Testemunho

“Lembro-me que estou vivo e que a vida é bela.” Um mês com covid-19, entre a vida e a morte

| 25 Jun 21

É uma fatia de pizza, fria, oferecida por uma enfermeira, que lhe devolve a consciência de que está vivo. Antes, a dado momento da sua hospitalização com covid, dará consigo a reflectir: “O sofrimento, aqui, é real, mas o pior é a solidão.” Durante um mês, Rui Araújo, repórter da TVI, esteve entre a vida e a morte. Um testemunho na primeira pessoa.

Rui Araújo em coma no Hospital São Francisco Xavier. Foto Direitos reservados

Rui Araújo em coma no Hospital de São Francisco Xavier. Foto: Direitos reservados.

 

Acordo sem amanhecer porque neste lugar a noite não existe. O enorme relógio de parede parou no tempo. O dia aqui é uma luz branca e fria.

Tenho os pulsos e os tornozelos atados à maca com fitas de seda. É a gota d’água. Perco definitivamente as estribeiras. Tento libertar-me com pontapés, mas não tenho força nas pernas. Uma dor lancinante percorre o meu corpo hirto. Estou preso. Há quanto tempo? Não faço a menor ideia. Também não sei onde estou e, sobretudo, não sei o que faço aqui. Dou gritos aflitivos. A minha voz não se ouve. Os poetas dizem que os homens preferem o efémero e não conseguem lidar com a eternidade. Os poetas têm sempre razão. Rebento. Estou farto de uma liberdade que tem os limites do meu próprio corpo. Ou seja: imobilizado.

– Olá! – dispara um vulto desfigurado atrás da cortina opaca que me rodeia. – Sabe onde está?

Não lhe digo que estou desanimado por estar aqui amarrado e não compreender nada. Não lhe digo nada. A minha situação é absurda, mas a esperança é a última coisa que se perde…

– Senhor Rui. Sabe onde está?

É difícil responder-lhe com a máscara de oxigénio posta. Sou um verdadeiro sonâmbulo. Estou bastante confuso depois de sonhar com muitos mundos paralelos e com ilusões acidentais incoerentes. A sólida realidade que criei na minha mente é um verdadeiro disparate. Preciso de pessoas à minha volta para tentar escapar à morte ou para ser capaz de discernir a transcendência de que necessito.

Estou dentro de uma carruagem parada na estação de uma aldeia morta. Está muito calor. Uma passageira dá-me dois euros para que eu possa comprar uma garrafa de água. Estou literalmente a morrer de sede. Sinto uma grande desilusão: a loja está fechada. Durante duas intermináveis semanas, não me deram nada para comer ou beber.

Os pesadelos sucedem-se. Depois do comboio, acontece outra história num hotel em Djerba ou Trujillo. A lata de refresco que abro é, no fim de contas, uma encorajadora perspectiva de esperança, mas não tenho sequer tempo de matar a sede…

Rui Araújo breve

“A imprensa portuguesa, tão distante da minha aflição, publica uma notícia que parece ser o início do meu obituário.”

 

O relatório médico diz claramente que apresento “um quadro clínico de agitação/delírio hiperactivo”. É a explicação detalhada do mistério da inquietude. Morrer à fome é sempre mais moroso do que morrer de sede. Não é pior. A morte não é má nem boa. A morte é a morte. É o que dizem. Ponto.

De qualquer modo, a imprensa portuguesa, tão distante da minha aflição, publica uma notícia que parece ser o início do meu obituário. O sofrimento, aqui, é real, mas o pior é a solidão.

Os médicos da Unidade de Cuidados Intensivos Cirúrgicos (UCIC) do Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa) são peremptórios: “Pneumonia crítica por SARS-CoV-2 com sobreinfecção bacteriana e insuficiência respiratória de tipo 2 com necessidade de ventilação mecânica invasiva.”

Foi uma viagem de quase um mês entre a vida e a morte. Lembro-me da ambulância e de pouco mais. Fui admitido no serviço de urgência por agravamento da insuficiência respiratória hipoxémica em contexto de pneumonia grave por SARS-CoV-2 com ARDS (Sindrome respiratória aguda potencialmente fatal porquanto os pulmões não conseguem fornecer oxigénio em quantidade suficiente aos órgãos vitais). 15 litros de oxigénio (O2) por minuto para começar…

Duas semanas em coma induzido, três semanas nos Cuidados Intensivos e quase quatro no hospital. Louvo o pessoal da UCIC do Hospital de São Francisco Xavier: técnicos de saúde, enfermeiros e médicos. Os turnos não são os mesmos para todos. Os médicos trabalham 24 horas. Os enfermeiros 12. Os auxiliares de enfermagem trabalham oito. A dedicação destas pessoas é imensa. Cuidam de nove pacientes (oito homens, comigo, e uma jovem mulher, grávida de 17 semanas). São competentes e enchem-nos a alma apesar de não podermos ver os rostos.

