Liberdade, consumação e vontade de Deus

| 28 Jun 2023

“A liberdade não consiste apenas em poder escolher qualquer coisa, mas em poder escolher o caminho da própria consumação. Consiste em realizar aquilo que está de acordo com a verdade mais íntima, o nervo da própria alma; aquilo que alimenta e dá sentido à própria alma, segundo os móbiles e aspirações mais íntimas de cada um.” Foto © Johannes Plenio / Unsplash

 

Se Deus é a nossa mais íntima verdade – mais íntima a nós mesmos que nós a nós próprios (Santo Agostinho) –, e se a verdadeira liberdade consiste em realizá-la, então não há contradição entre a Vontade de Deus e o livre-arbítrio humano. Muito pelo contrário, estarmos alinhados com a nossa mais íntima vontade e vocação, é estarmos alinhados com a Vontade de Deus.

A liberdade não consiste apenas em poder escolher qualquer coisa, mas em poder escolher o caminho da própria consumação. Consiste em realizar aquilo que está de acordo com a verdade mais íntima, o nervo da própria alma; aquilo que alimenta e dá sentido à própria alma, segundo os móbiles e aspirações mais íntimas de cada um. Ora, é Deus que cria em nós esses móbiles, essas mais vincadas e íntimas aspirações, que são a matéria mesma dos nossos sonhos mais caros – não fosse ele, afinal, o criador e pai de todas as almas. Assim, a consumação da nossa liberdade pessoal não é senão o cumprimento da nossa mais alta vocação, que é a Vontade de Deus em nós, para nós.

Deus deu-nos a alma, com tudo o que ela contém; mas a vocação nem sempre é clara. Exige uma descoberta, um caminho de autoconhecimento. Um caminho de atenção aos nossos verdadeiros desejos e aspirações, um caminho de profundidade e discernimento interior. A alma é o lugar dos móbiles mais puros e verdadeiros, o lugar dos arquétipos, que serão a chave da nossa consumação, logo, da nossa liberdade. Da mesma maneira que eles se inscrevem na nossa alma a partir da nossa mais íntima interioridade – que é Deus –, talvez, também, deste mesmo lugar, emirja aquilo que tem o potencial de aproximar a nossa vontade da Vontade de Deus, para que a nossa vocação não apenas se revele, mas se cumpra em liberdade – o espírito.

O espírito é poder – poder de Deus –, que não nos é imposto do exterior, como um jugo opressor, mas, ao brotar daquela profunda intimidade mais íntima de nós mesmos que nós de nós próprios, se manifesta como a nossa mais pessoal vontade, o nosso mais pessoal poder. O nosso eu expande-se, ganha substância e realidade, torna-se mais livre e mais capaz, porque se aproxima, ou participa mais plenamente, do poder de Deus, que é o infinito Eu Sou no qual o nosso eu pessoal está radicado. Neste sentido, o espírito é liberdade: “O espírito sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espírito” (Evangelho de João).

Esta liberdade não pode ser senão, como já foi dito, a de nos realizarmos, em obediência à revelação do nosso bem maior em nós, que talvez só o espírito possa dar. Platonicamente, aquele que conhece o bem como este deve ser conhecido, ou seja, existencialmente, a partir do interior, na alma, não pode agir mal, porque, de certa forma, tornou-se nele. É verdade que, em absoluto, não podemos conhecer Deus, porque também não podemos, em absoluto, tornar-nos Deus. E o Absoluto só pode ser conhecido absolutamente a partir de dentro, sendo Ele. Ao aproximarmo-nos dele pela expansão pessoal da nossa consciência, vontade e liberdade, somos cada vez mais nós, cada vez mais confortáveis e seguros na nossa individualidade, porque somos mais livres e conhecemos, parcial ou totalmente, o destino que nos consumará. Mas há um limite a partir do qual só Deus predomina, só Deus é. Ultrapassá-lo significa deixarmos de ser, ou seja, a aniquilação. Mas Deus quer que sejamos! Talvez por isso, como diz Simone Weil, Deus, não obstante esteja absolutamente próximo de nós, está também infinitamente longe, precisamente para que tenhamos espaço para nos realizarmos em Deus, mas nunca sendo Deus – pois isso significaria a aniquilação. Neste mundo, o ser não nos pode ser dado integralmente e de uma só vez, ou seriamos aniquilados na origem. Para sermos, em liberdade, isto é, da única maneira que se pode realmente ser, não podemos nascer Deus, nem querer ser Deus, porque, então, nunca seríamos realmente. Tal como Ícaro, a ascensão ilimitada significaria a queda e a aniquilação. Há um céu para voarmos e nos realizarmos, mas não podermos querer voar junto ao sol, e muito menos tornarmo-nos o sol, só porque a sua luz nos embriaga e faz felizes.

Vazio

“A nossa condição humana exige que, para nos realizarmos de acordo com os nossos móbiles e sonhos mais altos, tenhamos de abraçar a dúvida, o vazio, a desorientação e a angústia existenciais, a consciência dolorosa do próprio nada.” Foto © Vasily Koloda / Unsplash

 

A nossa condição humana exige que, para nos realizarmos de acordo com os nossos móbiles e sonhos mais altos, tenhamos de abraçar a dúvida, o vazio, a desorientação e a angústia existenciais, a consciência dolorosa do próprio nada. Sem tudo isto, a ascensão não se pode realizar, a liberdade e o ser íntimos não se podem consumar. A consciência dolorosa do nada, se devidamente orientada, é o deserto onde, peregrinando, poderemos enfim descobrir aquelas mesmas certezas que são a essência da nossa alma e a chave da nossa realização. O desejo, a sede pungente e radical de Ser e Verdade, tem de ser motor de uma ascensão positiva da consciência em direção às fontes de toda a verdade e de toda a beleza, precisamente para que sejamos cada vez mais; cada vez mais conscientes, cada vez mais livres. É porque Deus está absolutamente em nós, no coração mesmo da nossa intimidade, e ao mesmo tempo infinitamente distante, que a ascensão é possível, pois não teríamos consciência dolorosa do próprio nada, não experimentaríamos a angústia do não-ser, se não tivéssemos em nós radicada a bitola suprema que intuitivamente nos diz: “És nada, mas és tudo”.

Em nós, a consciência e a liberdade têm de ser forjadas. Se o que está dito atrás é verdade, a revelação súbita da verdade absoluta seria, para a alma particular, a aniquilação. Será por isso que na Bíblia se diz tantas vezes que aquele que vê Deus face a face não pode permanecer vivo?

Roubar a Deus o fogo que é dEle, e é Ele, seria o mesmo que ser consumido por ele. Só Deus pode outorgá-lo ao homem, livremente, e na medida certa, para que ele seja, participando um pouco do Seu infinito poder.

Neste contexto, a expulsão de Adão e Eva do paraíso pode ser interpretada, não como um castigo, mas como um bem, que evitou a aniquilação precoce da humanidade por esta ter querido igualar-se a Deus, deste modo abortando para si mesma a possibilidade de ser. A distância imposta ao homem pô-lo no caminho da sua própria consumação.

A Verdade de Deus, absoluta, é incognoscível e talvez mesmo insuportável para o homem. Há, porém, uma verdade que é para o homem pão e vida, indispensável para que este se realize. Há um céu que é próprio do homem, onde cada um é o que é, e todos são. Se Teilhard de Chardin estiver certo, este reino é o do Amor, que une sem destruir, ou seja, onde cada um é o que é, e cada vez mais o que é, quanto mais unido estiver consigo mesmo, com os outros e com Deus.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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