Leonor Xavier continua connosco

| 17 Dez 2021

Em memória de Leonor Xavier, querida amiga.

 

Leonor Xavier. Foto © Direitos Reservados

 

Leonor Xavier deixou-nos, mas a sua memória está viva. Para ela o espírito de Natal de Cristo tudo significava, como Humanidade acolhedora, por isso recordo em transcrição a parte final de um célebre conto de Sophia de Mello Breyner – Noite de Natal, que tão intensamente nos toca e de que Leonor gostava: “Já no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E sobre essa claridade a estrela parou. E continuaram a caminhar. Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana (devo dizer Leonor) viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava. E Joana (aqui, Leonor) viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo. Em sua roda, ajoelhados no ar estavam os anjos. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz, sem nenhuma sombra. E, com as mãos postas os anjos rezavam, ajoelhados no ar. Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel. – Ah (…) aqui é como no presépio!”.

Lembramos a sua generosidade e o talento de fazer amigos. E deleitamo-nos com o seu livro Casas Contadas, uma extraordinária trajetória de vida vista através do ambiente de treze casas que habitou desde a infância. Por outro lado, demos a volta ao mundo e essas viagens ficaram memoráveis. Releio Uma Viagem das Arábias e não posso deixar de reviver essas aventuras. E folheio Há Laranjeiras em Atenas, descubro uma rara capacidade de olhar. Adorava divertir-se e dava tudo por uma boa tertúlia e pelas mil lembranças que aí apareciam. Leonor, tanta falta nos faz!

Simbolicamente, o Papa recebeu este ano um presépio dos Andes – da aldeia de Chopcca, uma comunidade de Huancavelica (do Peru) – e uma árvore do norte da Itália, vinda das florestas do Trentino.

A propósito destes dois gestos de afeto e de partilha, a riqueza das diferenças ficou bem marcada, como verdadeiro apelo ao acolhimento e ao respeito mútuo, marcas indeléveis do amor cristão (agapé). E assim reafirmou que não devemos deixar que o Natal seja contaminado pelo consumismo e pela indiferença. Os símbolos tradicionais, tão diferentes entre os povos, como o presépio e a árvore decorada, remetendo-nos para a certeza de que a alegria da Encarnação enche o nosso coração de paz pela consciência de que Deus se torna familiar, porque vive connosco. 

O Papa Francisco considerou, assim, que o “verdadeiro Natal” passa por dar atenção e cuidar dos outros, “especialmente dos mais pobres, dos mais fracos e dos mais desprotegidos, que a pandemia corre o risco de marginalizar ainda mais”. E assim o tradicional presépio da Praça de São Pedro em Roma é constituído este ano por mais de 30 figuras alusivas aos Andes peruanos, em tamanho natural, usando materiais como cerâmica, madeira de agave e fibra de vidro; o Menino Jesus é apresentado como uma criança “Hilipuska”, envolta num típico cobertor huancavelica e apoiada por um “chumpi” ou cinto trançado. “As personagens do presépio, construídas com materiais e vestimentas próprias desses territórios, representam os povos andinos e simbolizam o chamamento universal à salvação.” No fundo, a cultura é tanto mais rica quanto puder afirmar a igualdade e a diferença, a liberdade e a generosidade.

O Papa salientou a força e o simbolismo do “majestoso abeto” das matas dos Andes, com cerca de 28 metros de altura e oito toneladas de peso, cuja imponência permitirá aos peregrinos compreenderem como “o abeto é um sinal de Cristo, enquanto árvore da vida, evocando o renascimento, dom de Deus que está unido para sempre ao homem e que nos dá a sua vida. As luzes dos pinheiros lembram as de Jesus, a luz do amor que continua a brilhar nas noites do mundo”, como recordou ainda o Papa Francisco. E volto à recordação de Leonor Xavier… Tudo isto é motivo para continuarmos a encontrar-nos!

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

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