– Aqui, regressam à vida! – sussurra uma enfermeira de olhos cheios e expressivos antes de me oferecer uma esferográfica e duas folhas de papel. O desabafo é sincero.

À minha frente tenho outra cortina azul sem amplitude. É o horizonte permitido. Ponho-me a ruminar pensamentos de antanho. Ouço vozes distantes. Não há gemidos. Penso. Tenho ganas de viver com afinco. É aqui que me habituo ao mistério da vida. O meu objectivo é continuar a lutar, mais por carácter do que por qualquer outra coisa.

Rui Araújo em reportagem na República Centro-Africana num helicóptero com soldados

Rui Araújo em reportagem na República Centro-Africana num helicóptero com soldados. Foto: Direitos reservados.

 

Os momentos de alegria são fugazes, mas afastam os meus fantasmas. O meu amigo Rolando Santos criou com três dezenas de companheiros da TVI (Televisão Independente) e da RTP um grupo informal na Internet para acompanharem a evolução do meu estado.

Hoje, leio algumas mensagens. Tristes. O diálogo seria muito mais divertido se os médicos não tivessem pensado durante as minhas duas semanas de coma que eu estava condenado….

[19/11/20, 19:14:29] Tiago Ferreira: Estou de rastos com esta merda…
[19/11/20, 19:15:21] Rolando Santos: Força aí, que o homem ainda não desistiu!
[19/11/20, 19:15:36] Miguel Freitas: 👍
[19/11/20, 19:15:50] Tiago Ferreira: Teimoso como uma mula.
[11/19/20, 19:16:18] Tiago Ferreira:  Bem, a hiper-actividade pode ser que ajude.
[19/11/20, 19:16:32] Rolando Santos: Para se tratar, mas também para pegar o bicho pelos cornos!
[19/11/20, 19:16:34] Romeu Carvalho: Vai ter que levar duas chapadas quando voltar para não ser teimoso.
[19/11/20, 19:16:53] Tiago Ferreira: Não adianta!
[19/11/20, 19:17:05] Rolando Santos: Tem que ser mesmo um enxerto de porrada, que isto já não vai lá com festas.
[20/11/20, 22:09:52] Henrique Dias: Caros, Rezem….  Ou pensamento positivo para que ele “vença esta batalha” e consiga algures fazer uma nova reportagem de “guerra”, que ele tanto adorava….
20/11/20, 23:15:56] Tiago Ferreira: Ele vai-se safar. Eu sei que vai.
[20/11/20, 23:30:19] Pedro Pedroso: 👍🙏

Resmungo, mas ao mesmo tempo tomo consciência do peso dos laços de amizade demonstrados pelos meus camaradas de infortúnio profissional. Costumo pedir para não dizerem à minha querida mãe que sou jornalista. Ela ficaria muito decepcionada. Pensa que sou pianista num bordel….

A minha rotina é: extracção de sangue, pequeno-almoço, inalação de pó, almoço, extracção de sangue, inalação de pó, extracção de sangue, extracção de sangue, extracção de sangue, extracção de sangue, jantar, etc.

Uma das vezes os enfermeiros disseram-me que desistiam de continuar a picar-me por humanidade. Não tenho sossego. Mal consigo mexer-me. A algália dá-me dores violentas. Tiram-na. A urina caía dentro de uma espécie de garrafa ao lado da maca com um rótulo parecido com os do uísque.

– Vou-me embora. Deixem-me ir.
– Quer infectar outros? Assume essa responsabilidade? – pergunta-me uma enfermeira.
– Imploro-vos: ponham-me outra vez em coma – Deus santo! Não suporto isto…
– Neste momento, não tem sequer forças para se levantar…

É verdade que não conseguia dar um passo. Uns dias mais tarde deram-me uma cadeira de rodas.

– E precisa de oxigénio…

A minha motivação para “matar saudades” da vida desapareceu imediatamente. A angústia crescia no peito.

– Amanhã fará uma TAC (tomografia axial computorizada) dos pulmões…

Rui Araújo carta

A carta de uma jovem camarada de profissão recebida na cama de hospital.

O Dr. António Pais Martins, director da unidade, veio saudar-me. É um excelente profissional.  O aprumo do serviço é obra dele. “Como um mensageiro dos deuses, esforça-se por me fazer sentir que sou humano. Eu não quero ser mais nada”, diria Miguel Torga. Começámos a tratar-nos por tu.

