Líderes religiosos acusam Trump de usar símbolos sagrados para obter apoios

| 4 Jun 20

Donald Trump. EUA. Racismo.

O Presidente Trump, acompanhado da mulher, junto ao monumento ao Papa João Paulo II, em Washington, dia 2 de Junho de 2020. Foto: Direitos reservados

 

Perante a escalada de protestos contra o racismo e a violência policial nos EUA, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, terá chegado a fechar-se num bunker da Casa Branca, na passada sexta-feira. Já no início desta semana, arriscou o desconfinamento para se dirigir a duas igrejas cristãs: a Igreja Episcopal de Saint John, e a Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, ambas em Washington DC. Na primeira, fez-se fotografar com a Bíblia na mão. Na outra, posou junto ao monumento dedicado ao Papa João Paulo II, que morreu em 2005. Ambos os gestos provocaram indignação entre os líderes religiosos, que acusam Trump de instrumentalizar objetos e lugares sagrados para conquistar votos.

“O Presidente não veio rezar, não lamentou a morte de George Floyd [que foi morto asfixiado por um polícia, na semana passada] ou reconheceu a agonia coletiva das pessoas de cor na nossa nação”, criticou a bispa de Washington, Mariann Budde, que não foi avisada da visita à igreja onde desde o século XIX têm rezado todos os chefes de Estado norte-americanos. “Ele usou a Bíblia e uma igreja da minha diocese como pano de fundo para uma mensagem contrária aos ensinamentos de Jesus”, disse ao Washington Post.

Para poder dirigir-se à igreja em segurança, na segunda-feira, 2 de junho, Trump ordenou às forças policiais que interviessem com disparos de gás lacrimogéneo e expulsassem os manifestantes que participavam num protesto pacífico na praça situada em frente à Casa Branca, por onde teria de passar. Antes de partir, fez ainda um discurso na Casa Branca enfatizando a importância da lei e da ordem, em que ameaçou mobilizar os militares para reprimir aqueles que são já os maiores protestos raciais vistos no país desde a década de 1960.

Não é, pois, de admirar que, quando na tarde do mesmo dia Trump visitou o Santuário Nacional da Imaculada Conceição, a reação do arcebispo católico de Washington, Wilton Gregory, não tenha sido a melhor: “É desconcertante e reprovável que qualquer instituição católica aceite ser manipulada e que dela seja feito mau uso para violar os nossos princípios religiosos”, escreveu num comunicado.

O bispo assinalou ainda que “o Papa São João Paulo II foi um fervoroso defensor dos direitos e da dignidade dos seres humanos (…) e certamente não aprovaria o uso de gás lacrimogéneo e de outros instrumentos destinados a silenciar, dispersar ou ameaçar as pessoas, somente para ter a oportunidade de uma fotografia diante de um local de oração e de paz”.

Também o cardeal Joseph W. Tobin, arcebispo de Newark, publicou esta quarta-feira uma nota alertando para o perigo que representam as atitudes de Donald Trump, sem no entanto se referir especificamente ao Presidente: “A violência retórica, o egoísmo e até a apropriação grosseira de símbolos religiosos conspiram para criar um miasma malévolo no qual o pecado do racismo pode florescer sem que se dê conta dele”, afirma.

Já os bispos das sete dioceses anglicanas de New England emitiram um comunicado conjunto em resposta à foto que Trump tirou com a Bíblia na mão, classificando a atitude do Presidente como “cínica” e “moralmente repugnante”. “Ostentar a Bíblia, que ele não citou, usar como mero pano de fundo uma igreja episcopal, onde ele não rezou, e – mais ainda – ordenar aos agentes da lei que abram caminho, com recurso à força e a gás lacrimogéneo, num local onde manifestantes estavam pacificamente reunidos, isto é distorcer, para os seus próprios propósitos, os símbolos da nossa fé, alimentando ainda mais a violência”, criticaram os bispos episcopalianos (anglicanos).

Para os responsáveis por mais de 140 comunidades no país, “a tática do Presidente Trump foi óbvia”: tentar passar a mensagem de que conta com o apoio dos cristãos, e em particular dos protestantes e evangélicos. “O que é mais perturbador, ele parecia estar a usar a autoridade do Deus e salvador que nós adoramos e servimos, para sustentar a sua própria autoridade e o uso da força militar, numa tentativa pervertida de restaurar a paz na nossa nação”, pode ler-se no comunicado dos bispos. Estes concluem garantindo que, independentemente da ideologia política de cada um, “como líderes cristãos chamados a proclamar um Deus de amor”, consideram “as ações dele [Trump] repugnantes”.

 

“Nada se ganha com violência”, diz Papa

Esta quarta-feira, dia 3, ao saudar os fiéis de língua inglesa na habitual audiência, o Papa Francisco disse estar unido à igreja de São Paulo, em Minneapolis, e a todos os cidadãos dos Estados Unidos, “em oração pelo repouso da alma de George Floyd e de todos os outros que perderam a vida por causa do pecado do racismo”.

“Não podemos tolerar nem fechar os olhos a qualquer tipo de racismo ou exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana”, sublinhou o Papa. “Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a violência das últimas noites é autodestrutiva e derrotista. Nada se ganha com violência e muito se perde”, assinalou.

Francisco convidou ainda os fiéis a rezar pelas famílias, amigos em luto e “pela reconciliação nacional e pela paz”, invocando a intercessão de Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe da América, “por todos aqueles que trabalham pela paz e justiça na vossa terra e no mundo”.

 

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