[Saborear os clássicos] (xi)

Lev Nikolaievitch Tolstoi: só o amor dá sentido à vida

| 3 Dez 2022

Lev Tolstoi

Lev Tolstoi. Foto: Direitos reservados.

 

“As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas,
obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.”
(edições da Fundação Calouste Gulbenkian)

 

Lev Tolstoi (1828-1910) nasceu em Iasnaia Poliana, numa família da alta aristocracia. É o escritor russo mais célebre.

Contrastando com a eslavofilia de Dostoiévski, presente, sobretudo, no Diário do Escritor (1876), Tolstoi pretendeu sempre unir a Rússia à Europa. Viajou com muita frequência pela Europa, encontrando-se com Proudhon, Romain Rolland. No fim da vida, correspondeu-se com Gandhi, muito mais novo do que o escritor, cativado pela ideologia da não-violência.

Escreveu romances, ensaios, novelas, contos – baseando-se algumas vezes nos contos populares russos. As obras mais conhecidas são Guerra e Paz (1869), cuja acção se passa no momento da invasão da Rússia por Napoleão, um longo romance onde estão presentes todas as classes sociais russas; e Anna Karenine (1877). Através de uma grande diversidade de personagens, discorre em ambos os romances acerca do sofrimento humano.

 

Sophia Tolstoi

Sophia, noiva de Lev. Foto: Direitos reservados. 

“Eu, velho imbecil desdentado, apaixonei-me”: é com estas palavras, em 1862, que Tolstoi anuncia a uma tia o seu noivado com Sophia Berhs, dezasseis anos mais nova do que ele, de origem alemã, cujo pai era médico pessoal do czar. O casal foi viver para Iasnaia Poliana, embora esse domínio senhorial já estivesse reduzido, pois uma grande parte fora confiscada e desmantelada em 1854, para pagar as dívidas de jogo de Tolstoi.

 

Qualquer pessoa que se diz crente deve escolher entre o Credo e o Sermão da Montanha
(Lev Tolstoi, A minha confissão)

Tolstoi vive uma crise religiosa e procura então compreender o sentido da vida. A grande disparidade entre os muito ricos e a multidão de pobres e famintos transtorna-o. Lê Sócrates, Shopenhauer, Buda, assim como os Vedas, os Upanishadas, Lao-Tsé e Confúcio.

Finalmente, escolhe Jesus Cristo, mas opondo-se à ligação da Igreja com o poder político e aos dogmas instituídos pelas igrejas – Ortodoxa ou outras.

Segundo o escritor, a corrupção do cristianismo iniciou-se já na época do imperador Constantino e iniciou-se, nesse momento, a noção da Igreja como uma instituição.

Vive uma vida muito simples, veste-se como um mujique, trabalha na terra como se fosse um camponês renegando as suas possessões, heranças e honras que lhe eram devidas por ser conde. Abre uma escola nos seus domínios, mas é obrigado a fechá-la devido à perseguição da polícia czarista, em 1862.

 

O Reino de Deus está em vós
(Petr Chelcicky)

Quando recolhe os contos populares russos, tal facto torna-se-lhe mais nítido: O que faz viver os homens é o amor ao próximo… o que vive no amor, vive em Deus e Deus vive nele, visto Deus ser o amor. (Tolstoi, citado por Michel Cadot).

Não somos donos da nossa vida: “Ele nos fez, a Ele pertencemos” (Salmo 99/100). Fazer a vontade Dele: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Evangelho de Mateus 22, 39).

Estas teses estão bem patentes nas obras de Lev Tolstoi. E em particular, no romance Ressurreição (1899), a sua última grande obra, talvez a menos conhecida: o protagonista, o príncipe Dmítri Ivanovitch Nekhlioudov vive uma experiência de vida que o transforma. Nessa alteração radical de Neklioudov, há referência à parábola dos vinhateiros (Mateus 21, 33-44) e também uma crítica fortíssima ao sistema judicial czarista e ao regime russo.

