Ler Sophia, ou um convite à viagem (ensaio inédito no centenário do nascimento)

| 6 Nov 19 | Destaques, Newsletter, Últimas

Arnaldo de Pinho é professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e antigo director do Centro de Estudos do Pensamento Português da mesma. Para assinalar o 6 de Novembro de 2019, dia em que se completa o primeiro centenário sobre o nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, o autor cedeu ao 7MARGENS este ensaio inédito, gesto que agradecemos. 

Trabalhos dos alunos do Externato da Luz, em Lisboa, a propósito dos 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner. Foto © Guilherme Lopes/7MARGENS

 

A obra de Sophia pode ser lida de muitas formas. E de facto assim tem sido lida. Felizmente, por muitos autores, de que destaco Eduardo Lourenço, também de maneira ontológica e metafísica.

E é justamente por Eduardo Lourenço que começo, quando escreve:

“Há muitos nomes predestinados. Ou talvez nomes que foram para os seus ocasionais suportes uma luz íntima que os guiou com infalível presciência para o lugar e a posse do que no nome mágico já se anunciava, Sophia, sabedoria mais funda do que o simples “saber”, conhecimento íntimo, ao mesmo tempo atónico e luminoso do essencial, comunhão silenciosa e sem cessar reverberante com tudo aquilo que, por original, a reflexão e seus intérminos labirintos deixarão intacto” (1)

E Eduardo Prado Coelho pôde dizer que a sua linguagem era de tal ordem que paralisava a crítica, deixava-a muda…. “porque a limpidez desta linguagem dificilmente autoriza a sua duplicação sob a forma de comentário” (2)

Nas primeiras edições dos seus livros, feitos na Ática, há sempre no rosto um pequeno texto de Novalis, que reza assim:

“A Poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro”.

Talvez pudéssemos também colocar, como preâmbulo a toda a sua poesia, os versos de Hoelderlin: o homem habita em poeta, que Heidegger tão bem glosou numa conferência publicada, mais tarde, numa recolha de textos seus (3) onde a dado momento escreve que é “a poesia que faz a habitação duma habitação, ou seja a poesia é o verdadeiro fazer habitar”. (4)

O mesmo dirá Sophia, que não sei se leu Heidegger. Mas os cinco textos denominados “arte poética” não andam longe dos escritos de Heidegger sobre poesia e ontologia. O mesmo se pode dizer do texto “Ingrina” (Geografia) onde evoca o estado de relação com as coisas para se “embrulhar” nelas, fora de toda a exterioridade: “ O meu reino é como um vestido que me serve. E sobre a areia, sobre a cal e sobre a terra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo” (5)

E o homem é o ser que se faz ou vai fazendo neste caminho, ou nesta viagem. Em busca permanente da aretê, palavra grega de difícil tradução mas que significa a excelência, a virtude, ou talvez melhor o preenchimento da sede que levam em si os humanos, do desejo, “apesar da ruina e da morte”.

*** *** ***

1. Esta busca da totalidade, uma espécie de paixão da origem e da demanda do original, aparece sobretudo nos repetidos, mas sempre renovados poemas sobre o mar, a casa, a praia, a infância e mesmo a construção dum espaço idealizado que será a sua memória da Grécia, que encontramos na sua obra Geografia.

Trata-se sempre duma espécie de fixação do olhar e da memória num tempo primordial, indiviso, o tempo e a eternidade são como que eliminados.

Recorrendo muito atrás no tempo dirá a poeta: “A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente ao mar, dentro do qual estava, pousada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria”. (6)

E recordará a antiga casa:

A antiga casa que os ventos rodearam

Com suas noites de espanto e de prodígio

Onde os anjos vermelhos batalharam (…)

Permanece presente como um reino

E atravessa meus sonhos como um rio. (7)

 

E é na recuperação pela memória que a poetisa encontra ou recupera o tempo perdido.

Quando me perco de novo neste antigo

Caderno de capa preta de oleado (…)

Tudo me dói ainda como faca e me corta (…)

As longas tardes as misturadas noites

Onde divago e divagam incessantemente

Os venenosos perfumes mortais da juventude

E dói-me a luz como um jardim perdido. (8)

 

Todavia é impossível reter o tempo.

