
Assinatura da Charta Oecumenica pelo Metropolita Jérémie, presidente da Conferência das Igrejas Europeias, e pelo Cardeal Vlk, presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias, em Estrasburgo, 22 de abril de 2001. Foto: Marianne Ejdersten/CEC
A “Carta Ecuménica”, a que o 7MARGENS se tem referido e em consulta pública até ao dia 30 de novembro, será assinada pela Conferência de Igrejas Cristãs (CEC)” e o Conselho de Conferências Episcopais da Europa (CCEE), em Portugal pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e o Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC). O documento mereceria da parte dos cristãos e cristãs portugueses uma atenção que me parece não ser esse o caso. Refere a “Carta” na Introdução: “elaborámos a Carta como compromisso comum com o diálogo e a colaboração. Ela estipula fundamentais deveres ecuménicos donde faz derivar uma série de linhas mestras e compromissos. Ela deve promover, a todos os níveis da vida das Igrejas, uma cultura ecuménica de diálogo e colaboração, e, para tanto, (deve) criar um critério vinculativo. Ela não se reveste, todavia, de nenhum carácter magistral, dogmático ou canónico. A sua normatividade consiste mais na auto-obrigação por parte das Igrejas e das organizações ecuménicas signatárias. Estas podem, com base nestes textos, formular, no seu (próprio) contexto, integrações próprias e orientações comuns, que tenham concretamente em conta específicos desafios próprios e os correspondentes deveres.” Se esta “Carta”, em discussão, deve possuir “uma cultura ecuménica de diálogo e colaboração” a “todos os níveis da vida das Igrejas”, deveria ser promovida toda uma campanha de informação sobre a a mesma, envolvendo todo o povo das igrejas signatárias. Ora tal não está a acontecer e o ecumenismo faz-se muito mais com as chamadas “bases” do que com os “topos”. Fica aqui o meu desalento, e tenho fé do meu engano.
A Carta em si, e na generalidade, é tímida, não dá passos como o ecumenismo necessita, veja-se: quando se fala em sacramentos, refere-se unicamente os sacramentos do batismo e da eucaristia. O do batismo está resolvido, mas o da eucaristia deveria ser melhor desenvolvido de tal forma que não existissem entraves a um reconhecimento mútuo – aliás, verifica-se na prática o “reconhecimento” quando crentes das várias igrejas já se aproximam das mesas da comunhão em qualquer tradição cristã; também no concernente às mulheres dever-se-ia ir muito mais longe e a Igreja Católica Romana aprender quanto à ordenação das mulheres nas outras confissões.
Mas não querendo “navegar” pelo documento fora, ficar-me-ei na questão ecológica. Diz o documento: “Nós nos comprometemos 1) a realizar uma conversão ecológica a nível pessoal, eclesial, social e comunitário, para proteger toda a criação; 2) a instigar e apoiar especificamente iniciativas que encorajam o florescimento de todas as criaturas de Deus; 3) a trabalhar juntos para apoiar as comunidades afetadas negativamente pelas mudanças climáticas.” Esta nomenclatura da “conversão ecológica”, está sempre dependente do que significa “ecologia”. Ecologia [1] é uma palavra derivada do grego “oikos” e “logos”, ou seja, “família” e “estudo”. Esta família que é uma “casa ambiental”, inclui nela todos os organismos vivos, que a tornam habitável, assim Ecologia será a “vida em casa”, os seres em relação, nos seus ambientes. Pelo que os seres em relação na nossa vida incluem as ecologia económica, ecologia social, ecologia ambiental e ecologia cultural, e serão estas as frentes em que a relação ecuménica deverá atuar, o que está omisso no documento ou, pelo menos, não está clarificado. Basta recordar a Laudato Si´, o Conselho Mundial de Igrejas ou ainda o teólogo Leonardo Boff. [2]
Deixo aqui estes breves comentários, como participação na reflexão do documento, muito mais haveria a comentar.
[1] Kates, R. W., Parris, T. M., & Leiserowitz, A. A. (2005). What is Sustainable Development? Environment, 47 (3), 9 – 12.
Odum, E. P., Ph, D., Barrett, G. W., & Ph, D. (2005). Fundamentals of Ecology. (THOMSON, Ed.) (5th ed.). United States of America.
Rowe, J. S. (2009). The Level-of-Integration Concept and Ecology. Ecological Society of America, 42(2), 420–427. https://doi.org/
http://www.jstor.org/stable/1932098
[2] Boff, Leonardo (2013). “La Sostenibilidad – qué es qué no es”. Sal Terrae. España.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