No capítulo XXI, o autor refere-se à homossexualidade, considerada, nesse tempo, um crime. Foi censurada essa parte do livro, primeiro pelo editor e depois pela polícia czarista.

 

Excomungado
Tolstoi tornou-se uma figura pública e amada no seu país e no estrangeiro. Em 1901, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa. As pessoas nem levaram isso a sério e riam-se dessa excomunhão. Em 1908, escreve O Meu Manifesto contra a pena de morte. O editor que imprimira o texto foi preso; o secretário de Tolstoi foi preso e cumpriu uma pena na Sibéria. Quanto ao escritor, não puderam fazer nada, tendo em conta a sua grande popularidade.

 

Sophia Tolstoi (1844-1919)

Sophia e Lev Tolstoi

Sophia e Lev Tolstoi: ela foi a sua musa, assistente e confidente, a primeira leitora das duas primeiras grandes obras do marido, aconselhando-o, até. Foto: Direitos reservados.

 

Sophia foi a sua musa, a sua assistente, a sua confidente, a primeira leitora das duas primeiras grandes obras do marido, aconselhando-o, até. O casal viu morrer sete dos seus 13 filhos. Lev escreveu à mulher 839 cartas, chamando-lhes “pequenos encontros”. Ela auxiliou-o em tudo: na escrita e cópia das obras, no trabalho agrícola, nas obras sociais, na assistência aos camponeses e, em particular, às mulheres que iam dar à luz pois, como filha de médico, tinha alguma prática e experiência. Além de ser dona de casa e tratar dos filhos…

É claro que houve múltiplas desavenças entre os dois, atendendo até às suas personalidades. Tolstoi quis convencer a mulher a doar as propriedades, facto com que ela não concordou. Também não seguia os preceitos do cristianismo do marido e tudo isto provocou lutas. Mas a verdade é que foi uma verdadeira família “com altos e baixos”, como acontece a todas. Escreve Sophia aos 57 anos: “A vida é feita de energia e luta, de constantes mudanças de sentimentos, num fluxo e refluxo de bem e mal… ninguém a pode deter. Quando o tempo a detém, devemos receber o fim com alegria e generosidade… reunir-nos-emos espiritualmente com Ele e fisicamente com a natureza. E isso só pode ser bom.”

 

Misturada de gente
Foi assim que Sophia chamou aos grupos de jovens fervorosos seguidores dos ideais de Tolstoi, gente de variados matizes e com variadíssimas intenções que se aboletaram em Iasnaia Poliana, quando aquele se tornou um herói nacional. Sobretudo um deles, Chertkov, denegriu a actividade e a pessoa de Sophia, difamando-a; aproveitando-se da debilidade física de Tolstoi, controlou-o e impôs-lhe um testamento secreto, a fim de ficar ele ­– e não a mulher, como estava já destinado – o mandatário literário do autor. O mesmo Chertkov e o seu grupelho convenceram Tolstoi a sair de casa. O escritor apanhou uma pneumonia e só aceitaram a visita de Sophia ao marido quando este já estava em coma.

Tolstoi - 1887 Iasnaia Poliana

Ilya, Repin, Retrato de Lev Tolstoi como um lavrador no campo em Iasnaia Poliana, 1887. © Biblioteca Pública Russa. 

 

O funeral do escritor “reuniu milhares de pessoas que acamparam nos terrenos de Iasnaia Poliana… havia polícias por todo o lado. O czar… temia uma revolta… eu sabia que Lev Tolstoi significava muito para o povo russo, mas não compreendera a importância da sua vida. A mulher achou que ninguém deveria falar durante o enterro, embora permitisse que se cantasse ‘Eterna Lembrança’, hino do agrado de Tolstoi… Mas um velhote, um mujique, analfabeto, subiu a um cepo e fez um pequeno discurso claro e afectuoso sobre ‘o estimado homem que mudara as suas vidas’. Todos ouviram com assombro… a polícia passou por entre a multidão montada em cavalos negros. Encarados como uma intrusão terrível, foram obrigados, pelos mujiques, a descerem dos cavalos e a ajoelharem-se. Para meu alívio, acederam.” (palavras da personagem imaginada, mas pessoa real, Valentin Bulgákov, in A Última Estação, cap. 41).