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes

Todo o fulgor das tardes luminosas

O vento bailador das primaveras

A doçura amarga dos poentes

E a exaltação de todas as esperas. (9)

 

Mas é na evocação da Grécia, sobretudo em Geografia (1967) (10) e Dual (1972), que Sophia, fazendo uma evocação muito pessoal dos mitos gregos, pisando um dia um solo que conhecia desde a infância quando numas termas a mãe, em Setembro de 1933, lhe oferecera para ler um destes livros que antigamente havia sobre a aventura grega, certamente meio romance histórico, meio lenda épica, que Sophia mede a sua viagem interior com a aventura clássica, servindo-se de modo muito livre de materiais lendários, mitológicos e geográficos.

Não se trata, como observou Federico Lourenço, da Grécia “dos compêndios de história, filosofia ou literatura (…). É uma Grécia construída pelo olhar dela” (11) embora Sophia tivesse tido muito contacto, creio, com o jesuíta padre Manuel Antunes, ao tempo renomado professor de Cultura Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa.

Trabalhos dos alunos do Externato da Luz, em Lisboa, a propósito dos 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner. Foto © Guilherme Lopes/7MARGENS

 

2. Numa entrevista concedida ao jornal Público em 2018, o editor da Caminho, Zeferino Coelho, que foi funcionário do PCP, confissão sua, faz uma afirmação de extrema importância para compreensão da obra de Sophia, no plano que aqui quero desenvolver.

Depois de afirmar que toda a gente gosta muito dela (Sophia) mas está por surgir um estudo que revele a sua verdadeira importância, o editor continua: “Há uma filosofia de vida por detrás da obra de Sophia e isso tem sido muito desprezado”. Não posso estar mais de acordo.

E continua Zeferino Coelho: “O modo como ela entende a poesia, a maneira como se insere em toda a história da poesia e as preocupações que estão por detrás da elaboração poética e da produção poética; e sobretudo uma tradição muito alemã que arranca com Novalis, e que é no fundo, a morte de Deus depois do Iluminismo, a impossibilidade de acreditar em Deus, o sentimento da perda que isso acarreta a quem isso acontece e a tentativa de, através da poesia, restabelecer essa unidade com o mundo. Ela teoriza isso. Há quase toda uma teologia na obra de Sophia”.

– “sendo católica”, diz o jornalista……

Exacto, com uma contradição enorme. Uma vez atrevi-me a dizer-lhe que havia uma contradição nela. Católica e seriamente católica acredita num deus católico que é um deus transcendente, que cria o mundo mas está fora dele e toda a sua poesia é a exaltação do divino como inerente ao mundo material; o divino é a perfeição da curva da onda, a elegância da haste do trigo. Na natureza e no construído pelo homem como as colunas do templo de Súnion” (12)

De facto um dos temas que encontramos em Sophia é a glosa da dualidade transcendência/encarnação.

Assim num poema do livro O Nome das Coisas (1974-75) denominado “Exilio”, escreve como se imitasse Nietzsche:

Exilámos os deuses e fomos

Exilados da nossa inteireza (13)

 

A Grécia reaviva em Sophia uma espécie de contradição, dou razão a Zeferino Coelho; mas talvez de ordem diferente da do fundo do seu pensamento mais próxima da de Niezsche em Gaia Ciência entre o mundo divino supostamente ou idealizado da Grécia e o mundo dessacralizado que era o da sua cultura vivida, tema particularmente exercitado em Geografia, no poema “No Golfo de Corinto”.

No golfo de Corinto

Onde a respiração dos deuses é visível:

É um arco um halo uma nuvem

Em redor das montanhas e das ilhas

Como um céu intenso e deslumbrado

 

E também um cheiro dos deuses invade as estradas

É um cheiro a resina a mel e a fruta

Onde se desenham grandes corpos lisos

Sem dor sem suor sem pranto

Sem a menor ruga do tempo

 

E uma luz cor de amora no poente se espalha

É o sangue dos deuses imortal e secreto

Que se une ao nosso sangue e com ele batalha. (14)

 

Por detrás desta euforia que o encontro com a Grécia lhe desperta e que o poema “Acaia”, tão bem exprime:

Aqui despi meu vestido de exílio

E sacudi de meus passos a poeira do desencontro (15),

poema que abre a secção Mediterrâneo de Geografia, há também reconhecimento tão nietzschiano de que “somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência. (16)

Estamos sempre e ainda no campo cultural, quando Sophia num dos mais belos poemas recorda a vitória de Atenas sobre os persas e de certo modo, o trinfo da civilização sobre a barbárie, ou seja celebra a perenidade do humanismo grego.

