Um grupo de líderes de igrejas cristãs de diferentes denominações escreveu uma carta ao executivo municipal de Londres para expressar a sua “profunda preocupação” com uma “violenta invasão policial” da Casa de Reuniões da Comunidade Quaker na capital britânica, que aconteceu no final do mês passado.
O incidente passou-se ao final da tarde de 27 de março, altura em que a polícia metropolitana do Reino Unido invadiu o espaço daquela comunidade cristã para interromper um encontro de membros da Youth Demand, uma organização de jovens ativistas que defendem a Justiça Climática e o “fim do genocídio” na Faixa de Gaza. Na sequência desta operação policial, foram presas seis pessoas por suspeita de conspiração para causar incómodo público, que entretanto foram libertadas sob caução, relata a BBC.
“Sem bater ou tocar a campainha, a polícia forçou a entrada na Casa de Reuniões, causando danos materiais a um edifício histórico. Num espaço comunitário profundamente comprometido com a não violência e o pacifismo, agentes de polícia armados com tasers entraram para controlar e intimidar. Após demonstrar força desnecessária num encontro para pessoas que exploravam ações sociais não violentas, a polícia invadiu e interrompeu outros eventos que aconteciam simultaneamente na Casa de Reuniões, incluindo uma aula de desenho de animação, sessões de terapia e funcionários que trabalhavam e moravam no local, apreendendo bens como telefones e computadores”, relata a missiva dos líderes cristãos enviada esta semana ao executivo municipal londrino, e citada pelo Independent Catholic News.
“Este incidente causou grande medo e alarme na comunidade Quaker, que historicamente tem representado uma voz pela paz e compaixão para com todos. Solidarizamo-nos com eles no seu sentimento de choque e violação. Partilhamos a sua angústia, sabendo que a mesma força pode ser direcionada contra os nossos próprios ministérios e os grupos comunitários sediados nos nossos edifícios”, prossegue a carta.
Para os líderes das comunidades cristãs de Londres, “esta não é uma resposta policial aceitável a uma reunião pacífica de qualquer tipo, seja em igreja, mesquita, sinagoga ou centro comunitário”. Os responsáveis religiosos pedem, assim, ao presidente da Câmara, Sadiq Khan, e à sua equipa que “condenem claramente as ações policiais de 27 de março” e “assegurem que medidas claras serão tomadas para garantir que não haja futuros incidentes de respostas policiais desproporcionais e inapropriadas em locais de culto e centros comunitários”.
Desde que o incidente foi noticiado, a comunidade Quaker tem sido inundada por mensagens de solidariedade vindas de diferentes partes do Reino Unido, e mesmo de outros países. A comunidade organizou uma vigília silenciosa junto à sede da Scotland Yard (polícia britânica), no passado dia 3 de abril, à qual se juntaram cerca de 300 pessoas de diferentes denominações cristãs. O assunto foi também debatido na Câmara dos Comuns, onde alguns deputados manifestaram preocupação relativamente à Lei de Ordem Pública de 2023, cujas “definições vagas e abrangentes significam que até mesmo discutir protestos pacíficos pode ser criminalizado”, assinala o Independent Catholic News.

A comunidade organizou uma vigília silenciosa junto à sede da Scotland Yard, no passado dia 3 de abril, à qual se juntaram cerca de 300 pessoas. Foto © Quakers in Britain
Oliver Robertson, um dos líderes da comunidade Quaker na Grã-Bretanha, alerta que “esta invasão não é um incidente isolado. Ela reflete uma tendência crescente de policiamento excessivo sob as novas leis trazidas pelo governo anterior, que agora estão a ser aplicadas pela administração atual”.
E acrescenta: “Isto é sobre o tipo de país, o tipo de mundo em que queremos viver. Os quakers acreditam que todas as pessoas são iguais e, para que isso seja realidade, precisamos de leis que permitam a participação, em vez de suprimi-la”.
A comunidade Quaker – também conhecida como Religious Society of Friends – é uma denominação cristã que surgiu em Inglaterra no século XVII, como resposta ao que o seu fundador, George Fox, considerava ser a corrupção institucional dentro da Igreja da Inglaterra. Os quakers definem-se sobretudo pelo pacifismo e, ao longo dos seus 400 anos de atividade, realizaram importantes protestos não-violentos, nomeadamente pela abolicão da escravatura e pelo direito ao voto das mulheres, tendo-lhes sido atribuído, em 1947, o Nobel da Paz.
Este artigo teve o contributo de Catarina Sá Couto.










