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Pormenor de ilustração para a capa do primeiro volume da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com
Pormenor de ilustração para a capa do primeiro volume da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

A trilogia de Filipe Seems

Lisboa, uma cidade sonhada e misteriosa com gôndolas

| 19/10/2025

 

Há 30 anos, Lisboa ainda respirava: a cidade vivia o sobressalto dos dinheiros que chegavam a jorro da Europa, a Praça do Comércio deixava de ser o parque de estacionamento a céu aberto, vivia-se a ressaca da Capital Europeia da Cultura, o estertor do cavaquismo, a alma lisboeta não se tinha entregue por completo ao diabo de nómadas digitais, cruzeiros e tuk-tuks. Havia turistas, neonazis a matarem um jovem português de origem cabo-verdiana e o Chiado ainda se subia por um passadiço para transpor os escombros do incêndio de 1988.

É neste caldo que nasce Ana (1994), o primeiro álbum da trilogia de aventuras de Filipe Seems, personagem nascido da pena de Nuno Artur Silva e do lápis de António Jorge Gonçalves, que “sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse… uma cidade onde imaginasse os lugares e os habitantes, com as suas histórias, o enredo do acaso e do destino dos seus encontros, uma cidade e a sua mitologia”.

Esta cidade sonhada tem gôndolas que navegam no imenso lago da Praça do Comércio, sobem pelo canal da Rua Augusta e desaguam num Rossio aquático. Na Lisboa destas páginas, há um cinema drive-in junto à Torre de Belém, elétricos voadores a subir as colinas (e estávamos longe de nos assustarmos com a realidade trágica do Elevador da Glória), um comboio tubular na ponte, um rio sob o aqueduto, ou uma Basílica da Estrela transformada em templo da moda. Nesta cidade imaginada, o velho e o futurista coexistem num delírio de imaginação e criatividade que damos por nós a gostar que esta cidade venha a existir.

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

Esta trilogia – que se completou com A História do Tesouro Perdido (1994) e, quase dez anos depois, com A Tribo dos Sonhos Cruzados (2003) – foi de novo editada numa edição comemorativa dos 30 anos da edição do primeiro volume. “Estes livros”, descreveu António Jorge, “foram o início (longínquo) de um caminho” e que agora têm uma nova vida.

“Os originais foram digitalizados de novo com tecnologia recente (permitindo melhor reprodução das cores), o texto foi revisto, novas capas e material inédito foi criado e algumas páginas tiveram de ser redesenhadas porque os originais tinham desaparecido: fui falsário de mim próprio, a redescobrir técnicas de desenho e pintura que deixei de usar há décadas. Por fim, a escolha do papel e o formato generoso deixam-nos mais próximos dos desenhos originais”, contou o autor, no seu site (de onde se reproduzem as imagens deste texto).

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

Esta edição cuidada e lindíssima dos três volumes é um ótimo pretexto para revisitar a Lisboa do detetive “muito particular” Filipe Seems, e escritor de bandas desenhadas nas horas em que não investiga um mistério sobre duas gémeas.

Este ponto de partida leva Seems a perder-se numa “Lisboa que parece existir na Lisboa que talvez não exista”, como depois o faz seguir o rasto de um tesouro perdido, que um canal de televisão também cobiça, antes de se perturbar por sonhos enigmáticos, num tempo em que as redes de conteúdos globais.

As aventuras aqui desenhadas vivem de uma ideia tão original, quanto de um argumento lucidamente tecido por Nuno Artur Silva e de um traço característico e sempre surpreendente e arrebatador de António Jorge Gonçalves, que a cada volume adequa o desenho aos ambientes exigidos pelo texto. Estas aventuras de Filipe Seems têm 30 anos, mas vêm a tempo deste tempo – é uma obra-prima. Para continuar a sonhar com uma outra cidade.

Os livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

As capas da nova edição dos livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

Trilogia Filipe Seems
Livro 1: Ana
Livro 2: A História do Tesouro Perdido
Livro 3: A Tribo dos Sonhos Cruzados
António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva
Asa, 2024, 64 páginas cada volume, 22,90€ cada volume.

 

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