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Líbano: patriarca maronita exige celeridade na nomeação de novo governo

| 04/04/2021

O patriarca Béchara Raïs considera que os direitos das confissões devem desaparecer e dar lugar aos direitos dos cidadãos. Foto © Piotr Rymuza / Wikimedia Commons.

 

O patriarca maronita do Líbano, Béchara Raï, afirmou este sábado, 3, que haverá um “plano claro que visa mudar a identidade do Líbano”, país que se encontra mergulhado em grave crise económica e política e que está sem governo há quase oito meses.

Em carta dirigida aos fiéis por ocasião da festa da Páscoa, o dignitário maronita (católico), confissão que tem responsabilidades na distribuição do poder político, questionou porque é que os dirigentes políticos, que afirmam concordar com uma série de critérios para a formação do novo Governo, nomeadamente a ausência da possibilidade de bloqueio de terceiros, ainda não conseguiram concretizar a constituição do mesmo. Criticou ainda os sectores ligados ao poder que se subordinariam à “lealdade a um país diferente do Líbano”, assim “manipulando o destino da pátria”.

Segundo alguns observadores, enquanto a primeira crítica seria dirigida ao actual Presidente da República e a um dos partidos do poder, a segunda teria por alvo o Hezbollah.

Neste contexto, o patriarca Béchara Raï considerou que “agora é claro estar-se perante um plano que visa mudar o Líbano, o seu sistema, a sua identidade, a sua fórmula e as suas tradições. Há partidos que adotam o método de demolir instituições constitucionais, financeiras, militares e judiciais. Há partidos que optam por criar problemas e evitar soluções”, disse o responsável máximo dos maronitas.

O patriarca defendeu ainda, nesta carta pascal, que a questão da nação não deve residir em cotas ou direitos das confissões, mas na “integração de valores, no encontro de vontades e um benefício comum”. De resto, defendeu mesmo que “os direitos das confissões e suas cotas desapareçam diante dos direitos dos cidadãos à segurança, à alimentação, educação, saúde, trabalho”.

O responsável do Patriarcado Maronita Católico dedicou ainda alguma atenção a dois pontos que têm sido recorrentes na expressão das suas preocupações para o futuro: a neutralidade do Líbano e a realização de uma conferência internacional para salvar o país. “Um Líbano neutro é um Líbano de estabilidade e paz. Quanto a um Líbano parcial, é o Líbano de turbulência e guerra. Queremos paz, não guerra. A neutralidade é do interesse de todos e pode salvar a todos”, disse ele, com a noção de que enfrenta, nesse ponto, os interesses e visão do partido xiita.

“Quanto à conferência internacional, dará ao Líbano uma nova vida ao estabilizar a sua entidade, as suas fronteiras internacionais, ao renovar a parceria nacional, ao fortalecer a sua soberania, a sua independência e o seu exército”, sustentou Béchara Raï, acrescentando que “os Estados Unidos, as Nações Unidas e nossos amigos árabes e internacionais estão prontos para discutir esta proposta porque desejam ajudar o Líbano a permanecer um país livre e privilegiado neste Oriente”.

Segundo as informações do jornal libanês L’Orient – Le Jour, que temos seguido, foram precisamente estes dois “cavalos de batalha” que motivaram, no passado dia 27 de fevereiro, uma grande manifestação organizada frente à sede patriarcal maronita em Bkerké para apoiar a posição do patriarca.

O responsável dos maronitas tem, de facto, vindo a subir o tom das suas denúncias e a veemência das suas propostas. Na última semana vieram a público declarações recentes de Raï em que ele sugeria que o Hezbollah, grupo armado que controla o parlamento e é apoiado pelo Irão, tem estado a “arrastar os libaneses para guerras que decide travar sem pedir a opinião deles”. “[O Hezbollah] não está a zelar pelos interesses [do Líbano] nem pelos interesses de seu povo”, acrescentou.

 

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