– Tenho uma pequena carta surpreendente para ti.
– Uma carta?
– Carta de uma paciente.
– O quê? Não conheço nenhuma paciente aqui…
– Dou-ta?
– Não!
– Como, não?
– Não a consigo ler. Não tenho os óculos, ficaram no saco de plástico com os meus pertences no cacifo do hospital.
– Obviamente…
– Agora a sério: não conheço ninguém aqui…
– A autora é uma colega tua que está aqui internada com covid-19.
– Podes ler-me a carta? – pergunto.

 

“Força e coragem! Isto vai passar. Está entregue aos melhores! Quando sairmos daqui, vamos dizer a todos que este ‘bicho’ é real e que os profissionais de saúde merecem ser reconhecidos e valorizados.
Um grande beijinho.
Marta”

As palavras assombrosas (sem clamor) de solidariedade da jovem companheira que não conheço são muito mais revigorantes do que qualquer perfusão. Respondi-lhe com caligrafia encorpada e hesitante. Quando isto passar (já que tudo acaba em ficção) tomamos um café.

Naquele momento tenho sobretudo sede, apesar de não ter força para abrir uma garrafa de água. Os enfermeiros encomendam as refeições através do telemóvel: pizzas com complementos. De repente, fico com fome. Servem-me uma sopa de legumes, peixe assado e uma sobremesa que não identifico. Não reajo. Estou aqui para sofrer…

– A enfermeira Mariana, o enfermeiro André e eu queremos celebrar a tua vitória contigo. Vamos comer marisco no Relento, em Algés…” anuncia-me Diogo, outro auxiliar amável, divertido e diligente.

– Depois desta travessia, será um prazer estar convosco fora do hospital. Nunca sofri tanto na minha vida como aqui…

Um mundo ao contrário. Os que me salvaram a vida querem agradecer-me por eu estar vivo. Como diz o meu bom amigo Alfonso Armada, a vida tem sentido porque a morte existe. Feitas as contas, submetemo-nos ou sacrificamo-nos, mas o importante é não perdermos a alma.

Rui Araújo. Foto © Nuno Pereira

Rui Araújo: “Lembro-me que estou vivo e que a vida é bela.” Foto © Nuno Pereira.

 

A covid-19 é insidiosa. Sob uma aparência benigna, oculta muitas vezes uma grande gravidade. A minha condição era desesperada. Uma semana depois da minha chegada à Urgência é apenas preocupante…

[24/11/20, 14:36:38] Rolando Santos: Tudo a rezar, Malta! Até os ateus, se faz favor!
[25/11/20, 22:45:14] Henrique Dias (parafraseando uma enfermeira, sua amiga): “Continuam a tentar o desmame… [da sedoanalgesia]… Ainda não conseguiram porque ele não fica bem adaptado ao tubo endotraqueal (antes de retirar o tubo é preciso que o doente acorde, ainda ventilado). De resto, continua igual… Está estável em termos de frequência cardíaca e tensão arterial… Estamos a investir o que podemos. Mas era o que tinha dito, este covid tem tempos muito demorados de recuperação. Vamos aguardar com esperança! Ok?

Os relatórios médicos podem ser desanimadores. Depois de cinco dias, com o aumento radical das enzimas hepáticas, deixam de me dar o fármaco Remdesivir. Tentam desmamar-me da sedo-analgesia e da noradrenalina. Não há resposta. Estou agitado. Deliro. Optam por uma terapia múltipla. Não respondo. Dão-me mais hipnóticos…

Encontro-me numa cerimónia com gente elegante. As imagens são todas esverdeadas. Uma mulher muito bonita põe um lenço à frente da minha boca. Ouço-a dizer: Ai, Ai, Ai…! Perco a consciência.

Dia de alta dos Cuidados Intensivos. Não era o meu dia de morrer. Fim da primeira parte da minha história clínica. Início da minha segunda existência.

A enfermeira Isabel aproxima-se da maca e oferece-me um pedaço de pizza fria enrolado num guardanapo de papel.

– Apetecia-lhe comer pizza. – Partilhe uma fatia comigo. – Desfrute-a! – diz ela com sotaque brasileiro.

Olho para ela. Mordo o meu presente. Sorri. É a minha vingança contra a SARS-CoV-2. Lembro-me que estou vivo e que a vida é bela.

 

Rui Araújo é jornalista da TVI; este texto foi inicialmente escrito e publicado em espanhol na revista Frontera D, de Madrid.

 

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