O arremesso de um engenho incendiário improvisado contra algumas das famílias que integravam o final da Marcha pela Vida, no passado sábado, 21, em frente à Assembleia da República, em Lisboa, gerou preocupação entre líderes religiosos e civis, que repudiam o uso da violência, independentemente das possíveis divergências ideológicas.
A Federação Portuguesa pela Vida (FPV), organizadora da iniciativa que decorreu em simultâneo em 12 cidades portuguesas, emitiu esta segunda-feira um comunicado onde relata que um grupo de indivíduos se aproximou do palco com uma caixa, de onde foi retirado e arremessado o dispositivo. “Não tivesse a ignição falhado e estaríamos hoje a falar da morte de crianças e bebés”, alerta a FPV.
A Federação revela que o combustível do engenho chegou a ensopar váalrias pessoas presentes no local, incluindo dois bebés. A direção da FPV considera que se tratou de um ataque com motivações políticas e exige que “caso se venha a provar a ligação entre os atacantes e alguma organização política, esta seja declarada organização terrorista, tal como previsto na Lei de Combate ao Terrorismo”.
A organização anuncia ainda que solicitará audiências urgentes com o Ministro da Administração Interna e com a Procuradoria-Geral da República.
PSP não confirma ligação a organização política
Numa nota à imprensa, a Polícia de Segurança Pública (PSP) confirmou a detenção em flagrante de um homem de 39 anos pelo arremesso do engenho. Além do detido, foram identificadas outras três pessoas suspeitas de cumplicidade.
Contactada esta segunda-feira pelo 7MARGENS, a PSP disse no entanto não estar em condições de confirmar a existência de uma ligação entre o detido e os suspeitos com qualquer organização política.
O Ministério da Administração Interna (MAI) classificou o ato como um exemplo de “extremismo violento”, garantindo que a PSP e a Polícia Judiciária estão a colaborar para apurar todas as responsabilidades criminais.
“A violência nunca é caminho”, diz Patriarca

Os participantes da Marcha pela Vida a caminho da Assembleia da República. Foto © FPV
Do lado da Igreja Católica, o Patriarca de Lisboa, Rui Valério, reagiu com “profunda preocupação”, sublinhando o perigo a que foram expostas as famílias presentes. Para o bispo, o atentado é “gravemente inaceitável” num Estado de Direito e atenta contra a liberdade religiosa e de expressão.
“A violência nunca é caminho. Não constrói, não dignifica, não serve a verdade”, afirma o Patriarca, manifestando a sua solidariedade para com todos os que sofreram o trauma do ataque, e apelando a que a sociedade portuguesa rejeite o ódio e mantenha o compromisso com a paz e o respeito mútuo, independentemente das divergências ideológicas.
Também a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) reforçou a condenação, baseando a sua posição na sacralidade da vida humana. Para a AEP, o incidente é o reflexo de uma “sociedade polarizada” onde o respeito pela divergência está a desaparecer.
Num comunicado divulgado através das redes sociais, a instituição que representa cerca de 700 igrejas e comunidades locais evangélicas em Portugal, lamenta o facto de o ataque ter ocorrido num momento em que milhares de cidadãos se manifestavam em defesa dos mais frágeis — grávidas, idosos e crianças. “Cremos que a vida humana é um dom sagrado, criado à imagem de Deus”, refere a instituição.
A AEP sublinha ainda o alívio pelo facto de o rastilho se ter apagado, evitando uma tragédia de grandes proporções, mas repudiou veementemente qualquer tentativa de usar a força para calar convicções.