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu

E Homero fez sorrir o roxo sobre o mar

O Kouros avançou um passo exactamente

A palidez de Atena cintilou no dia

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos

E para o fundo do seu império recuaram os persas

 

Celebrámos a vitória: a treva

Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos

O grito rouco do coro purificou a cidade

 

Como golfinhos a alegria rápida

Rodeava os navios

O nosso corpo está nu porque encontrara

A sua medida exacta

Inventámos as colunas de Súnion imanentes à luz

O mundo era mais nosso cada dia

 

Mas eis que se apagaram

Os antigos deuses sol interior das coisas

Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas

Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência

E aos mensageiros de Juliano e Sibila respondeu:

 

Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado.

Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa.

A água que fala calou-se. (17)

(O poema refere-se ao fim do santuário de Delfos em tempos de Juliano apóstata, juntando diferentes acontecimentos.)

Mas apesar das ruinas e da morte que foi o título com que se editou uma bela antologia francesa de Sophia (18) o essencial da Grécia não deve ser esquecido, recomendando:

Não te esqueças nunca de Thasos e de Egina

O pinhal a coluna a veemência divina

O templo o teatro o rolar de uma pinha

O ar cheirava a mel e a pedra a resina

Na estátua morava uma nudez marinha

Sob o sol azul a veemência divina

 

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima

O horror o terror a suprema ignomínia (19)

 

É como que a dizer-nos que o caminho do Humanismo não está nunca definitivamente assegurado.

Trabalhos dos alunos do Externato da Luz, em Lisboa, a propósito dos 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner. Foto © Guilherme Lopes/7MARGENS

 

3. É talvez em Contos Exemplares, cujo título é já premonitório, e sobretudo no conto A Viagem, mas também nas interrogações, dúvidas e aporias dos três reis magos, que melhor se exprime um Humanismo que não é seguro, se acaba em si mesmo.

No conto A Viagem, a mulher, “vestida de terror”, viu que “quando as raízes se rompessem não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria que ela agora ia perder”. Então lançou um último olhar através da escuridão e pensou:

“Do outro lado do abismo está com certeza alguém.

E começou a chamar” (20)

 

Já no conto Os Três Reis Magos, encerrados nos seus palácios a que a inquietação revolve e desatina, interrogava-se o rei Gaspar: “que pode crescer no tempo, senão a justiça?”

O rei Melchior, agradeceu aos conselheiros e afirmou: “por mim continuarei a buscar, a escutar e a esperar”.

O rei Balthasar, por sua vez, balbuciou: “Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver?” (21)

E a par disso a desgraçada conclusão de Gertrudes no conto O Jantar do Bispo, ela a simples cozinheira: “Nos tempos que correm já não há Deus nem Diabo. Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder…” (22)

No conto Os Três Reis Magos, o rei Melchior, ouve a palavra de um sábio que dizia: “vivemos num tempo de viuvez e todas as coisas se tornam cegas e surdas. Num mundo de injustiça e de desordem, tentamos sobreviver como animais perseguidos. Quebrou-se o laço que nos ligava ao universo atento”. (23)

Nem os deuses gregos que Sophia tanto tratou e cuja inspiração seguiu, a saciam completamente e num poema do Livro Sexto, qualifica a transcendência nua do seu Deus, muito à maneira de alguns textos do Antigo Testamento, de Isaías aos Salmos que nomeia como alguém que deixa rasto, mas está sempre para lá.

Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

(…) Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

 

Mas tu és de todos os ausentes o ausente (24)

 

Indo mais além nessa ausência de Deus no conto O Homem, Sophia retrata nos caminhos do mundo o homem em cujo rosto “estavam inscritos a miséria, o abandono e a solidão” e que identifica com Cristo abandonado por Deus na cruz. Este tema do rosto e da ausência e da cruz como ausência é muito vulgar na teologia protestante sobretudo luterana (Hegel) e o tema do rosto como lugar do sagrado foi tematizado pelo pensador judaico contemporâneo Emanuel Lévinas que experimentou os campos de concentração. O mesmo tema aparece no filósofo judeu Elias Wiesel, a propósito da shoah.

