Líderes muçulmanos europeus apoiam declaração de Abu Dhabi
Entre os 17 subscritores está o imã David Munir, xeque da Mesquita de Lisboa; posição conjunta fala da Declaração como um documento-guia “para as gerações futuras promoverem uma cultura de respeito mútuo na consciência”.

O Papa Francisco e Ahmad Al Tayyeb, Grande Imã de Al Azhar Al Sharif (dirª) assinam o “Documento sobre a Fraternidade Humana, a 4 de Fevereiro, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos). (Foto Eissa Al Hammadi/Ministry of Presidential Affairs/Vicariato Apostólico do Sul da Arábia)
Vários líderes muçulmanos europeus expressaram o seu “apoio e compromisso” com a “nobre iniciativa e o conteúdo da mensagem expressa no Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum, assinado na semana passada pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã da Universidade e Mesquita de al-Azhar (Cairo, Egipto), Ahmed al-Tayyeb. O texto foi assinado pelos dois líderes religiosos (al-Azhar é considerada o mais importante centro do islão sunita) em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU), no final do encontro inter-religioso promovido por al-Tayyeb e pelo Conselho dos Anciãos, que terminou durante a viagem do Papa aquele país do Golfo Pérsico – a primeira de um Papa à Península Arábica.
Os 17 líderes que agora subscrevem a carta de apoio, a cujo conteúdo 7MARGENS teve acesso, afirmam sentir-se “honrados em responder ao generoso convite” do Documento sobre a Fraternidade Humana a “todas as pessoas que têm fé em Deus e a fé na fraternidade humana para se unirem e trabalharem juntas”. Só assim elas poderão “servir de guia para as gerações futuras promoverem uma cultura de respeito mútuo na consciência” e traduzir a “grande graça divina que faz todos os seres humanos irmãos e irmãs”.
Na carta, os 17 membros do Conselho Europeu de Sábios Muçulmanos (European Muslim Leaders Majlis – EuLeMa) anunciam ainda que este organismo reunirá em breve em Bucareste (Roménia), com a presidência da União Europeia – neste momento a cargo deste país do Leste –, para “estudar meios e formas de concretizar os conteúdos da Declaração de Abu Dhabi e estudar estratégias comuns para desenvolver o seu sucesso”.
Na declaração do EuLeMa, este organismo manifesta o seu “total apoio e acompanhamento concreto a esta nobre iniciativa e aos conteúdos desta mensagem histórica”, cujo texto integral, em português, está disponível aqui. (O documento foi, entretanto, publicado também em formato de livro pela Paulinas Editora.)
A declaração de Abu Dhabi é “um passo importante e positivo para o bem da humanidade nos dias de hoje”, diz ao 7MARGENS o xeque David Munir, imã da Mesquita de Lisboa, um dos 17 signatários do texto da EuLeMa, que apoia o Documento sobre a Fraternidade Humana. Para os muçulmanos portugueses, “o diálogo inter-cultural e inter-religioso não é nada de novo, é o que temos procurado fazer”. Por isso, foi imediata a adesão do xeque Munir, 55 anos (33 dos quais em Portugal) à ideia de subscrever o texto de apoio.
A rede EuLeMa agradece ainda “ao Papa Francisco e à Igreja Católica e ao Xeque Ahmad al-Tayyeb e à Instituição de Al-Azhar al-Sharif pela referência clara feita no documento à liberdade, justiça, diálogo, protecção dos locais de culto, cooperação entre Oriente e Ocidente, condenação do terrorismo, valor e dignidade da família, das mulheres, das crianças, dos idosos e dos pobres”.
Enquanto residentes na Europa, referem expressamente a referência da Declaração à cidadania, pedindo que se acabe com o uso do conceito de “minorias”: “O conceito de cidadania baseia-se na igualdade de direitos e deveres, sob a qual todos gozam de justiça. Portanto, é crucial estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e rejeitar o uso discriminatório do termo minorias, que gera sentimentos de isolamento e inferioridade. O seu mau uso prepara o caminho para a hostilidade e a discórdia” e retira os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos que são assim discriminados ”.
Os 17 subscritores acrescentam: “Nas nossas funções de relações institucionais e de formação educativa no contexto da sociedade europeia, temos sido desde há tempo responsáveis pela transmissão de valores universais e comuns ao cristianismo e ao islão e às doutrinas de outras comunidades religiosas.” E acrescentam: “Estamos conscientes de que apenas a concretização desta perspectiva de respeito pela sagrada identidade da vida, será capaz de conter guetos, vitimização e discriminações.”
Entre os 17 subscritores do comunicado, estão ainda o presidente do Conselho francês de culto muçulmano, Anouar Kbibech (França), o imã Mohammad Ismail Imam (Reino Unido), Rais al-Ulama Emeritus Mustafa Ceric (Bósnia), o imã Yahya Pallavicini (Itália) e imãs e muftis da Finlândia, Áustria, Alemanha, Roménia, Polónia, Rússia, Dinamarca, Lituânia, Albânia, Irlanda e Eslovénia.
Logo após a assinatura do Documento, o novo director do Dicastério para as Comunicações do Vaticano, Andrea Tornielli, considerou que o texto constituía não apenas um marco nas relações entre cristianismo e islamismo, mas também uma mensagem com forte impacto no cenário internacional.

Um conjunto de convidados do encontro inter-religioso sobre a Fraternidade Humana escutando a intervenção do Grande Imã de Al Azhar Al Sharif, Ahmad Al Tayyeb (Foto Eissa Al Hammadi/Ministry of Presidential Affairs/Vicariato Apostólico do Sul da Arábia)
(Considerando a importância histórica do documento, 7MARGENS publicou já várias notícias e textos sobre ele; é possível reler os comentários do Papa Francisco, depois do regresso ao Vaticano, o relato da eucaristia celebrada em Abu Dhabi, e uma antecipação sobre o que poderia ser o significado da viagem do Papa aos EAU; podem ler-se ainda comentários do presidente da Comunidade de Santo’Egídio, Marco Impagliazzo, de Khalid Jamal, muçulmano português que esteve na missa com o Papa, uma crónica do padre Tony Neves, e um ensaio do franciscano frei Isidro Lamelas a propósito dos 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o sultão Mlik el Kamil.)
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