Sophia viveu em Iasnaia Poliana, catalogando, copiando as obras do marido. Faleceu também com uma pneumonia. A guerra civil, o bolchevismo, as lutas fratricidas nunca lhe enfraqueceram o ânimo.

Nos anos 30 do século XX, com Estaline no posto de comando, foram presos muitos tolstoianos. Com a ajuda hipócrita de Chertkov, tornado fervoroso político bolchevista e estalinista, Tolstoi foi transformado num escritor defensor das suas doutrinas. A destruição das colónias agrícolas tolstoianas a mando de Estaline, levou ao exílio os que escaparam, entre eles dois filhos de Tolstoi, Sacha e Tânia, assim como os biógrafos Bityukov e Bulgakov.

 

Elegia à morte de Lev Tolstoi:
Cobre-o totalmente, trevo / relva, manto de longos cabelos ondulantes, / segura-o //. Esse pó foi homem que arranca as tuas raízes, / que faz sinal a partir do escuro, / uma e outra vez // … Esse homem… /era bom, dizem… // Nem pior, nem melhor, embora tenha tentado curar. // Fala, vento russo / Sopra com dureza das estepes / e limpa o cascalho. (Jay Parini, A Última Estação, romance histórico sobre os últimos anos de Tolstoi)

“A Morte de Ivan Ilitch” – uma síntese e comentário

“A verdadeira vida começa e acaba com a agonia”
(Cioran)

A Morte de Ivan Ilitch, redigida em 1882, de escrita simples e sem artifícios, percorre em pormenor a vida de Ivan Ilicht Golovine até à sua morte. De origem modesta, mas extremamente ambicioso, no momento da morte era conselheiro no Tribunal Superior de São Petersburgo.

Alexey Voloskov, refeição

Alexey Voloskov, À Mesa, 1851

 

A carreira profissional e a vida na sociedade
Ao longo da sua carreira, Ivan foi sempre muito considerado quer pelos seus superiores quer inferiores: meticuloso, honesto, muito consciente do seu trabalho e das suas responsabilidades profissionais.

Apesar de sua juventude, mantinha uma conduta oficial e até mesmo severa… com os amigos, era sociável, jovial. Teve as suas aventuras amorosas, mas sempre com moderação. “Um bom rapaz”, segundo a expressão do governador e da mulher que o tratavam familiarmente… tudo isto era realizado com as mãos limpas, camisas limpas, expressões francesas e, sobretudo, no seio da melhor sociedade, ou seja, com a aprovação das pessoas altamente colocadas, ironiza o narrador.

Como juiz de instrução, noutra cidade, continuou “comme il faut” [tal como se deve ser], correctíssimo, visto ter agora uma posição superior. Era amigo e conhecido no círculo dos magistrados e dos ricos proprietários dessa província. Das mulheres casadoiras que frequentavam esse ambiente social, a mais elegante, a mais sedutora, a mais inteligente, a mais brilhante era Prascovia Fiodorovna Mikhel. O nosso juiz frequentava irregularmente as soirées dançantes, mas se fosse, mantinha-se à distância, nem dançava, sempre com um ar superior. Às vezes e quase sempre no fim, convidava Prascovia para seu par e foi assim que ela se apaixonou por ele. O juiz de instrução avaliou-a: nobre, bastante bonita, possuindo uma pequena fortuna. E resolveu casar, já que isso fazia parte do viver em sociedade.

