Eis um acontecimento editorial dos anos oitenta, de que, pelo menos, um dos volumes foi vertido para português. Eventualmente dispensável para jovens de hoje, mas grandemente influente junto de alguns que outrora também procuravam informação e entretenimento na RTP e, menos recomendável, nos livros, veio ao meu encontro nas prateleiras cheias de surpresas de uma livraria singular.
Trata-se, o dito acontecimento, de uma comédia de situação que aborda a difícil relação entre a administração pública e o governo, num país, claro está, em que a estabilidade, eventualmente também inércia, da primeira é, tradicionalmente, muito superior à do segundo. E isto por razões que se prendem (1) com a vontade do povo e (2) com a vontade dos altos cargos da dita administração.

Quem não conheceu já um desses altos funcionários que todos os governantes escutavam e cuja supremacia sobre os políticos eleitos decorria, não só mas também, em larga medida da sua longevidade no posto, onde nidificara e criara a sua rede de vassalos? Com fama de muito inteligente, era também discreto e um excelente gestor dos tempos, deixando alguns – animados de boa-vontade mas, a espaços, inteiramente dependentes do seu conhecimento das matérias – verdadeiramente exasperados, enquanto afiava, com minúcia de ourives, sucessivos lápis imaginários. Seria um émulo de Sir Humphrey, transposto para o écran por Nigel Hawthorne?
Yes, Minister e Yes, Prime Minister são autênticos tratados de resistência de altos funcionários a qualquer sinal de mudança que possa fazer perigar o seu posto, a sua visão do mundo, os seus privilégios. Também são um exercício interessante de educação política: o governante ungido pelo voto não conhece as armadilhas da imprensa, dos opositores e da própria realidade, e o hábil alto funcionário vai ajudá-lo a manobrar entre os escolhos da realidade, da verdade e do bom-senso, levando-o, quer queira quer não, a dispensá-los, a bem da perpetuação do status quo. E a elegância, bom gosto e serenidade dos diálogos (a intervalos interrompida por assaltos de mau-humor do ‘dedicadíssimo’ Sir Humphrey) remetem-nos para um tempo, idílico, de conversação civilizada.
Na deliciosa introdução ao primeiro volume do que apresentam como colectânea dos diários de James Hacker, M.P., os autores referem os problemas de interpretação com que se depararam. E dizem:
«os leitores vão ter de formular o seu próprio julgamento sobre se uma qualquer declaração [de James Hacker] representa:
- o que aconteceu;
- o que ele acreditava que aconteceu;
- o que ele gostava que tivesse acontecido;
- o que ele queria que os outros acreditassem que tinha acontecido;
- o que ele queria que os outros acreditassem que ele acreditava que tinha acontecido.»

A esta distância, quase parece inocência da parte dos autores centrar a divertida e muitíssimo bem escrita sitcom no problema da verdade. Como se fosse importante ou interessante nos dias que correm. Mas ao datarem a Editor’s Note que citei de Setembro de 2019, quando escrevem em 1989, sugerem, com invulgar presciência, tratar-se já de trabalho de historiador sobre uma época que não volta mais.
Por fim, o lugar do achado não é indiferente. Chama-se Déjà Lu e é uma livraria solidária, em espaço cedido por uma conhecida empresa da indústria hoteleira, «que doa 100% dos lucros a duas instituições que trabalham para a promoção e profissionalização de pessoas com Trissomia 21 – APPT21 e PAIS 21» (ver página de apresentação em https://livraria-dj-lu.weeblysite.com/sobrenos).
Com uma decoração atraente e adequada à função, respira-se a espaços nesta livraria, dependendo também de quem nos recebe, um ambiente posh que diverte sem ofender, ou não estivéssemos no Cidadela art district de Cascais.
João Santos é professor.










