Liberdade ou o valor das pequenas coisas

| 11 Abr 21

Jardim, Mosteiro, Flores,

“Atualmente parece que começamos a conhecer o valor das pequenas coisas e, se assim é, estamos a aprender uma grande lição.” (Jardim do Mosteiro do Lumiar das Monjas Dominicanas, Lisboa. Foto © Lucy Wainewright)

 

Um destes dias, em conversa com um amigo de vida toda, ouvi da sua boca qualquer coisa como “nem sei bem o que senti quando cheguei ao Algarve, estacionei o carro no jardim e pude sair sem ter de pensar na máscara”. Falava da chegada à sua casa de praia, à qual não ia fazia já bastante tempo.

Estes retalhos parecem não ter a menor importância. São apenas um carro, um jardim e um não ter de pôr a máscara. A verdade é que, como nunca, pode consciencializar-se a importância relativa de cada experiência que temos, de cada oportunidade que se nos oferece, de cada tempo que não deixa de passar.

Vivemos dezenas de anos cheios de momentos especiais e de benefícios que insistimos em banalizar porque estavam ao nosso alcance, diria mesmo garantidos. Era pelo menos o que pensávamos. Atualmente parece que começamos a conhecer o valor das pequenas coisas e, se assim é, estamos a aprender uma grande lição.

Muitas pessoas perdem tempo (gostava de poder dizer – perdiam) com detalhes que as coisificam. Muitas empresas desfazem-se porque adotam esquemas demolidores que só beneficiam alguns. Muitas famílias separam-se porque ignoram os privilégios que são seus, valorizando detalhes e intoxicando-se de reflexões interpretadas como ofensas, que não foram mais do que deslizes, tantas vezes bem-intencionados e apenas mal conseguidos.

Tudo isto acontece, mas eu gostava de me sentir legitimada a dizer – acontecia. Gostava que as lições deste agora ficassem mesmo aprendidas. É que não vale a pena desperdiçar a vida com coisa nenhuma como se de uma circunstância relevante se tratasse.

Hoje, ainda é quase um luxo ter, como antes sempre tínhamos, a cara destapada; é um luxo sair de casa para viajar; é um luxo marcar um encontro para tomar um café despreocupadamente; é um luxo juntar família e amigos à volta de uma mesa, sem restrições, ir a um restaurante ou simplesmente entrar em lojas quando e como apetece para comprar apenas qualquer coisa.

Não. Não somos livres, não sabemos quando isso irá acontecer, nem sequer como e em que circunstâncias. Sabemos apenas que não há adquiridos e que não merece a pena valorizar detalhes que somente servem conflitos ou ambições imaturas e irrealistas.

Se desperdiçar tempo é também desperdiçar vida, conseguimos, ao olhar a realidade à nossa volta, identificar quantas existências se perderam com pequenos nadas que somente serviram expressões diversas de sofrimento e de dor, materializadas, se assim se pode dizer, em emoções secundárias como o ciúme, a inveja ou a vergonha.

Com frequência os humanos olham (gostava de poder dizer – olhavam) para o que todos menos os próprios fazem de menos bom, a fim de apontarem as incorreções alheias e, desse modo, criarem cisões e guerras e nunca corrigirem os erros que cometem (gostava de poder dizer – cometiam).

Os novos tempos, e outros tempos velhos em que coisa semelhante aconteceu, devem ser vistos como preciosas lições que nos ensinam a distinguir o essencial do acessório; que nos ajudam a bem gerir expectativas e realidades; que nos libertam de sensibilidades desmesuradas que apenas fazem e nos fazem sofrer.

A doença de Constantinopla, então a maior metrópole do mundo, chamada Praga de Justiniano, matou mais de 30 milhões de pessoas em cerca de 200 anos; a peste negra, causada pela mesma bactéria, matou, em 10 anos, cerca de 75 milhões. Esta também gerou uma grande crise económica, já que dizimou cerca de 40% da população da Europa. Na verdade, a também chamada peste bubónica nunca desapareceu totalmente, mas hoje há medicamentos capazes de a combater e condições de saneamento capazes de a evitar em termos de prevalência; a varíola, que apareceu no séc. XVI e era altamente contagiosa, matou cerca de 30% dos infetados ao longo de muitos anos e deixou sequelas em muitos outros. Foram mais de sete dezenas de milhões os que partiram com esta doença, até que surgiu a que foi a primeira vacina do mundo; a, assim chamada, gripe espanhola ou pneumónica, que ocorreu em 1918, matou cerca de 40 milhões de pessoas em dois anos…

Poderia continuar uma revisão histórica, mais para cá no tempo, mas não é isso que me parece útil neste momento. De facto, o que quero dizer é que tem havido tantas oportunidades de aprendizagem e parece que o homem só as aproveita seletivamente e enquanto se sente ameaçado. Depois, regressa à sua essência, voltando a esquecer-se do essencial e anulando a memória coletiva que tanto o poderia ajudar a cultivar a imprescindível memória individual.

Disse Martin Luther King – “Se não puderes voar, corre. Se não puderes correr, anda. Se não puderes andar, rasteja, mas continua em frente de qualquer modo.” Isto, sim, é a singela sabedoria mais sábia que urge ser perenemente adquirida pela humanidade, sem inúteis complexidades nem complicações acrescidas.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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