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Imã abraça um manifestante em Liverpool. Foto LNP

Depois do ataque que matou três crianças

Líderes religiosos condenam onda de violência contra migrantes no Reino Unido

| 06/08/2024

Imã abraça um manifestante em Liverpool. Foto LNP

Imã abraça um manifestante junto à mesquita mais antiga de Liverpool. Os protestos têm-se multiplicado em diferentes cidades, enquanto os líderes religiosos pedem paz. Foto ©  LNP

Bispos católicos e evangélicos, imãs e rabinos do Reino Unido estão a rezar pela paz e a apelar à calma, perante os tumultos desencadeados após falsos rumores espalhados nas redes sociais de que o autor do esfaqueamento de três crianças na semana passada seria um requerente de asilo, de origem muçulmana, que teria atravessado o Canal da Mancha de barco. A onda de violência incluiu manifestações anti-imigração em inúmeras cidades de Inglaterra e da Irlanda do Norte, com um hotel que acolhe migrantes a ser incendiado e mesquitas vandalizadas.

“Condeno a violência terrível da última semana, especialmente a direcionada aos migrantes e aos seus locais de residência”, afirmou o bispo auxiliar de Westminster, Paul McAleenan, numa  declaração divulgada esta segunda-feira, 5 de agosto. “Hoje, e sempre, precisamos de continuar a orar, trabalhar e unir-nos pela paz no nosso país. As ações dos poucos envolvidos na violência contrastam fortemente com o trabalho de instituições de caridade, grupos religiosos e voluntários que estendem incansavelmente a mão de boas-vindas aos migrantes em atos de solidariedade. Esperamos e rezamos para que eles redobrem os seus esforços para que possamos reconstruir comunidades após os terríveis eventos dos últimos dias”, pode ler-se.

“As minhas orações estão particularmente com aqueles que foram acolhidos em hotéis ou se sentem ameaçados. Vocês são amados e bem-vindos aqui. Todos nós devemos fazer o que pudermos para garantir que se sintam seguros. As minhas orações estão também com os serviços de emergência, que continuam a trabalhar abnegadamente, apesar dos riscos. Obrigado por tudo o que vocês fazem ao serviço do bem comum”, escreveu ainda o bispo católico.

Também Justin Welby, primaz da Igreja de Inglaterra, condenou a “violência criminosa” que envolveu ataques a mesquitas, agressões à polícia e saques a lojas. Entrevistado durante o programa Today da BBC Radio 4, o arcebispo de Cantuária afirmou esta terça-feira: “Este não é o Reino Unido. Não é britânico. Não é inglês. Eles [os manifestantes] profanam a bandeira em que se envolvem”.

Sem se referir especificamente aos elementos de partidos de extrema-direita que têm promovido algumas das manifestações, Welby falou da “manipulação” que aconteceu através das redes sociais e “por pessoas no estrangeiro”, e à qual, segundo o líder religioso, é preciso “resistir fortemente”. As pessoas estão a ser usadas de forma “ridícula, terrível e imoral”.

Questionado sobre que motivos podem estar na origem dos protestos, o arcebispo de Cantuária referiu que “há muitas razões”, nomeadamente a “privação significativa” em algumas regiões, mas acrescentando que isso “não justifica de forma alguma esta violência”.

“Precisamos de reavaliar como os benefícios da nossa economia são partilhados entre todos os necessitados, e todos no país precisam de ganhar por este ser um dos sete países mais ricos do planeta”, sublinhou.

E esclareceu: “Não estou a dizer que ser marginalizado, o que acontece com muitas pessoas em áreas históricas de alto desemprego, justifica a violência – muito pelo contrário. Justifica protestos pacíficos, e isso fará com que as pessoas ouçam”.

Juntamente com outros líderes religiosos britânicos –  um rabino, dois imãs e um cardeal católico – Justin Welby escreveu uma carta aberta, publicada no The Times, a propósito da situação que o país está a viver: “Senhor, nos últimos dias, assistimos com horror a uma pequena minoria levar ódio, violência e vandalismo a cidades e vilas por todo o país. Vimos ódio antimuçulmano e ataques a mesquitas; requerentes de asilo e refugiados atacados; violência direcionada à polícia e à propriedade privada, tudo isso é uma mancha na nossa consciência moral nacional”.

Recordado que “todo o cidadão britânico tem o direito de ser respeitado e a responsabilidade de respeitar os outros”, a missiva saúda “as muitas pessoas que se apresentaram para reparar danos e restaurar os seus bairros”. E deixa um compromisso: “Prometemos trabalhar com o governo e todos os setores da sociedade em direção a um diálogo construtivo e compassivo sobre imigração e coesão social”.

 

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