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Ler, imaginar, sobreviver

| 26/06/2020

Ler, imaginar, sobreviver

by | 26 Jun 20 | Entre Margens, Sociedade, Últimas

Houve uma nova pausa que o primeiro-ministro interrompeu, Estou quase a chegar a casa, eminência, mas, se me dá licença, ainda gostaria de lhe pôr uma breve questão, Diga, Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer, Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro, Creio que não me respondeu, eminência, Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide que o venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras. (José Saramago, As Intermitências da Morte, Editorial Caminho, 2005, pág. 22)

 

Para vos distrair um pouco do assunto que a toda a hora é notícia, e talvez vos divertir, ofereço este fragmento do romance As Intermitências da Morte, de José Saramago [cujos dez anos da morte passaram no dia 18]. Imaginem que a morte deixava de existir no nosso país. As circunstâncias e as circunstâncias dariam muito que falar. Melhor do que assistir a uma série da Netflix é ler este delicioso livro.

Saramago morreu há dez anos. É nome controverso, frequente motivo de discussão nos salões. Porque fez, porque não fez, porque disse ou não disse… Quer se goste ou não da figura real, fica-nos o seu texto literário e a consagração pelo Prémio Nobel. Não era homem de fé nem crente, mas sendo comunista, reconhecia (e conhecia) a cultura cristã em que foi educado, menino de coro que foi na Azinhaga, a aldeia onde passou a infância. Agora, que tanto falamos de crentes e não-crentes, penso nas diferenças que se anulam quando estamos unidos na fragilidade da nossa natureza, em face do sofrimento, dos medos e sustos, das perdas e preocupações que nos afligem.

E penso na universalidade da caridade que é amor. Amor, fraternidade, solidariedade. A vida é um dia e cada dia é um caso. Deixo-vos uma historinha verdadeira, para reflexão, a colorir um pouco a escuridão destes tempos que vivemos. Talvez um leve sentimento de ternura pelos dois envolvidos vos traga um sorriso ou até um leve riso.

Situem-se no Inverno de 2019. Olhem a cena: o João, filho da minha amiga Ana, deu 50 cêntimos a um pobre, antes de tomar o comboio do Porto para Lisboa. Quando foi pagar um café faltavam-lhe 15 cêntimos. Voltou ao pé do pobre e pediu-lhe: – Ó pá, empresta-me aí 15 cêntimos. O pobre, encantado por alguém lhe pedir 15 cêntimos, levou a mão ao bolso. – Eh pá, toma lá 50, que te podem fazer falta.

A alegria de dar e receber, num dia qualquer.

A imitar o que dizem os comentadores da televisão, aqui vai uma última nota:

O tema é torturante. Conheço e cumpro as três regras de conduta para a sobrevivência. Sabão/álcool. Máscara. Distância. Sofro por saber os lares para despejo de velhos. Sofro por crescerem barrigas vazias. Desejo almoço e jantar à mesa, para todos os desgraçados deste mundo. Espero que isto passe, que haja a salvífica vacina. Que o futuro chegue, com urgência e muitas mudanças para melhor.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal

 

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