No conto O Homem, identificando o pobre com Cristo crucificado, perante a passividade de Deus, Sophia escreve:

“Para além da dureza das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus” (25)

E num poema de Mar Novo, este tema, aparece numa linguagem dum salmo:

É o teu rosto que eu procuro

Através do terror e da distância

Para reconstrução dum mundo puro. (26)

 

Esta busca da transcendência encontra uma resposta na figura de Maria que distingue da grega Vitória de Samotrácia no poema “Senhora da Rocha”:

Tu não estás como Vitória à proa

Nem abres no extremo do promontório as tuas asas

 

Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados

Nem desdobras o teu manto na escultura do vento

Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura

 

Mas no extremo do promontório

Em tua pequena capela rouca de silêncio

Imóvel muda inclinas sobre a prece

O teu rosto de madeira e pintado como um barco

 

O reino dos antigos deuses não resgatou a morte

E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte

É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo

Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo

 

Tu sabes que para nós existe sempre

O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas

Os deuses de mármore afundam-se no mar

Homens e barcos pressentem o naufrágio (…) (27)

 

No confronto entre a Virgem Maria feita de madeira e a Vitória de Samotrácia que representava a deusa Atena que oferecia “o seu ombro à seta da luz pura”, desenha Sophia a transcendência numa representação de contraste entre pátios lisos e rosto atento “atento como antena…..”

É também uma espécie de recolhimento sobre o sagrado ainda assim numa viagem comparativa que não podemos deixar de citar o texto “Caminho da manhã”, inserido no Livro Sexto:

“Vais pela estrada que é de terra amarela quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre com a pesada mão do sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz suavíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas (…)

Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares na frente da terceira banca compra peixes: os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente a mar (…)

Mais adiante compras figos pretos: os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor de rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do sol. Caminha até encontrares uma Igreja alta e quadrada. Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em face do grande Deus invisível”. (28)

Trabalhos dos alunos do Externato da Luz, em Lisboa, a propósito dos 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner. Foto © Guilherme Lopes/7MARGENS

Uma palavra final sobre o sagrado em Sophia, que distinguimos deste apelo ao Deus transcendente, tal como a revelação bíblica no-lo referencia.

Está por explorar a noção do sagrado em Sophia bem como em outros poetas como Pessoa, Pascoais ou Régio. Mas Sophia é aparentemente aquele poeta que se mexe mais no sagrado, mas em que este é mais profano.

Não encontrei melhor modo de fazer esta abordagem, apesar de tudo, muito inicial, do que o comentário a que já aludi de Heidegger a Hoelderlin, poeta que de resto Sophia conhecia, pois escreve um texto notável sobre ele intitulado “Hoelderlin ou o lugar do Poeta” (29), denominado “O Homem habita em poeta”:

“Porque o homem é na medida em que ele se pode ver e sentir em toda a sua Dimensão, o seu ser deve ser, a cada vez medido. Ele tem necessidade, para isso, duma medida que do mesmo golpe atinja a Dimensão toda inteira. Aperceber esta medida, medir toda a sua extensão e tomá-la como medida, isso para o poeta chama-se ser poeta (dichten). A poesia é esta tomada da medida, a saber para a habitação do homem”. (30)

O sagrado em Sophia é aparentemente sempre imanente, mas só aparentemente. Porque quando fala da casa, da praia, do mar, ou da noite, devíamos ter em conta como faz Heidegger a distinção entre a realidade da coisa e a coisa como objecto que está em face de nós (Gegenstand) (31)

Vejamos como Sophia fala da casa:

No princípio a casa foi sagrada

Isto é habitada

Não só por homens e por vivos

Mas também pelos mortos e pelos deuses

 

Isto depois foi saqueado

Tudo foi reordenado e dividido

Caminhamos no trilho

De elaboradas percas

 

Porém a poesia permanece

Como se a divisão não tivesse acontecido

Permanece mesmo depois de varrido

O sussurro de tílias junto à casa de infância. (32)

 

É neste programa que se insere todo o seu livro O Nome das Coisas

 Este é o amor das palavras demoradas

Moradas habitadas

Nelas mora

Em memória e demora

O nosso breve encontro com a vida. (33)

 

O sagrado em Sophia, grego ou cristão é a busca da dimensão toda das coisas, o seu verdadeiro nome, pois como escreve “a poesia é uma arte do Ser”. (34)

Na busca desta dimensão Sophia coloca-se, não raro, coloca-se e coloca-nos, como acertadamente tematizou o P. Doutor Emanuel Brandão na excelente tese que escreveu sobre Sophia (35) entre a recusa e a invocação, mas sempre naquele estado de verdade que os gregos traduziam por alêtheia e que significa estado de não separação, mas de auto-implicação, ou seja não de ideia separada das coisas, como a tese racionalista nos ensina, mas de totalidade que nos convida a estar dentro e sobre a qual noção Heidegger escreveu um belo ensaio. (36)

