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António Osório

António Osório (1933-2021)

“Limpamente diante de Deus”

António Osório

Foto (António Osório): retirada do vídeo “De viva voz. Poetas, actores e outros convidados dizem poesia sua e de outros.” Instituto Camões, comemoração do Dia Mundial da Poesia , 21 de março 2009. Poemas de António Osório, Espetáculo Centro Cultural de Belém, 22 março 2009.

 

Realiza-se esta segunda-feira o funeral de António Osório, um dos grandes poetas contemporâneos, que morreu na quinta-feira aos 88 anos. Obras como, por exemplo, A Raiz Afectuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981) ou Décima Aurora (1982) são referências incontornáveis da história da poesia portuguesa actual.

Obteve uma mais ampla notoriedade por ter sido bastonário da Ordem dos Advogados e sobre a circunstância de os poetas serem insuficientemente conhecidos pronunciou-se em 2010, numa mensagem para o Dia Mundial da Poesia. Observou então que são os livros “dos ‘ases’ do futebol e da televisão” aqueles “que colhem fortunas”. Para António Osório, “em contrapartida, as edições de poesia sofrem acentuada diminuição das tiragens. Os jovens universitários lêem cada vez menos, trocando a poesia, quando a trocam, pela ‘prosa’ multimilionária”.

“A poesia é ainda possível?”, interrogava-se nessa altura. Na resposta, impunha à poesia que não se confinasse “a uma ironia sarcástica contra um mundo cruel”, mas fosse “um ‘refúgio’ contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem”. Os valores da poesia, explicava António Osório, são os valores da vida. A poesia, acrescentava ele, citando Benedetto Croce, é “a ‘palavra cósmica’, uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista”.

Na mensagem de há cerca de uma década, o poeta recordava o que Rainer Maria Rilke escreveu nas Cartas a Um Jovem Poeta: “ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue”. Para António Osório, “teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera. Contra o desprezo pela poesia, oponhamos a nossa perseverante defesa. E ofereçamos os nossos livros, com um gesto fraterno”.

De António Osório, fica-nos agora A Luz Fraterna, para usar o título da obra que reúne a poesia de entre 1965 e 2009, ou, se se preferir, “O pão das palavras”, título do texto incluído em Crónica da Fortuna:

“Fortuna dos cegos, dos órfãos, dos loucos, dos drogados.

Fortuna de quem sofre no circo pelos acrobatas, pela perseverança dos palhaços, pela apoteose final, a que ninguém se furta, nem mesmo os trapezistas, ciosos de aplausos como de festas de cães.

‘Má fortuna’ confessada a de Camões, prova terrível contra o destino. (A miséria dos homens não é o destino, mas a sua imperfeição.)

Fortuna dos que não morrem em vida. Dos que passam por dentro e pelo fundo da sua tristeza, e vão além. Dos que se contentam com o súbito pão das palavras. Dos que não causam dano nem semeiam culpa. Dos que poderiam apresentar-se limpamente diante de Deus.”

 

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