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Líbano: O que acontece quando explode a capital de uma nação que já estava à beira do colapso?

| 05/08/2020

Líbano: O que acontece quando explode a capital de uma nação que já estava à beira do colapso?

by | 5 Ago 20 | Cooperação e Solidariedade, Cristianismo, Destaques, Estado, Política e Religiões, Igreja Católica, Pobreza e Exclusão Social, Refugiados, Sociedade, Últimas

crianca libano, Foto_ Save the Children

“Vamos começar a ver crianças a morrer de fome antes do final do ano”, alerta o diretor da organização Save the Children no Líbano. Foto: Save the Children.

 

“Apocalíptico” será talvez o melhor adjetivo para definir o cenário que se vive atualmente em Beirute. Num país que já se encontrava devastado pela pior crise financeira de sempre desde a guerra civil de 1975-1990, exacerbada pela pandemia de coronavírus, as duas grandes explosões que arrasaram parte da capital libanesa esta terça-feira, 4 de agosto, foram um duro golpe. Os relatos que chegam das organizações católicas e de ajuda humanitária no terreno são unânimes: a crise é tão profunda, que neste momento estão a trabalhar “não para combater a pobreza, mas para salvar vidas”.

“Este acidente não poderia ter acontecido num pior momento. Atingiu as comunidades que já estavam a sofrer com o impacto da crise da covid-19 e da crise económica. O principal porto de Beirute, agora completamente danificado, é vital para boa parte dos alimentos, dos cereais e combustível que o Líbano importa, e as famílias em breve sofrerão com a escassez de necessidades básicas devido a esta tragédia”, alerta Jad Sakr, diretor da organização Save the Children no Líbano, citado pelo Vatican News.

Os escritórios da organização em Beirute, a cerca de cinco quilómetros do porto, foram seriamente danificados pela explosão, que abalou o prédio e destruiu as fachadas das lojas do bairro. Apesar disso, a Save the Children garante que a sua equipa de resposta rápida está pronta para apoiar o Governo nos próximos dias. “O número real de mortes ainda não é conhecido, mas o que sabemos é que num desastre como este o impacto nas crianças pode ser devastador: elas podem estar feridas, chocadas e separadas dos seus pais. Os nossos colaboradores estão prontos para trabalhar para proteger as crianças e apoiar os esforços do Governo”, assegurou Jad Sakr.

Mas as preocupações do responsável pela ONG no Líbano não são apenas a curto prazo. Com os hospitais em rutura, inflação galopante, uma desvalorização da moeda que, desde outubro de 2019, já vai em 80%, e níveis de desemprego a atingir os 55%, as explosões só vieram piorar ainda mais uma situação que já era dramática. “Esta crise atinge toda a gente de igual forma, sejam famílias libanesas, refugiados palestinianos ou sírios. Vamos começar a ver crianças a morrer de fome antes do final do ano”, alertou o mesmo responsável, em declarações ao Catholic News Service.

Um relatório recente das Nações Unidas já indicava que 50% dos cidadãos libaneses, juntamente com 63% dos palestinianos e 75% dos sírios a residir no país, revelavam ter dúvidas quanto à capacidade de acesso a comida suficiente no mês seguinte.

O grande problema neste momento, sublinha o responsável pela missão pontifícia Catholic Near East Welfare Association (CNEWA, Associação Católica de Ajuda do Próximo Oriente), Michel Constantin, é que o Líbano “não tem uma rede de segurança”.

A agência da Santa Sé tem estado a trabalhar ativamente com as Igrejas Católicas Orientais para identificar as necessidades das populações e fazer chegar ajuda humanitária. “As pessoas perderam os seus trabalhos, estão presas em casa sem emprego e estão a começar a passar fome. Nós estamos a distribuir itens de sobrevivência como medicação, alimentos e leite para as famílias. Não para combater a pobreza, mas para salvar vidas”, explica.

De acordo com Michel Constantin, a organização católica está a ter de escolher ajudar “os mais pobres dos pobres. Não os que estão em dificuldades, mas aqueles que não conseguem sobreviver sozinhos. Os nossos parceiros têm estado a identificar aqueles que têm extrema necessidade de bens essenciais”, pois é a única forma de salvar vidas, ao mesmo tempo que a instituição apela a apoios por parte de governos e outras instituições católicas e não-governamentais.

“Se dermos a escolher entre caixas com produtos de higiene ou comida, todas as famílias escolhem a comida… sempre”, afirma Emily Redfern, responsável pelo Fratelli Project, um dos parceiros da CNEWA no terreno.

Rita Rhayem, diretora da Cáritas Líbano, instituição que trabalha igualmente em parceria com a missão pontifícia no país, lamenta por seu lado que grande parte da comunidade internacional esteja em silêncio, enquanto as organizações não-governamentais lutam para conseguir ajudar os mais necessitados, entre libaneses e migrantes.

“Os últimos dois meses foram realmente desafiantes para a Cáritas Líbano. O número de beneficiários triplicou, enquanto que muitas das pessoas que costumavam apoiar-nos deixaram de o fazer”, afirmara Rita Rhayem durante a apresentação do relatório anual da Cáritas, em julho.

Esta quarta-feira, na sua primeira audiência geral depois das férias, o Papa Francisco lançou o apelo: “Rezemos pelas vítimas [das explosões] e suas famílias; rezemos pelo Líbano, para que, com o compromisso de todos os seus componentes sociais, políticos e religiosos, possa enfrentar este momento tão trágico e doloroso e, com a ajuda da comunidade internacional, superar a grave crise que está a atravessar”. O Líbano aguarda urgentemente resposta.

O vídeo do apelo feito pelo Papa durante a audiência desta quarta-feira, 5 de agosto pode ver-se a seguir:

 

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