Por isso há uma poesia de Inverno:

Poesia de Inverno, poesia do tempo sem deuses

Escolha

Cuidadosa entre restos

           

Poesia das palavras envergonhadas

Poesia dos problemas de consciência das palavras

                                   

Poesia das palavras arrependidas

Quem ousaria dizer:

Seda, nácar, rosa

Árvore abstracta e desfolhada

No Inverno da nossa descrença. (37)

 

Mas há também uma poesia de Verão:

Sei que seria possível construir um mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome de terrestre

A terra onde estamos – se ninguém a atraiçoasse – proporia

Cada dia a liberdade e o reino – Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do Universo. 

 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E é este o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo. (38)

Trabalhos dos alunos do Externato da Luz, em Lisboa, a propósito dos 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner. Foto © Guilherme Lopes/7MARGENS

 

4. Ler Sophia é, de certo modo, sentir uma imensa ternura com alguém que viaja connosco ou nós com ela e que pelos recantos da sua memória da infância perdida e recuperada, da sua cultura grega e cristã e das suas vivências históricas, não viveu o ofício de poeta como um entretimento ainda que didáctico, mas como um compromisso de ligação e religação permanente àquilo que entendendo a verdade como não separação do mar, da casa, do divino e da transcendência, até evocar, como um espécie de última nostalgia novos céus e nova terra, no seu poema “Ressurgiremos”, de Livro Sexto, em que profetiza a fusão da luz branca de Creta com a negra exactidão da cruz, provocando uma superação de tal contradição por uma fusão entre transcendência e encarnação

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos

E em Delphos centro do mundo

Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

                       

Ressurgiremos ali onde as palavras

São o nome das coisas

E onde são claros e vivos os contornos

Na aguda luz de Creta

 

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo

São o reino do homem

Ressurgiremos para olhar para a terra de frente

Na luz limpa de Creta

 

Pois convém tornar claro o coração do homem

E erguer a negra exactidão da cruz

Na luz branca de Creta. (39)

*** *** ***

O Mar, a luz mais que pura, a noite, os muros brancos, a casa, o jardim, o palácio, são referências permanentes nos livros de Sophia, mas também Catilina, Sóror Mariana, Clara de Assis, Antinoos, como se o sentido precisasse de todas as referências da vida e da memória para se dizer.

Eduardo Lourenço sublinhou a justo título a propósito da sua pessoa “esta espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio que deve ter privilegiado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa daquela obsessão culpabilizante que enche por dentro a lírica nacional”. (40)

Que Sophia foi sempre uma mulher católica, duma pureza de ideais que a levou a compromissos pela liberdade e pela justiça durante toda a sua vida, é indesmentível, mas não é objecto desta comunicação.

Objecto desta comunicação é saber como esta Senhora de grande nobreza de alma e não apenas de tradição concebeu a sua obra, ligando o humanismo grego e o universalismo cristão, ou melhor dito católico, ou seja conciliou a “negra exactidão da cruz com a luz branca de Creta”. Isso seria o objecto de reflexão em chave teológica.

Vasco Graça Moura, também ele grande poeta e também portuense, considera Sophia “um poeta católico no sentido mais estrito da palavra”. (41)

Queiramos ou não, não podemos deixar de admitir, que para lá do espaço sagrado em que se move muitas vezes e para lá da constante relação entre poesia e transcendência concebendo a poesia como “a arte do ser” coincidindo com Heidegger que penso que não leu, ela invoca não raro o Deus da Bíblia, à maneira do salmista e a figura de Cristo atravessa alguns dos seus poemas e contos sobretudo o conto O Homem.

O milagre de Sophia é a meu ver o do encontro ou da tentativa de reconciliação entre uma Grécia humanista imaginária que evocou mesmo antes de a ter visitado, e a tentativa de conciliar Jesus e Pã, Dionysos e o anjo.

Mas isto numa perspectiva dum ethos de Redenção concebida como libertação, segundo uma teologia muito divulgada na época por Theillard de Chardin, autor que tinha na sua Biblioteca e outros autores, fora de toda a concepção meramente privatizante ou integrista do Catolicismo.

Pois como escreve em “Arte Poética III”, “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor” (42).