No início tudo correu bem: o casal entusiasmou-se com a casa nova, os diversos adereços, a primeira gravidez. Mas depois, sem precisar a razão, toda essa harmonia desapareceu. Ela tornou-se ciumenta, desagradável, antipática. O nosso herói mudou de táctica para se defender: o seu trabalho era a sua vida, tornando-se muito ambicioso. A família era a refeição principal, a mulher, a cama, e acima de tudo isto, subordinar-se ao padrão social do grupo social a que pertencia. Nada deixando transparecer das contradições no seio da sua família. Pouco depois, foi procurador noutra cidade e tudo corria como deve ser: correctíssimo, elogiado por todos. A filha mais velha tinha já 16 anos, o rapaz mais novo frequentava o liceu e ele, além do trabalho, conversava com os colegas, jogava whist, sendo um grande apaixonado e havia ainda jantares, concertos.

Mas eis que um colega mal-intencionado, passou-lhe uma rasteira, ficando com o lugar que ele ambicionava. Fora uma grande injustiça, mas parecia que só ele compreendera tal afronta. Por outro lado, as dívidas na sua casa cresciam, visto que a família vivia acima das suas possibilidades. Descontente com tudo e com todos, jurou vingar-se.

Viajou para São Petersburgo onde tinha conhecimentos. E conseguiu, através de antigas amizades, um posto com um ordenado de 5000 rublos.

Todos acharam a sua ascensão excepcional. O casal viveu novamente em harmonia: nova casa, agora mais sumptuosa, com um grande salão, muitas novidades. Pouco a pouco, tudo voltou ao mesmo.

Rússia, aristocracia, burguesia, baile, Tolstoi, Zahar Pichugin

Banquete aristocrático. Ilustração de Zahar Pichugin em “Anna Karenina”, Moscovo, 1914. Imagem © Shutterstock

 

Uma vida elegante

Agora, era conselheiro do Tribunal Superior. Na análise dos casos judiciais, excluía o elemento vivo, humano, que perturba sempre o processo normal das questões administrativas… e estabelecia somente com as pessoas relações de serviço.

Era um mestre na arte de separar o serviço profissional da vida real, devido a uma longa prática.

A mulher e a filha não estavam muito em casa, vivendo uma vida cheia de compromissos elegantes, enquanto o rapaz mais novo estudava as suas lições.

O que Ivan Ilitch gostava mais era reunir um grupo de casais mais íntimos, muito importantes, no seu salão que se parecia com todos os salões.

Mas eis que uma dor no flanco esquerdo se tornou cada vez mais forte, juntando-se um sabor amargo na boca. Consultou médicos especialistas, muito importantes. Mas nenhum lhe dava uma resposta clara sobre a gravidade ou não do seu estado. A mulher ouvia-o distraída porque ia sair naquele momento com a filha e disse ao marido para dar a receita ao Guérassime, o mordomo, para a aviar na farmácia.

Ivan Illitch tomou esses medicamentos, depois outros, fez análises à urina, mas nada adiantou.

O doente extenuava-se, a mulher achava que ele era responsável porque não tomava o que lhe prescreviam. Mais médicos, mais opiniões, até que ele tomou consciência que era ali que se definiria a sua vida… ou a sua morte.

 

Reflexão sobre a morte
Essa situação, a morte, tão arredada da sua vida e afazeres profissionais, fez-lhe tomar consciência desta realidade: eu já não existirei, mas o que existirá? E onde estarei eu, se já não existo? Mas por que razão isto me aconteceu a mim? E não a eles? Eles não querem saber… não têm piedade… imbecis, também lhes vai chegar a vez.

Ainda tentou ir ao tribunal, mas nem se aguentava de pé e regressou a casa abatido. A dor, ela queria que tudo deixasse, que ele a fixasse, sem fazer mais nada, só sofrendo.

Dormia pouco; davam-lhe ópio ou morfina, mas nem isso adiantava.

 

Candido Portinari, “Guerra e Paz” (1956), mural na sede da ONU

Candido Portinari, “Guerra e Paz” (1956), mural na sede da ONU. Foto: Direitos reservados

 

Guérassime ou a compaixão
Os seus excrementos – que sujidade, que mau cheiro! Incomodava-o ver Guérassime a limpar a sujidade, mas depois, acabou por lhe dizer que lhe perdoasse. O mordomo era um jovem camponês forte, alto, todo o seu ser respirava saúde e alegria e esta atitude humilde e cheia de simpatia e até afecto com o doente, emocionou-o, apreciando muito a sua companhia. Acalmava-o, até parecia que o aliviava das dores. A sua energia vital, em vez de o ofender, como acontecia com os outros, serenava-o.

