Leprosários

| 16 Abr 2021

Homossexualidade na sombrqa

“Casais homossexuais: o testemunho da gratuidade de um amor que se completa a si mesmo”. Foto © Robert V. Ruggiero / Unsplash

 

A mais recente Responsum ad dubium[1] da Congregação para a Doutrina da Fé relativa à bênção de uniões homossexuais tem feito correr rios de tinta. Se, por um lado, haja quem veja um retrocesso no caminho de inclusão delineado pelo Papa Francisco, outros encaram esta resposta como um travão necessário à prática de bênçãos a casais homossexuais, em total coerência com a linha da doutrina moral da Igreja.

Antes de qualquer tomada de posição importa ler as linhas e entrelinhas da nota e atender à sua natureza. A Responsum ad dubium reveste um caráter de esclarecimento por parte da Congregação da Doutrina da Fé perante uma questão submetida à sua apreciação. Neste caso, a questão prende-se em saber se a Igreja estaria ou não legitimada a abençoar uniões homossexuais. A resposta da Congregação da Doutrina da Fé baseia-se em dois pontos fulcrais:

“[…] Para ser coerente com a natureza dos sacramentais, quando se invoca a bênção sobre algumas relações humanas, é necessário – além da reta intenção daqueles que dela participam – que aquilo que é abençoado seja objetiva e positivamente ordenado a receber e a exprimir a graça, em função dos desígnios de Deus inscritos na Criação e plenamente revelados por Cristo Senhor. São pois compatíveis com a essência da bênção dada pela Igreja somente aquelas realidades que de per si são ordenadas a servir a tais desígnios.

Por tal motivo, não é lícito conceder uma bênção a relações, ou mesmo a parcerias estáveis, que implicam uma prática sexual fora do matrimônio […]”

As relações homossexuais não são consideradas ordenadas a servir os desígnios de Deus, num primeiro ponto, e, numa segunda vertente, entende a Congregação para a Doutrina da Fé não ser lícito abençoar relações que impliquem um relacionamento de natureza sexual fora do matrimónio.

A Resposta que afirmou não querer ser uma “injusta discriminação” acabou a ser uma contradição absoluta com o desafio de inclusão e caminho ao encontro das periferias a que o Papa, repetidas vezes, nos exorta.

Também importa deixar uma nota acerca da posição do Papa. O Responsum da Congregação para a Doutrina da Fé afirma que o Papa Francisco manifestou a sua concordância com o teor da resposta. E não poderia ser de esperar outra coisa de um Papa que demonstra a cada dia a preocupação com a coesão no seio da Igreja. Importa fazer uma leitura global dos gestos e palavras dos Papa Francisco para perceber que não é na doutrina que procurou introduzir mudanças, mas antes nos gestos e palavras do dia-a-dia. É por esses e através desses que o devemos ler.

Os diversos temas, ditos “fraturantes”, discutidos pela Igreja, uma parte significativa dos quais se prende com questões do foro conjugal e íntimo de cada pessoa, são uma feroz intrusão e uma inapropriada intromissão na vida privada. Ninguém, seja qual for a sua condição ou experiência de vida, poderá alguma vez legitimamente pronunciar-se sobre uma outra relação. Aquilo que se passa no âmago do nosso coração é intransmissível e inenarrável, e talvez seja essa uma das facetas mais belas do amor: existir uma linguagem própria, inacessível a terceiros, entre essas duas pessoas.

Muita tinta é gasta a contestar e disciplinar o modo de viver e se relacionar entre os casais. Quase me atreveria a dizer que aquilo que sacraliza as relações conjugais ou quaisquer outras relações é, não o rito matrimonial, mas o amor vivido em reciprocidade. A partir desse momento, a relação torna-se sagrada.

É certo que um dos mais belos frutos do amor é gerar uma nova vida. Os casais homossexuais não têm essa forma de fecundidade, mas podem ter outra, não menos importante: o testemunho da gratuidade de um amor que se completa a si mesmo. Nesse aspeto, a pretensão de grupos de defesa de direitos homossexuais incorre num erro que os empobrece, que é a pretensão de querer fazer igual o que é diferente. A Igreja e cada um teria a ganhar em conhecer e acolher as diferenças com a abertura de que poderão sempre ter algo a ensinar-nos, ao invés de excluir. Tudo se perde com a exclusão. É no encontro de diferenças e até de antagonismos que construímos uma identidade. Identidade essa que nos permite assumir um carisma pessoal mas em constante diálogo com o mundo. Privar-nos desse diálogo desvitaliza-nos.

Por dever de honestidade devemos reconhecer que todos temos os nossos leprosários. Lugares onde arrumamos aqueles que condenamos. Fechando pessoas ou ideias nesses leprosários reconfortamos o nosso ego que nos faz querer ser imaculados, os puros da história. No fundo, comportamo-nos sempre como o filho mais velho da parábola do filho pródigo.

Somos excelentes criadores de leprosários quando olhamos com desdém vidas que não conhecemos, quando condenamos sem conhecer a história, quando fugimos dos que nos maçam, quando sentimos repulsa por alguém, quando pela maledicência ou juízos apressados manchamos para sempre a imagem de uma pessoa.

De cada vez que excluímos alguém, é Cristo que estamos a crucificar novamente.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

[1] Responsum da Congregação para a Doutrina da Fé a um dubium sobre a bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo,

 

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