que nunca deixa para trás, e “aquilo era minúsculo!” O local impôs refazer tudo de novo: “tive de alterar as medidas, introduzir uma alteração de escala e ainda acho que é pequeno! (risos). Mas, pronto, foi desenhado aqui, em consonância com o aqueduto, com aquela peça magnífica que é a Mãe de Água e com as árvores… E sinto-me bastante satisfeita e segura com o resultado final – o que também é importante!”

 

A importância da palavra

Antevisão do memorial, visto de cima: É preciso percorrer um chão coberto de palavras para se poder ‘entrar’ no espaço entre muros. “As palavras inscritas são muito importantes, remetem para o que se quis conquistar naquela altura, para o que se conquistou e para o que queremos continuar a manter.” Foto: Direitos reservados.

 

Os muros, as duas enormes placas de mármore, e os êmbolos que as separam não são os únicos elementos da escultura. O conjunto assenta num pavimento que o antecede. É preciso percorrer um chão coberto de palavras para se poder ‘entrar’ no espaço entre muros. “As palavras inscritas são muito importantes – sublinha a artista –, remetem para o que se quis conquistar naquela altura, para o que se conquistou e para o que queremos continuar a manter, porque há ideias e realidades que são difíceis de manter, algumas tão fundamentais como a democracia ou os princípios éticos”.

Cristina Ataíde trabalha muito com “listas de palavras do mundo”, listas que vão somando novas palavras à medida do passar de acontecimentos marcantes. “A palavra é algo que nos faz parar, pensar, focar… a palavra levanta questões, propõe pistas. Numa peça pública como esta, que será vista por muita gente, é importante que o conceito-base esteja explícito, não deixe dúvidas… e a palavra tem essa vantagem. Por alguma razão ‘no princípio era o Verbo’…”

Muita palavras escritas no chão, mas “palavras positivas”. Guerra, opressão, ditadura, ou outras do género não se leem ali. “Não é isso que queremos – explica Cristina – queremos o contrário. E, claro, deixei escrito, pelo menos em dois sítios, ‘Vigília da Capela do Rato,”.

Dois grandes rasgos no extremo do jardim, perto da entrada para a Mãe de Água, na esquina em que começa a Calçada Bento da Rocha Cabral que a caminho do Largo do Rato passa pela dita capela, marcam o local em que o memorial será implantado. Uma obra pública é sempre uma criação mais difícil? “A obra pública é sempre um trabalho que levanta muitas questões, muito complicadas, que é preciso gerir com muito cuidado, com muita parcimónia”, reconhece a escultora, “mas acho que é como tudo o resto. Os artistas estão sempre a tomar decisões, são pessoas de ação. As coisas só nascem depois de uma decisão e de uma ação de concretização. A nossa vida é essa. Podemos ter mais dúvidas, perceber se o que projetamos vai funcionar bem, ou se, pelo contrário, funciona mal. Mas temos de decidir.”

E a decisão tem, por vezes, encontros felizes com a realidade: “Quando na pedreira me apresentaram aquele bloco lindo de 4,80 metros de comprimento por três de altura fiquei… sei lá?… no céu!” De facto, com aquela dimensão nunca uma pedra tinha sido trabalhada na pedreira VO da Vigária. “. Tiraram aquela pedra de propósito para este monumento. Temos de agradecer de modo muito especial à ETMA-Solubema,e aos seus donos pela generosidade e cuidado extraordinários com que acolheram o pedido. Nisso estiverem bem acompanhados pelo presidente e vice-presidente da Câmara de Vila Viçosa que foram os grandes responsáveis pela obra ser realizada com mármore da região”.

 

Memorial da Vigília

Criando a desejada liberdade

Cristina Ataíde nasceu em Viseu, em 1951, licenciou-se em escultura na então Escola Superior de Bela Artes de Lisboa e expõe com regularidade desde 1984. É desde o início dos anos noventa do século passado convidada a realizar intervenção pública, encontrando-se as suas esculturas presentes em cidades de norte a sul de Portugal. A sua extensa e aclamada obra transita entre a escultura e o desenho, passando pela fotografia e pelo vídeo, e vem sendo marcada pelas preocupações da artista com a natureza e sua preservação.

Na memória descritiva do memorial que propôs para a comemoração dos 50 anos da Vigília da Capela do Rato [ver 7MARGENS ] Cristina Ataíde escreveu:

“A escultura tem um corpo central, constituído por dois muretes em mármore de Vila Viçosa que criam uma passagem estreita e afunilada. São dois muros fortes, mas inclinados, simbolizando o poder opressor estabelecido, mas já em queda. Entre os dois muros, encontram-se êmbolos em aço inoxidável que remetem para as forças populares que empurram esses poderes e os tentam afastar, empurrar, derrotar, criando a desejada liberdade.

A base onde assenta a escultura é também em mármore e tem duas zonas distintas. Entre os muros, o revestimento é liso e baço, um caminho já percorrido. Nas duas zonas exteriores e envolventes do corpo central, um caminho NOVO, as placas do chão, também em mármore, têm palavras que foram ditas durante a Vigília e que queremos lembrar: PAZ, LIBERDADE, DIREITOS, MUDANÇA…, assim como palavras (sempre na positiva) que nos façam pensar o que queremos defender. Palavras que se devem manter presentes para podermos viver em Liberdade e Democracia.

Toda a escultura pode ser percorrida pelos visitantes, interagindo com ela.”

J.W.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Migrações e Sínodo em destaque no primeiro Curso de Integração Missionária

A decorrer em Fátima

Migrações e Sínodo em destaque no primeiro Curso de Integração Missionária novidade

A primeira edição do Curso de Integração Missionária está a decorrer no Centro Missionário Allamano, em Fátima, até à próxima sexta-feira, 26 de julho. Dinamizada pelos Institutos Missionários Ad Gentes, a formação, que arrancou na terça-feira, reúne cerca de 80 pessoas, sobretudo missionários estrangeiros que chegam para trabalhar em Portugal, assim como portugueses que regressam ao seu país natal, depois de muito tempo de ausência.

Os velhos não valem nada!

Os velhos não valem nada! novidade

Uma noite engolida em seco. Pessoalmente, estive a medir um SNS – Serviço Nacional de Saúde sem meios humanos e físicos, nos limites, mas que me tratou com agradecida humanidade, malgrado as nove horas da espera.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This