No mundo artificializado, os plásticos pesam já quase o dobro do peso de todos os animais terrestres e marinhos. E os edifícios e infra-estruturas pesam já mais do que todas as árvores e arbustos. A co-criação em si é boa, mas todo o excesso, incluindo o estrutural, leva à obesidade e ao esmagamento de nós próprios sob as estruturas que criamos.

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As nossas estruturas são mais pesadas do que aquilo que Deus criou na natureza. É esta a conclusão de um artigo publicado na Nature. Enquanto há uma preocupação saudável com a criação de Deus, onde se procura escutar o clamor da Terra e o dos pobres que habitam na casa comum, pouco se tem pensado na co-criação com Deus e que é da nossa exclusiva responsabilidade. Mas podemos ir mais a fundo e pensar não só nas estruturas físicas, mas, também, nas estruturas mentais. Como por exemplo, a estrutura mental de apoio a Trump nos Estados Unidos em relação à ideia de fraude eleitoral, enquanto existem americanos a morrer aos milhares por causa da covid-19. Mas o que me deixa mais perplexo é ver traços dessas estruturas mentais em países como Portugal.
O artigo da Nature mostra como as estruturas que os humanos construíram neste planeta – a massa antropogénica –, superam já o peso dos ecossistemas naturais que incluem fauna e flora, isto é a biomassa. Não é que estejamos a criar massa com a co-criação humana, mas a artificializar a que existe.
E pelo lado das estruturas mentais, um mês depois do final das eleições americanas, com o número de mortos pela covid-19 a chegar aos 3000, Trump inaugura campos de ténis, joga golf, e cria o hashtag no Twitter #OVERTURN, ainda relativamente às eleições que recusa perder, como menino mimado (desculpem o termo). Mas em Portugal ouvi gente que o apoia, e que ideias como estarmos no fim desta pandemia (como em Bolsonaro), ou que é mesmo uma cabala (como no movimento Médicos pela Verdade), são ideias metidas na cabeça das pessoas, estruturando a sua mente, e controlando a percepção da realidade.
Em 2010, Peter Turchin, cientista russo-americano, e especialista em evolução cultural e cliodinâmica – modelação matemática e análise estatística da dinâmica histórica das sociedades – previu uma “era da discórdia” em 2020. Na altura, muitos desprezaram os seus modelos e, agora, dão-lhe razão. Ele afirma que os problemas que vivemos são profundos e – mais uma vez – estruturais. Pensando ainda no caso americano, numa entrevista ao The Atlantic, Turchin compara os Estados Unidos a um enorme navio em direcção a um iceberg e diz que “enquanto a tripulação discute para que lado há-de virar o navio, deixa de ter tempo para virar, e embate directamente contra o iceberg.” De facto, quando vemos quanta discussão política se faz através de redes de entretenimento, como são as redes sociais, vemos, em directo, um instrumento pensado para unir as pessoas a dividi-las, mantendo o público divertido, envolvido, distraído, enquanto o navio range porque o embate com o iceberg já está em curso. Saltamos do barco ou paramos o barco?
Todo o corpo precisa de um esqueleto, ou seja, uma estrutura, mas quando o esqueleto (a estrutura) se sobrepõe ao corpo, despreza-o e, ironicamente, corremos o risco de vivermos como uma comunidade de esqueletos. Isto é, pessoas tão estruturadas que perdemos a flexibilidade exigida em qualquer relacionalidade, seja de que natureza for.
No mundo artificializado, os plásticos pesam já quase o dobro do peso de todos os animais terrestres e marinhos. E os edifícios e infra-estruturas pesam já mais do que todas as árvores e arbustos. A co-criação em si é boa, mas todo o excesso, incluindo o estrutural, leva à obesidade e ao esmagamento de nós próprios sob as estruturas que criamos.
No Evangelho aprendemos a lição de quem tem mais, dê a quem tem menos. Foi esse o testemunho de S. Martinho ao oferecer meia-capa ao pobre. Ou seja, não lhe deu a capa, mas partilhou-a. E quem dá fica com menos, o que significa que, talvez, não precisasse de tanto daquilo que tinha. Pensando bem, talvez o mundo humano não precise de tanta massa antropogénica. Faz-me lembrar o documentário que será lançado no início de 2021 de Os Minimalistas intitulado Menos é agora, com uma interessante e profunda experiência de como há mais alegria em dar e ter menos, sendo assim que se recebe e percebe o que é, realmente, essencial na nossa vida. Pois o excesso de estruturas exteriores são um reflexo do excesso das estruturas interiores.
Podemos pensar que precisamos de mais estruturas para segurar o barco, mas parar o barco passa por nos libertarmos das estruturas a mais que nos esmagam, sejam essas exteriores ou interiores. O rigorismo que vemos em muitas estruturas mentais na cabeça dos cristãos – por exemplo, ver o cuidado da higienização das mãos como uma ameaça à verdade experiencial da sagrada Comunhão – não são uma segurança para a vivência genuína da doutrina, mas um esmagar dessa vivência com estruturas mentais que estão a mais. A doutrina deveria enraizar-nos na simplicidade do essencial.
Saltar do barco não garante a sobrevivência porque há sempre a possibilidade de sermos engolidos pelo vórtice que o barco cria enquanto se afunda. Parar o barco talvez passe pelo minimalismo das nossas estruturas, exteriores e interiores, de modo a vivermos a sobriedade do essencial que não passa: a vida profunda.
Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra










