Livrai-nos do Astérix, Senhor!

| 22 Set 21

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada.

Mural Astérix, Bruxelas

“Ficamos assim a saber que Astérix, Obelix, Tintin e tutti quanti são perigosos racistas infiltrados na cultura ocidental e opressores dos índios do Canadá…” Gravura: Mural Astérix, Bruxelas Foto © Ferran Cornellà / Wikimedia Commons

 

Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas. Só não levaram avante a ideia inicial de os queimar todos por receio de reacções dos pais, professores e crianças. Mas, pasmem ó gentes, é que entre os livros seleccionados para a fogueira pelos Torquemadas pós-modernos vamos encontrar biografias de exploradores, romances, enciclopédias, banda desenhada e livros de aventuras de Astérix, Tintin e Lucky Luke.

A cerimónia de “limpeza” aconteceu nas bibliotecas do Providence Catholic School Board, um agrupamento de trinta escolas primárias e secundárias de língua francesa no Ontário, que integram cerca de dez mil alunos. Segundo os seus promotores pretendia-se reconciliar os canadianos com as primeiras nações ou tribos índias através da proibição destas obras para fins educativos. Esta iluminada “acção pedagógica” realizada em 2019 passou ainda pela recolha das cinzas e sua aplicação como fertilizante na plantação duma árvore… A ideia, explicada em vídeo, seria a de enterrar “as cinzas do racismo, da discriminação e dos estereótipos de modo a construir um país inclusivo, onde todos possam viver com prosperidade e segurança”. Ficamos assim a saber que Astérix, Obelix, Tintin e tutti quanti são perigosos racistas infiltrados na cultura ocidental e opressores dos índios do Canadá…

Alguns destes livros “malditos” foram para o novo index porque alguém não gostou da imagem da capa, como é o caso da biografia do explorador Étienne Brûlé, Le Fils des Hurons. O uso da palavra índio ou pele vermelha também foi motivo de retirada de muitos livros ou a representação de guerreiros em tronco nu. Um outro livro está a ser avaliado porque usa o termo ameríndio. O livro A Conquista do Oeste: Nativos Americanos, Colonizadores e Colonos foi retirado por causa da palavra “conquista” no título. O romance infantil The Indian College Affair, de Sylvie Brien, foi retirado sem qualquer justificação. Trata-se de uma estória passada em 1920 com personagens e lugares fictícios, em que uma adolescente defende um aborígene acusado injustamente de provocar um incêndio. Para cúmulo, uma destas obras foi finalista do Prémio Tamarac, da Ontario Library Association em 2011 e agora o autor foi banido.

Aliás, os autores dessas obras não foram informados e estão estupefactos. A fúria totalitária não poupou sequer os autores indígenas – talvez considerados menos ortodoxos – e não reconhece a um não nativo a legitimidade para investigar e escrever sobre os nativos, o que configura uma grave negação da actividade científica.

Esta purga literária parece querer esconder sob a capa das boas intenções a lista dos livros proibidos que vigorava nas escolas católicas até a década de 1960. Ou pior, talvez tente redimir-se do incómodo assunto dos internatos religiosos onde inúmeros jovens indígenas foram abusivamente arrancados às famílias e educados longe das suas tradições.

Segundo Ariane Régnier, bibliotecária escolar e presidente da Associação para a Promoção de Serviços de Documentário Escolar, “é saudável ter todos os tipos de livros no ambiente [escolar], até livros que podem causar desconforto.” Esta gente não entende que a linguagem dum livro de aventuras é diferente de uma obra histórica? A pulsão censória é indiferente ao facto de que a banda desenhada existe para entreter e não para dar um curso teórico? Não entendem que uma caricatura em banda desenhada é diferente duma imagem publicada numa enciclopédia? Nem conseguem ouvir as dúvidas da antropóloga indígena Nicole O’Bomsawin: e se agora todos os grupos sociais começarem a exigir que se corte o que não gostam?

A moda hoje é retirar estátuas – a bem ou à força –, destruir obras de arte e produtos culturais ou tirá-los do espaço público, em nome da protecção das minorias e da educação do povo. O nazismo ou os talibãs não fariam melhor. É bom nunca esquecermos que em matéria de fogueiras, primeiro são lançados para lá os livros, depois as pessoas.

Como reagiriam os dirigentes desses colégios católicos, e todos os cristãos, se um dia os gregos em geral e os nativos da ilha de Creta em particular quiserem queimar a Bíblia por se sentirem ofendidos pela forma como o apóstolo Paulo os descreveu na sua epístola a Tito: “Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (1:12)?

Olhar a História com os olhos do homem do séc. XXI é uma asneira pegada mas recorrente.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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