AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Liberdade, igualdade, paternidade

| 25/02/2020

Liberdade, igualdade, paternidade

by | 25 Fev 20

Liberté, égalité, paternité – foi um slogan usado em manifestações contrárias à legislação em discussão no Parlamento francês, que vem permitir o acesso à procriação artificial fora do quadro de um casal composto por um homem e uma mulher e com propósito intencional de privar a criança a nascer da figura paterna.

Tal possibilidade está já reconhecida na legislação portuguesa desde 2016 (a Lei n.º 17/2016, de 20 de junho, que alterou a Lei n.º 32/2006, de 26 de julho), uma alteração aprovada numa indiferença quase geral e sem que, por cá, tenha ocorrido a viva discussão que a questão vem suscitando em França desde há mais de um ano (com a realização de Estados Gerais da Bioética).

Anuncia-se agora uma nova proposta (do Partido Socialista) de alteração da legislação portuguesa que, motivada por um caso real noticiado, virá permitir a inseminação post mortem, isto é, a inseminação com sémen do marido ou companheiro falecidos (hoje vedada pelo artigo 22.º da referida Lei n.º 32/2006, que não veda, porém, a transferência post mortem de embriões). Argumenta-se em favor dessa admissibilidade que, estando já iniciado o processo no momento da morte do pai, não será justo vedar essa inseminação quando nenhum obstáculo haveria se estivéssemos perante o recurso à procriação artificial por uma mulher com um dador de sémen anónimo. Encarada a questão nesta perspetiva, seria aceitável esta argumentação.

Mas a questão fulcral é outra.

O filho deve ser aceite como um dom, e não reivindicado como objeto de um direito. Deve ser fruto de uma relação de amor e comunhão, da unidade na diversidade de dois progenitores (e aí radica, desde logo, a sua alteridade em relação a cada um destes), não de uma afirmação individual, como espelho ou prolongamento de um progenitor (também por isso, é inaceitável a clonagem). O seu bem deve prevalecer sobre qualquer desejo (por muito legítimo e compreensível que este seja), de um ou de ambos os progenitores. De outro modo, não será querido por si mesmo, um fim em si mesmo, e estará a ser instrumentalizado.

E esse bem do filho reclama a presença de uma mãe e de um pai ao longo de todo o seu crescimento, não se compadece com alguma forma de orfandade pré-determinada. Que a privação do pai ocorra com frequência de forma involuntária, e muitas mães a consigam suprir com muita dedicação e sacrifício, não significa que seja esse o dever ser, ou o melhor para o filho, que se deva aceitar essa privação de forma programada e intencional.

A propósito da discussão ainda em curso em França, salientaram os bispos franceses (no seu documento de 2018 La dignité de la procréation, cujo resumo é acessível em www.eglise-catholique.fr) que o “interesse superior da criança” exige uma referência paternal e que a eliminação dessa referência suscita problemas de ordem antropológica e social, contribuindo para o enfraquecimento da consciência social das responsabilidades do pai e favorecendo uma imagem distorcida do pai como simples fornecedor de material genético, equiparando a procriação humana a alguma forma de produção.

Foram estas considerações que justificaram o regime legal português de recurso à procriação artificial na sua versão inicial, então reservada a casais inférteis, tal como a proibição da inseminação post mortem, ainda hoje vigente. Parece que todas essas considerações estão hoje esquecidas. Mas não deveriam estar.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

EUA

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This