
As mulheres “são as primeiras testemunhas, já o sabemos e é também a ela que Jesus confia o anúncio da Sua ressurreição”. Foto © Ricardo Perna
“…estas mulheres fizeram nascer a nossa fé…”
“… a alegria de crer, apesar do medo…”
“livres, porque não sufocaram a sua alegria”
“a fé que nos vem destas mulheres livres…”
Cito e traduzo muito livremente algumas expressões da homilia da última Vigília Pascal que me ficaram na memória.
Mulheres livres. É fácil imaginá-las saindo urgentemente cedo de casa no primeiro dia da semana, passada a comoção da festa da Páscoa, prontíssimas, levando os perfumes e os unguentos para embalsamar o corpo de Jesus, como nos dizem Lucas e Marcos. Ou indo apenas visitar o sepulcro, como nos diz Mateus. Tudo nelas é prontidão. Falariam do que se passara apenas dois dias antes, ainda em choque, e libertando a fúria e a decepção com a fuga e cobardia dos discípulos? Ou remoendo-a entredentes sem ponta de surpresa? Recordariam juntas as histórias do que haviam vivido com Jesus naqueles três anos? Iam, isso sei, num passo certo, ritmado e rápido, que não se distraiu com o acordar da cidade. Talvez tenham ido em silêncio, para não perder tempo de caminho, cada uma fechada no seu luto e na sua dor, ou na esperança inconfessável de que, talvez, afinal… Seja como for, vão.
Vão, e são as primeiras testemunhas, já o sabemos. É também a estas mulheres que Jesus confia o anúncio da Sua ressurreição, e a quem confia igualmente as indicações que os onze devem receber, que devem regressar à Galileia. E elas, mesmo sem perceber inteiramente ou até não percebendo de todo, acreditam e fazem o que Jesus lhes diz, sem hesitações. As primeiras a sair do torpor, as primeiras a testemunhar, as primeiras a anunciar, as que abrem o caminho… E quê?
Sim, e quê? (ler sílaba a sílaba, muito lentamente)
É um bom mote para reflectir sobre o lugar das mulheres na Igreja de hoje ou, melhor, sobre os lugares que vamos habitando na Igreja de hoje. “O lugar de” tem o seu quê de copo num aparador empoeirado, de lugar marcado, um quê de atribuído, burocrático, e de postiço. É estático quando os Evangelhos estão carregados de gente em movimento, a começar por Jesus que não pára quieto. Aliás, avisa logo que não tem um lugar onde repousar a cabeça.
Proponho-me mais a decantar do que a reflectir, talvez. Um exercício de decantação interior da mistura de ideias, preconceitos, emoções, memórias, e experiências que estas palavras e perguntas agitam. Permitir que assentem à velocidade certa e, tanto quanto me lembro das aulas de laboratório, a decantação é um processo lento, apressar só estraga.
Um lado meu escreve a partir de uma insatisfação latente cuja origem não consigo identificar. É inevitável, num primeiro momento, receber os relatos da Ressurreição sem perguntar o que aconteceu desde aquela primeira manhã da semana para que a des-sintonia entre o que literalmente nos dizem os Evangelhos e o limbo inexplicável em que as mulheres pairam hoje na Igreja instituição e nas Igrejas comunidades seja, hoje, tão grande. O primeiro impulso é correr e resgatar esse lugar original de primeiras testemunhas, não vá o Evangelho tornar-se mais letra morta do que já é. Como se algo nos tivesse sido roubado ou nos tivessem despojado do nosso pequeno tesouro. Não foi, nem fomos[1].
Aconteceu o mundo tal como o conhecemos hoje, e uma Igreja que se tornou em algo que nenhum dos Evangelistas (ou mesmo Jesus) sonhava que pudesse sequer existir. Foi isso que aconteceu. E, reformulada, a pergunta é pertinente: seremos nós descendentes desta liberdade interior, consciente e audaz? Essa é a pergunta que interessa.
O que me insatisfaz vai sedimentando, é isso que se quer. Não é transcendente, nem pede discussões apaixonadas sobre nomeações de mulheres na Santa Sé ou sobre o poder que devem ter na estrutura eclesial[2].
É evidente que as mulheres assumem, desde há muito tempo, responsabilidades essenciais para que as comunidades a que pertencem se mantenham vivas e dinâmicas. Responsáveis de catequese, obras sociais, e movimentos de leigos, chefes de escuteiros, responsáveis de coros… Aliás, sempre me habituei a ver mulheres na linha da frente das paróquias e movimentos por onde passei, algumas delas verdadeiras líderes nas suas comunidades, outras, visionárias espirituais que vêem a décadas de distância. Até aqui, tudo tranquilo. E já as ouvi serem muito elogiadas, é verdade.
Mas o que louvamos nestas mulheres?
Quais os dons que nelas apreciamos?
O que esperamos delas?
Por agora, a cabeça enche-se e atordoa-se até à exaustão com os elogios que li e ouvi durante anos e anos em casamentos, funerais, conferências e conversas de todos os dias e que despertam estas perguntas. A decantação é mesmo um processo lento, pelo que me permito fazer uma pausa e devolver as perguntas. Não posso fazer o trabalho todo sozinha.
Espero que a pausa seja breve: “Não percam o próximo episódio, porque nós também não.”
Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.
[1] Preciso de expurgar os resquícios de pós-modernismo dos anos que passei a lidar com o queixume profissional que invadiu o discurso dos direitos humanos e que nos faz ver o mundo pelo prisma distorcido segundo o qual uma entidade abstracta tem de garantir o meu conforto emocional, para que eu possa desresponsabilizar-me em absoluto do que decido fazer com a minha vida.
[2] O protagonismo de temas como a ordenação das mulheres ou a nomeação para cargos de direcção – absolutamente fulcrais – será essencialmente um reflexo do nosso conceito de “valor”, muito ligado ao poder, à hierarquia e à projecção exterior, e consequência de uma visão demasiado clerical e demasiado “moderna” do que a Igreja é ou deve ser.