 

Tomada de consciência da farsa da sociedade/família
Sabia que todos lhe mentiam: diziam que devia descansar, tomar os remédios, estar deitado e depois ficaria bom. Mas o doente concluíra que o esperava a morte. E por isso, achava que os outros rebaixavam a sua morte, não respeitavam a sua agonia. Só Guérassime era franco:

 -Nós morremos todos. Por que razão não devemos ter pena de quem está nessa situação?

Ivan Ilitch gostava que o abraçassem, o acarinhassem, chorassem por ele…, mas não: a mulher era fria, justificava apressadamente as suas ausências, andava à cata de celebridades médicas – para benefício dele, dizia. Ali, só existia hipocrisia. A visita da mãe e da filha que iam a um concerto acompanhadas pelo noivo, juiz de instrução, enquanto que atrás deles aparecia o filho mais novo, Vássia, fez compreender o doente que só o filho mais novo não entrava na farsa – não posso deixá-los ir sós…, dissera-lhe a mulher. Todos entraram no quarto, disseram meia dúzia de banalidades, houve depois um silêncio constrangedor, rompido pela filha:

Bem, se queremos ir à ópera, está na hora…

O doente sentiu-se aliviado com a saída das visitas. Tomou a sua dose de ópio e adormeceu, com sonos perturbadores: alguém o puxava para um saco escuro, estreito e profundo, empurrando-o para baixo, mas sem conseguir, embora ele fizesse também esse esforço, mas em vão. Acordou, finalmente e encarou Guérassime à luz do velador que dormia tranquilamente. Mandou-o embora e chorou como uma criança: pela sua doença, pela crueldade da mulher e da filha, pela solidão e abandono, pela ausência de Deus.

 

A voz da Consciência ou de Deus
Então falou para si mesmo, questionando Deus:

– Por que razão me fazes isso? Por que razão me atormentas? Que mal te fiz?

Acalmou-se, lentamente e a voz interior respondeu-lhe:

– O que precisas? – foi tal e qual o que ouviu.

– Viver, deixar de sofrer.

– Viver como?

– Como vivia antes, à minha vontade.

E relembrou a sua vida: a infância, a juventude e depois os seus sucessos, os jantares, o casamento, as soirées, o whist e tudo lhe parecia insignificante, cinzento, exceptuando a recordação mais distante: a infância.

 

Visões do Além, Hieronymus Bosch

Hieronymus Bosch “Visões do Além” (1500), “Ascensão ao Empíreo”

A auto-reflexão
Talvez não vivesse como deveria ser… mas não fora ele um funcionário exemplar? Então vivemos, e depois este sofrimento… e chorava amargamente. Mas voltava a essa dúvida: vivera talvez mal.

Mudou para o sofá do quarto e virou o rosto para a parede:

É isto a morte? Soube que sim, pela tal voz. Então para quê, esta tortura?

Tudo se misturava num redemoinho: a infância, os factos mais recentes e tornava a repetir: fizera tudo impecável…

Tudo o que provinha do exterior o deixava indiferente: o noivado oficial da filha, a mulher, o médico que disse a Prascovia que as dores eram terríveis e só com ópio se acalmava o doente.

 

A tomada de consciência
As dores mais terríveis do que as físicas eram as morais. Olhando o rosto calmo e paciente de Guérassime concluíra que a sua vida não fora como deveria ser… algo lhe revelara, sem saber bem como. Mas o que fazer, agora?

Nessa manhã observou profundamente os gestos, as atitudes, os ditos do criado, da mulher, do médico e compreendeu que tudo era falso. Gemia, abafava e queria rasgar a roupa… tomou uma dose dupla de ópio. De manhã, a mulher pediu-lhe para se confessar.

