
Os conflitos têm levado, segundo os relatos de D. Mathis, a um “genocídio” cometido pelo governo de Addis Abeba. Foto @Tigrai Media House
O responsável máximo da Igreja Ortodoxa etíope, o arcebispo (abuna) Mathias, acusou o regime de Addis Abeba de estar a perpetrar um genocídio na região de Tigré e de pretender “exterminar os tigrés da face da terra”.
Com palavras duras, foi a primeira vez que este responsável religioso se pronunciou sobre o conflito que surgiu na parte norte da Etiópia, no início de novembro último e que causou já milhares de mortos e muitas dezenas de milhares de refugiados, nomeadamente no vizinho Sudão.
Abuna (a designação para “padre”, em várias igrejas orientais e ortodoxas) Mathias, que pertence ele próprio à etnia tigré, fez divulgar no último sábado, 8 de maio, uma videomensagem de cerca de 15 minutos, gravada no mês passado na Etiópia, na qual relata atrocidades que afirma estarem a ser cometidas contra o seu povo.
O autor do vídeo, Dennis Wadley, que dirige a ONG americana Pontes de Esperança e é amigo do arcebispo há vários anos, levou a gravação para o seu país, onde começou a ser divulgada neste sábado. Uma fonte oficial dos ortodoxos etíopes confirmou a veracidade do documento.
O responsável da Igreja Ortodoxa, maioritária no país, justificou o seu silêncio até agora, deste modo: “Eu falei, mas ninguém permite que a mensagem seja divulgada. Pelo contrário, tem sido sufocada e censurada”, afirma ele no vídeo.
Esta é uma das poucas críticas públicas formuladas por uma importante personalidade etíope sobre o conflito que, desde novembro de 2020, opõe o exército federal às forças leais ao partido governante outrora dominante do Tigré, faz notar a agência Associated Press (AP).
Entretanto, o governo da Etiópia mantém a narrativa de que, desde que assumiu o controlo de Mekele, a capital do Tigré, no final de novembro, a situação tem evoluído “favoravelmente” no sentido da normalidade. Afirma-se ainda “profundamente consternado” com a morte de civis, cuja culpa atribui aos ex-líderes do Tigré.
Contudo, testemunhas disseram à AP que viram corpos espalhados pelo chão em várias comunidades, tigrés presos e expulsos e mulheres violadas por forças etíopes e aliadas da vizinha Eritreia. Outros referiram familiares e colegas, incluindo padres, a serem levados e detidos, muitas vezes sem acusação.
O arcebispo Mathias nasceu em 1942 e tornou-se o primeiro líder da Igreja a denunciar o regime comunista da Etiópia, em 1980. Por tal ousadia foi forçado a viver no estrangeiro ao longo de mais de trinta anos.
Agora, pede aos líderes internacionais que “encontrem a curto prazo uma forma de impedir um genocídio”, que vem acompanhado de um “desastre humanitário”, uma situação de emergência já reconhecida pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.









