O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:
- Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
- Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
- Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?
Nesta décima primeira resposta, o casal de professores universitários em Massachussets e Providence (Estados Unidos), Lourdes e José Francisco Costa sugerem um conjunto de medidas em relação à reparação dos problemas surgidos com os abusos sexuais e o debate, entre os batizados, sobre as tarefas e desafios que a sociedade coloca à renovação da Igreja.
Discutir todas as tarefas e desafios

“Os primeiros esforços para nomear os representantes dos batizados terão de ser a nível da própria paróquia. Daqui passar para o nível diocesano.” Foto: Paróquia São Brás. Missa. © Arlindo Homem / Ecclesia
1. Em primeiro lugar, e porque o Sínodo tem como base programática a tentativa de congregarmos esforços que levem os crentes à (re)aprendizagem do Evangelho, é necessário escutarmos a voz e lermos os gestos do Papa Francisco no que toca à urgente renovação da total estrutura da Igreja/instituição. Para tal, não bastam boas intenções e promessas assentes numa falsa esperança no futuro que há de vir. O futuro é a constante renovação do presente. Temos de ter a coragem de, com o espírito de Pedro e Paulo, dizer a verdade e consentir que, a todos os níveis, nos desviámos da simplicidade da mensagem de Jesus. Por isso, e para que a fé não seja morta, torna-se necessário tomar medidas estruturais. Como e por quem? Não podemos esvaziar o sentido da responsabilidade, atirando para o ar sugestões sem sentido e sem rosto.
Assim, e em espírito de “comunhão, participação e missão”, propomos o seguinte:
a) No caso da pedofilia, levar a Santa Sé a promover uma reunião, presidida pelo Papa, com todos os bispos de Portugal, para que publicamente e pessoalmente se retratem e peçam perdão pelos crimes cometidos, por negligência, encobrimento da verdade ou conluio com os prevaricadores.
Que nessa mesma reunião seja exigido o cumprimento, por parte dos bispos e outros responsáveis, das normas emanadas da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica.
Exigir que seja publicada uma lista dos prevaricadores (padres e leigos) incluindo os já falecidos.
Que a Igreja seja responsabilizada, segundo a lei, por indemnizar todas a vítimas.
Pesem embora as implicações de carácter económico e financeiro, iniciativas como a Jornada Mundial da Juventude devem pautar-se pelo espírito de pobreza, humildade e serviço. De que serve celebrar a eucaristia de um crucificado num altar que custou milhões de euros?
b) Renovação do sistema que está velho e ultrapassado, por dar continuidade à reconversão da instituição eclesial, que se desviou do essencial sentido da missão, mediante a prática de várias medidas, entre as quais se destacariam as seguintes:
Os seminários devem tornar-se em centros de preparação para a pastoral, em estreita colaboração com as paróquias.
O presbiterado só deverá ser concedido aos homens e mulheres que, para além da sua idoneidade académica (Filosofia e Teologia cursadas em universidades), tenham demonstrado, na comunidade onde vivem, exemplar vocação para o serviço, em todas as suas vertentes de âmbito social e religioso.
A missão do diaconado deverá ser revista, de modo que não se torne numa mera função de acólito.
O bispo deve despir a formalidade de um gerente do altar, e ser o verdadeiro líder na caminhada eclesial. Devem ter coragem, com o apoio dos leigos, para banir vestes e outros adereços que evocam um passado que nada tem a ver com a gruta de Belém.
2. Faz todo o sentido que os batizados tenham um tempo e um espaço para discutirem todas as tarefas e desafios que o mundo nos coloca como crentes em Jesus e na sua Mensagem. Primeiramente teremos de olhar para os que vivem à nossa volta, os nossos próximos e tentarmos descobrir o que temos em comum. Em segundo lugar, procurarmos não cair na tentação de sempre: deixar que a escolha dos batizados se processe por via das instâncias superiores (párocos, fábricas da igreja, cabido, bispo).
Os primeiros esforços para nomear os representantes dos batizados terão de ser a nível da própria paróquia. Daqui passar para o nível diocesano. Tal poderá ser implementado pela contribuição dos média: boletim paroquial, jornal diocesano, programas de rádio e televisão, Internet. A nível nacional – e sempre independente da hierarquia, mas com a sua participação – teria lugar, de dois em dois anos, um encontro de reflexão sobre o “nosso caminhar de igreja”.










