Líder da Igreja Ortodoxa da Etiópia denuncia “genocídio” na região do Tigré

| 11 Mai 21

massacre tigre etiopia Foto Tigrai Media House

Os conflitos têm levado, segundo os relatos de D. Mathis, a um “genocídio” cometido pelo governo de Addis Abeba. Foto @Tigrai Media House

 

O responsável máximo da Igreja Ortodoxa etíope, o arcebispo (abuna) Mathias, acusou o regime de Addis Abeba de estar a perpetrar um genocídio na região de Tigré e de pretender “exterminar os tigrés da face da terra”.

Com palavras duras, foi a primeira vez que este responsável religioso se pronunciou sobre o conflito que surgiu na parte norte da Etiópia, no início de novembro último e que causou já milhares de mortos e muitas dezenas de milhares de refugiados, nomeadamente no vizinho Sudão.

Abuna (a designação para “padre”, em várias igrejas orientais e ortodoxas) Mathias, que pertence ele próprio à etnia tigré, fez divulgar no último sábado, 8 de maio, uma videomensagem de cerca de 15 minutos, gravada no mês passado na Etiópia, na qual relata atrocidades que afirma estarem a ser cometidas contra o seu povo.

O autor do vídeo, Dennis Wadley, que dirige a ONG americana Pontes de Esperança e é amigo do arcebispo há vários anos, levou a gravação para o seu país, onde começou a ser divulgada neste sábado. Uma fonte oficial dos ortodoxos etíopes confirmou a veracidade do documento.

O responsável da Igreja Ortodoxa, maioritária no país, justificou o seu silêncio até agora, deste modo: “Eu falei, mas ninguém permite que a mensagem seja divulgada. Pelo contrário, tem sido sufocada e censurada”, afirma ele no vídeo.

Esta é uma das poucas críticas públicas formuladas por uma importante personalidade etíope sobre o conflito que, desde novembro de 2020, opõe o exército federal às forças leais ao partido governante outrora dominante do Tigré, faz notar a agência Associated Press (AP).

Entretanto, o governo da Etiópia mantém a narrativa de que, desde que assumiu o controlo de Mekele, a capital do Tigré, no final de novembro, a situação tem evoluído “favoravelmente” no sentido da normalidade. Afirma-se ainda “profundamente consternado” com a morte de civis, cuja culpa atribui aos ex-líderes do Tigré.

Contudo, testemunhas disseram à AP que viram corpos espalhados pelo chão em várias comunidades, tigrés presos e expulsos e mulheres violadas por forças etíopes e aliadas da vizinha Eritreia. Outros referiram familiares e colegas, incluindo padres, a serem levados e detidos, muitas vezes sem acusação.

O arcebispo Mathias nasceu em 1942 e tornou-se o primeiro líder da Igreja a denunciar o regime comunista da Etiópia, em 1980. Por tal ousadia foi forçado a viver no estrangeiro ao longo de mais de trinta anos.

Agora, pede aos líderes internacionais que “encontrem a curto prazo uma forma de impedir um genocídio”, que vem acompanhado de um “desastre humanitário”, uma situação de emergência já reconhecida pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.

 

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Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas. De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer.

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