Magnifica Humanitas não é um manifesto tecnocrático com verniz religioso, nem um tratado neutro de ética pública. É, antes de tudo, um documento cristão e católico. E só pode ser compreendido verdadeiramente se for lido a partir dessa matriz.
Há uma tendência contemporânea para elogiar os documentos da Igreja apenas na medida em que parecem coincidir com sensibilidades culturais já instaladas: direitos humanos, sustentabilidade, inclusão, regulação tecnológica, crítica do capitalismo digital. Tudo isso está presente na encíclica. Contudo, reduzir o texto a esses elementos é amputar aquilo que nele é essencial. A Igreja não fala apenas “sobre” inteligência artificial; fala a partir de uma determinada visão do homem, da criação, da liberdade e da transcendência.
Leão XIV escreve para dentro e para fora da Igreja – intra et extra muros Ecclesiae. A encíclica dirige-se ao mundo inteiro, certamente, mas não abandona a sua identidade para se tornar um discurso genericamente humanista. Pelo contrário: o texto afirma, ainda que de forma subtil, que a questão tecnológica não pode ser resolvida apenas por critérios técnicos, jurídicos ou económicos. Existe uma antropologia cristã subjacente a toda a argumentação.
A ideia central da encíclica é simples e radical: a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta nova; é uma nova configuração do poder humano. E, como toda a forma de poder, exige discernimento moral. O problema não está apenas no que as máquinas fazem, mas naquilo que elas nos habituam a aceitar sobre o que significa ser humano.
Leão XIV insiste que a tecnologia nunca é neutra e que os sistemas algorítmicos tendem a refletir os interesses, preconceitos e estruturas de poder dos seus criadores. O Papa alerta para o risco de uma concentração inédita de autoridade nas mãos de poucos atores tecnológicos, capazes de moldar comportamentos, mercados, linguagens e até perceções morais.
Para a tradição cristã, a inteligência humana não é apenas cálculo. É razão aberta à verdade, à contemplação, ao bem e ao transcendente. Uma máquina pode simular linguagem; não pode possuir consciência moral, experiência espiritual ou capacidade de amar.
Nesse sentido, Magnifica Humanitas retoma uma intuição clássica da doutrina social da Igreja: nenhuma organização técnica da sociedade pode substituir a centralidade da pessoa humana.
O que há realmente de novo?

Reunião do Conselho de Segurança da ONU, em 18 Julho 2023, durante a qual o secretário-geral António Guterres pediu que o potencial da Inteligência Artificial (IA) seja posto ao serviço dos objetivos e projetos de desenvolvimento humano sustentável (ODS). Foto © UN Photo/Eskinder Debebe
A pergunta decisiva permanece: afinal, o que traz esta encíclica de verdadeiramente novo?
Pela primeira vez, uma encíclica coloca a inteligência artificial no centro da reflexão moral e social da Igreja. E fá-lo como uma questão civilizacional.
A encíclica percebe algo que muitos discursos públicos ainda não compreenderam plenamente: a IA não é apenas uma ferramenta entre outras. É uma infraestrutura cultural capaz de moldar linguagem, memória, trabalho, relações sociais e até perceções éticas.
Outro elemento novo é a crítica explícita à concentração de poder tecnológico. Leão XIV parece reconhecer que a soberania contemporânea já não pertence apenas aos Estados. Grandes empresas tecnológicas possuem hoje capacidade de influência comparável – ou superior – à de muitos governos.
Também é relevante a insistência na ideia de “desarmar a inteligência artificial”. A expressão tornou-se rapidamente o grande slogan mediático da encíclica. Mas aqui é preciso cuidado.
Esse pode ser precisamente um dos “chavões” que correm o risco de esvaziar o texto.
Porque “desarmar a IA” pode transformar-se numa fórmula simpática e vaga, repetida sem verdadeiro conteúdo moral ou político. A questão decisiva é: desarmá-la de quê? Do uso militar? Da manipulação psicológica? Da exploração económica? Da substituição da responsabilidade humana?
Outro chavão provável será a expressão “humanizar a tecnologia”. A frase soa bem, mas torna-se banal se não for acompanhada de uma definição séria do humano. E é aqui que a encíclica insiste na diferença cristã: o humano não é apenas autonomia individual ou capacidade produtiva; é criatura dotada de dignidade transcendente.
A atualidade da encíclica

“Os seus temas são profundamente atuais: precarização do trabalho digital, concentração de dados, manipulação informacional, dependência tecnológica, automatização da guerra, erosão da atenção, fragilidade da verdade pública, novas desigualdades entre países tecnologicamente centrais e periféricos.” Foto: Centro de dados de IA. © Phonlamai Imagens
A força de Magnifica Humanitas reside no facto de não falar sobre um futuro distante. Descreve um presente já em curso.
Os seus temas são profundamente atuais: precarização do trabalho digital, concentração de dados, manipulação informacional, dependência tecnológica, automatização da guerra, erosão da atenção, fragilidade da verdade pública, novas desigualdades entre países tecnologicamente centrais e periféricos.
Mas talvez a atualidade mais profunda da encíclica seja espiritual.
Vivemos numa época fascinada pela eficiência. Tudo deve ser rápido, otimizado, automatizado, previsível. A inteligência artificial aparece frequentemente como promessa de superação dos limites humanos.
Ora, a encíclica recorda algo profundamente contracultura: a vulnerabilidade humana não é um defeito técnico a corrigir. A pessoa humana não pode ser medida apenas por produtividade, velocidade ou capacidade de processamento.
Neste ponto, Leão XIV aproxima-se da melhor tradição cristã: lembrar que uma civilização se perde quando esquece aquilo que não pode ser calculado.
Por isso, talvez o maior erro seja transformar esta encíclica num simples objeto de consenso cultural. Ela não foi escrita para tranquilizar o mundo tecnológico nem para oferecer frases elegantes sobre ética digital. Foi escrita para afirmar que a questão da inteligência artificial é, no fundo, uma questão sobre o homem.
Já agora, a Igreja, goste-se ou não, continua a ser “perita em humanidade” e a acreditar que tem algo a dizer sobre a sua essência.
António Jácomo é docente do Instituto Universitário Ciências da Saúde da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU).
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