Junto do padre, tornou-se dócil e pensou que poderia salvar-se e fazer a tal operação que o médico aconselhara…

A mulher estava feliz, mas a voz continuava: tudo o que fizeste era falso e como tu vives é um engano: escondes-te da vida e da morte.

Ide embora! – gritou para a família.

 

A agonia
Compreendera tudo. E a dor cada vez mais lancinante, fazia-o gritar. Gritos terríveis que soavam por toda a casa, mesmo com as portas fechadas, ouvindo-se à distância. Debatia-se no saco negro, “como um condenado às mãos do carrasco”, sabendo que nada o salvaria.

Não conseguia atravessar o saco negro – metáfora da vida passada que o torturava.

De repente, uma força desconhecida bateu-lhe no peito, de lado e violentamente cortou-lhe a respiração e reparou que no fundo do saco algo brilhava. – Sim, tudo era falso, mas como corrigir?

 

O único acesso a Deus, para o homem, é o amor ao próximo
Era o fim do terceiro dia em que se contorcia com dores, uma hora antes da morte. O filho entrou no quarto e debruçou-se para o pai que gritava e agitava as mãos. O filho agarrou-lhe a mão, beijou-a e chorou com ele.

 

A libertação
Nesse momento Ivan Ilitch atingiu o fundo do túnel e fixou a luz. Então compreendeu que embora a sua vida não tivesse sido como deveria ser, ainda era possível corrigi-la.

Viu que o seu filho tivera piedade dele; a mulher entrou também, de boca aberta, as lágrimas correndo pelas faces… olhava-o com desespero. E ele teve piedade dela. Mostrou o filho à mãe e disse-lhe:

Leva-o, eu também tenho piedade de ti. Quis dizer “perdão”, mas disse “permissão”, mas fazendo um gesto com a mão, soube que fora compreendido. Teve piedade deles, era necessário que não sofressem mais.

Mas afinal… tudo era simples. A dor? Lá estava… mas a morte, onde está?

Não tinha medo porque não havia mais morte. Havia luz…

Tudo isto lhe pareceu acontecer num instante, mas para quem observava a sua agonia, durou duas horas.

Depois, o peito gorgolejou, o corpo descarnado tremia… até se tornar cada vez mais imperceptível.

Acabou! Ouviu uma voz por cima dele.

E ele repetiu na sua alma – acabada a morte, ela já não existe. Aspirou o ar por cima dele, parou no meio da inspiração e morreu. 

O protagonista da novela teve um instante da revelação suprema. Na selva que ele desbravava, teve o primeiro sinal da plenitude no gesto humilde, franco e afectuoso do criado que o fez reflectir. O outro sinal fundamental que o aproximou da luz, no fundo do túnel, foi o gesto de amor do filho, de uma criança, ainda. Salvou-o, desvendou-lhe, finalmente, o segredo: não havia morte, não havia temor.

Neste mundo, a farsa continuou: os “amigos” foram ver o morto, com o rosto hipócrita e compungido, mas acharam que sim; afinal não eram eles que estavam ali estendidos, eles estavam bem vivos; pensaram no que iria tomar o seu lugar e não perderam a noitada de whist. Só um ficou mais tempo no velório e a mulher de Ivan Ilitch chamou-o à parte: era para ele a aconselhar sobre uns dinheiros no banco… até ele achou o pedido vergonhoso e esquivou-se.

 

Bibliografia consultada
Jay Parini, A Última Estação, Presença, 2007 (considerado por Gore Vidal “um dos melhores romances históricos dos últimos 20 anos”).
Alexandra Popoff, Sofia Tolstoi – uma biografia, Civilização, 2011.
Lev Tolstoi, La Mort d’Ivan IllitchNouvelles et récits (1851-1885), Flammarion, 1993 (Introdução, notas, bibliografia e cronologia de Michel Cadot).
Lev Tolstoi, Ressurreição, Editorial Presença, 2010.
(Em Portugal, as obras de Tolstoi estão disponíveis na Editorial Presença, Relógio d’Água e Alêtheia.)

 

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