Listen: um filme para ser escutado nas entranhas

| 5 Dez 20

Podemos entrar neste filme pela lente partida da máquina fotográfica a fingir de Lu, a filha surda-muda daquela família. Uma lente que faz lembrar as teias onde as aranhas apanham, prendem e comem outros insectos. É disso que se trata neste filme: o Estado, no seu suposto zelo de cuidar das crianças melhor do que a família, cegamente e violentamente, vigia, julga e retira os filhos aos pais.

O filme é realizado com magnífica mestria pela portuguesa Ana Rocha de Sousa – é mesmo a sua primeira longa-metragem – mas passa-se em Inglaterra. Esta referência é importante precisamente porque o Estado inglês, através dos seus Serviços Sociais é ‘conhecido’ pela sua implacabilidade nestas situações. De tal modo que, mesmo sendo evidente o engano, não volta atrás. O processo segue na sua crueldade e injustiça.

Diante de nós, vemos uma família de emigrantes portugueses, pai e mãe, com três filhos, um ainda bebé, um rapaz já adolescente e a menina surda-muda que acaba por ser, na sua mudez, o grito que denuncia a teia kafkiana que percorre todo o filme. Uma família a passar grandes dificuldades económicas, apesar de a mãe ir trabalhando, mas sobretudo porque o pai deve ter sido despedido e não lhe pagaram o que deviam. Essa sua condição que os obrigara a pedir ajuda para comprar o aparelho auditivo acaba por levar a que esta família seja sinalizada pela Segurança Social. E quando aparecem umas manchas/marcas no corpo de Lu tudo se precipita e os filhos são mesmo retirados.

E no entanto, aquela era uma família bonita, os pais eram cuidadosos e ternos, os irmãos cuidavam uns dos outros. Só que isso não era visto – nem perguntado ou acreditado – pelos burocratas sociais. Só nós, espectadores, sabemos isso. Daí que o filme faça crescer em nós uma revolta contra um Estado assim totalitário e uma empatia – ainda que impotente – para com aquela família literalmente devorada pela teia. Não é que os funcionários dos Serviços Sociais sejam más pessoas – há mesmo uma delas que tem um papel decisivo para que o final não seja uma derrota completa. Eles apenas cumprem zelosamente as regras estabelecidas, ainda que desumanas.

Mas a revolta não é só nossa. Há uma antiga funcionária que conhece bem os meandros do sistema e agora dedica a sua vida a ajudar famílias nesta situação. É ela, juntamente com a sua organização clandestina, que vai ajudar estes pais – mesmo com alguns métodos ‘ilegais’ – a recuperar os seus dois filhos mais velhos. Quando finalmente conseguem ‘fugir’ para Portugal, o bebé já tinha sido entregue para adopção a outra família. Como será para uma mãe e um pai e uns irmãos ter de deixar para trás um filho e um irmão? Haverá coisa mais desumana? E esta, infelizmente, não é uma questão retórica. A própria realizadora, nalgumas palavras citadas na revista E/Expresso, de 24 de Outubro, diz: “O que posso dizer é que estou a tocar num assunto em que a realidade ultrapassa em muito a ficção que escrevi, se lhe fosse absolutamente fiel teria feito um filme muito mais agressivo, para lá dos limites que me impus.”

Nascido a partir de uma notícia de jornal que contava como uma mãe portuguesa a quem os Serviços Sociais britânicos retiraram um bebé de dias, Listen é um filme comovente, exemplarmente sóbrio, inteligente e que nos deixa perguntas muito pertinentes. Sim, é verdade, em Inglaterra como em Portugal, mas também noutros países, há famílias problemáticas e mesmo incapazes de cuidar bem dos seus filhos. Mas em nome de uma lei e da rigidez com que é interpretada não faltam situações como a que é contada no filme. Seria possível, seguramente, em muitos casos um maior e melhor apoio à família, o que lhe permitiria continuar a ser e crescer como família. Mas o Estado “nem sempre é de confiança”. Vezes há em que “atenta contra o direito de as famílias existirem e poderem sobreviver mesmo em dificuldades extremas”. (António Roma Torres)

Falta apenas acrescentar – para além do convite a escutar o filme – que os actores (Lúcia Moniz, Ruben Garcia, Maisie Sly…) são muito convincentes e eficazes, e que a realizadora se insere felizmente na escola inglesa de Ken Loach ou Mike Leigh (de quem foi aluna).

Filme perturbante, de combate, universal.

 

Listen, de Ana Rocha de Sousa
Com Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia, Kiran Sonia Sawar, António Capelo.
Género: Drama; GB/POR, 2020, Cores, 73 min.

Texto publicado no número de Dezembro da revista Mensageiro de Santo António

 

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