
Há padres “que não leram nada, a não ser obras fundamentais da teologia”, diz Lídia Jorge. Foto © Nazim Coskun/Unsplash
A escritora Lídia Jorge considera que entre vários padres subsiste uma ignorância em relação a criações elementares da arte e da cultura, que é preciso corrigir para aproximar a Igreja de mais pessoas. Ao mesmo tempo, diz que muitas homilias sobre o mesmo texto bíblico se repetem ao longo de décadas, indiferentes às mudanças no mundo.
“Pede-se à Igreja que os seus sacerdotes sejam cultos” e “tenham acesso a obras literárias, instrução do ponto de vista de gosto pela música, pelo teatro, pelas várias expressões da cultura”, afirmou a escritora durante o 14.º Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura, que decorreu através de meios digitais, nesta quarta-feira, 28.
No encontro organizado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, a autora de O Dia dos Prodígios sublinhou que o desenvolvimento da sensibilidade para a cultura deve ser acompanhada pela “capacidade de dialogar com as pessoas”.
“Muitas vezes” fala-se com padres “que não leram nada, a não ser obras fundamentais da teologia”, mas “são incapazes de perceber o que a obra de James Joyce, ou outra, lhes pode dar”, referiu.
Como exemplo da “espécie de aversão” que em alguns meios clericais existe em relação à cultura, contou às cerca de duas dezenas de participantes um encontro, “estranho”, com um padre, que lhe declarou: “Quando os sacerdotes começam a falar de poesia, temos tudo estragado (…) [porque] se entra num caminho que não se consegue dominar.”
Ao lembrar a obra Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa, com seleção de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (ed. Assírio & Alvim), a escritora sustentou que há “poemas que podem perfeitamente circular pela Igreja, pelos crentes, e fazer parte das celebrações”.
“É importante perceber que há toda uma cultura que está a passar debaixo dos nossos olhos”, afirmou, antes de lamentar a existência de homilias que, “ano após ano”, são proferidas “como se não corresse o tempo, como se de ano para ano não houvesse alterações”.
Para Lídia Jorge, cujo último livro reúne crónicas suas com o título Em Todos os Sentidos, “as pessoas têm medo de falar do que vem nos jornais, medo de criar a sua própria narrativa; mas isso aprende-se. Devia haver um aprendizado da narrativa”.
“A homilia é um momento importantíssimo” que “tem de ser aproveitado com a maior amplitude possível, com dados culturais vários; se isso não acontece, as pessoas vão à missa como foram há dez anos ou como irão daqui a dez anos, sem a noção de que o mundo se transforma”, assinalou.
Neste sentido, a escritora defendeu que o texto canónico proclamado nas celebrações deve ser “acrescentado com a narrativa do nosso tempo, que tenha a capacidade de chegar às pessoas através de novas parábolas sobre a parábola”.
Depois de evocar um padre que, nas pregações, contava não só “histórias da Bíblia”, mas também “histórias da vida”, a escritora observou que se mais sacerdotes aproximassem o Evangelho dos acontecimentos do dia a dia, “as pessoas sentiriam a Igreja muito mais próxima”.
“Há uma espécie de assepsia, que a palavra dita e narrada não pode tocar neste mundo, há um tabique muito forte”, observou, ao responder à pergunta sobre como os católicos podem estar mais presentes no mundo da cultura.
A Igreja tem lançado “uma espécie de cortina perante os vários espaços culturais, não os faz seus, não os interioriza, pode assistir a uma ou outra coisa, ser amiga de uma ou outra pessoa, mas não os transforma naquilo que é a sua pregação”, acrescentou a escritora.