Este programa, esta teimosia com que viaja ao longo de toda a sua obra está logo no primeiro poema da sua primeira obra, publicada em 1944 em Coimbra, numa edição da autora, que reza assim:

Apesar das ruinas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias. (43)

 

Junho de 2019

 

Notas

(1) Em Prefácio a Antologia, Lisboa, Morais, 1978,1.
(2) “Sophia, a lírica e a lógica”, Colóquio/Letras, n.57,1980, p.20.
(3) Sirvo-me da tradução francesa: M. Heidegger, Essais et Conférences (Paris, Gallimard, 1958) 225 e s.
(4) Ob. cit. 227
(5) Ingrina, Obra Poética, Lisboa 2015, 497. Os textos Arte Poética 1 a 5 em Obra Poética 889-898
(6) Texto lido pela autora em 11 de Julho de 1964, na entrega do Prémio da Associação Portuguesa de Escritores a Livro Sexto. Em Antologia, Lisboa, Morais 1970, p.233.
(7) Geografia, na Obra Poética (OP) Lisboa; Assírio e Alvim, 2015, 537.
(8) O Nome das Coisas, OP, cit. 686.
(9) Dia do Mar, OP, cit 133.
(10) Geografia, OP, cit. 495-645. Dual, ibid. 579 e s.
(11) F. Lourenço, “A Grécia de Sophia” em Valsas Nobres e Sentimentais, Lisboa, Cotovia, 2007, 107.
(12) Jornal Público, 9 de Agosto 2018, p.3
(13) O Nome das Coisas, OP, 548
(14) Geografia, OP, cit, 547.
(15) Ibid, 447.
(16) Geografia, OP, ibid.
(17) Geografia, OP, cit, 556.
(18) Malgré les Ruines et la Mort, Paris, Edition de la Différence, 2000, selecção e notas de Joaquim Vital.
(19) Ilhas, OP, cit. 764.
(20) Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 28 ed,p.115.
(21) Idem
(22) Contos Exemplares, cit., 94.
(23) Ibid.
(24) Livro Sexto, OP, 454.
(25) Contos Exemplares, 145.
(26) Mar Novo, OP, 356.
(27) Geografia, OP, 501.(28) Livro Sexto, OP, 443.
(28) Livro Sexto, OP, 443.
(29) Jornal do Comércio, 30 de Dezembro 1967
(30) Cit…, 238.
(31) Cit., 198
(32) Ilhas, OP, 785.
(33) O Nome das Coisas, OP,676.
(34) Arte Poética II, OP, 891
(35) Emanuel Brandão, Uma leitura teológica da obra de Sophia de Mello Breyner (Porto 2012), 27.
(36) cit. 893
(37) Geografia, OP, 571.
(38) O Nome das Coisas, OP, 710
(39) Livro Sexto, OP, 447.
(40) Eduardo Lourenço, Prefácio A Antologia, Lisboa, Morais, 1978, pg.4.
(41) Prefácio a La Nudité de la Vie, antologia traduzida por Michel Chandeigne, Bordéus, Escamperte, 1996.
(42) Arte Poética III, OP, 893.
(43) Em OP,61.

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O regresso da eutanásia: humanidade e legalidade novidade

As Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia, da Conferência Episcopal Portuguesa, foram resumidas num folheto sem data, distribuído há vários meses. Uma iniciativa muito positiva. Dele fiz cuidadosa leitura, cujas anotações aqui são desenvolvidas. O grande motivo da minha reflexão é verificar como é difícil, nomeadamente ao clero católico, ser fiel ao rigor “filosófico” da linguagem, mas fugindo ao «estilo eclesiástico» para saber explorar “linguagem franca”. Sobretudo quando o tema é conflituoso…

Manuela Silva e Sophia

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro. A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

O barulho não faz bem

Nos últimos tempos, por razões diversas, algumas conversas têm-se dirigido maioritariamente para o facto de se habitar na cidade, suas comodidades e seus incómodos.

Cultura e artes

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

As mulheres grávidas e o olhar feminino sobre a crise dos refugiados

Uma nova luz sobre a história dos refugiados que chegam à Europa, evitando retratá-los como “heróis ou invasores”. Francesca Trianni, realizadora do documentário Paradise Without People (Paraíso sem pessoas, em Inglês), diz que o propósito do seu filme, a exibir nesta quinta-feira, 31 de outubro, em Lisboa, era mostrar a crise dos refugiados do ponto de vista feminino.

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