Livres e ressuscitadas (I)

| 18 Jun 2023

As mulheres “são as primeiras testemunhas, já o sabemos e é também a ela que Jesus confia o anúncio da Sua ressurreição”. Foto © Ricardo Perna

 

“…estas mulheres fizeram nascer a nossa fé…”

… a alegria de crer, apesar do medo…” 

“livres, porque não sufocaram a sua alegria”

“a fé que nos vem destas mulheres livres…”

 

Cito e traduzo muito livremente algumas expressões da homilia da última Vigília Pascal que me ficaram na memória.

Mulheres livres. É fácil imaginá-las saindo urgentemente cedo de casa no primeiro dia da semana, passada a comoção da festa da Páscoa, prontíssimas, levando os perfumes e os unguentos para embalsamar o corpo de Jesus, como nos dizem Lucas e Marcos. Ou indo apenas visitar o sepulcro, como nos diz Mateus. Tudo nelas é prontidão. Falariam do que se passara apenas dois dias antes, ainda em choque, e libertando a fúria e a decepção com a fuga e cobardia dos discípulos? Ou remoendo-a entredentes sem ponta de surpresa? Recordariam juntas as histórias do que haviam vivido com Jesus naqueles três anos? Iam, isso sei, num passo certo, ritmado e rápido, que não se distraiu com o acordar da cidade. Talvez tenham ido em silêncio, para não perder tempo de caminho, cada uma fechada no seu luto e na sua dor, ou na esperança inconfessável de que, talvez, afinal…  Seja como for, vão.

Vão, e são as primeiras testemunhas, já o sabemos. É também a estas mulheres que Jesus confia o anúncio da Sua ressurreição, e a quem confia igualmente as indicações que os onze devem receber, que devem regressar à Galileia. E elas, mesmo sem perceber inteiramente ou até não percebendo de todo, acreditam e fazem o que Jesus lhes diz, sem hesitações.  As primeiras a sair do torpor, as primeiras a testemunhar, as primeiras a anunciar, as que abrem o caminho… E quê?

Sim, e quê? (ler sílaba a sílaba, muito lentamente)

É um bom mote para reflectir sobre o lugar das mulheres na Igreja de hoje ou, melhor, sobre os lugares que vamos habitando na Igreja de hoje. “O lugar de” tem o seu quê de copo num aparador empoeirado, de lugar marcado, um quê de atribuído, burocrático, e de postiço. É estático quando os Evangelhos estão carregados de gente em movimento, a começar por Jesus que não pára quieto. Aliás, avisa logo que não tem um lugar onde repousar a cabeça.

Proponho-me mais a decantar do que a reflectir, talvez. Um exercício de decantação interior da mistura de ideias, preconceitos, emoções, memórias, e experiências que estas palavras e perguntas agitam. Permitir que assentem à velocidade certa e, tanto quanto me lembro das aulas de laboratório, a decantação é um processo lento, apressar só estraga.

Um lado meu escreve a partir de uma insatisfação latente cuja origem não consigo identificar. É inevitável, num primeiro momento, receber os relatos da Ressurreição sem perguntar o que aconteceu desde aquela primeira manhã da semana para que a des-sintonia entre o que literalmente nos dizem os Evangelhos e o limbo inexplicável em que as mulheres pairam hoje na Igreja instituição e nas Igrejas comunidades seja, hoje, tão grande. O primeiro impulso é correr e resgatar esse lugar original de primeiras testemunhas, não vá o Evangelho tornar-se mais letra morta do que já é. Como se algo nos tivesse sido roubado ou nos tivessem despojado do nosso pequeno tesouro. Não foi, nem fomos[1].

Aconteceu o mundo tal como o conhecemos hoje, e uma Igreja que se tornou em algo que nenhum dos Evangelistas (ou mesmo Jesus) sonhava que pudesse sequer existir. Foi isso que aconteceu. E, reformulada, a pergunta é pertinente: seremos nós descendentes desta liberdade interior, consciente e audaz? Essa é a pergunta que interessa.

O que me insatisfaz vai sedimentando, é isso que se quer. Não é transcendente, nem pede discussões apaixonadas sobre nomeações de mulheres na Santa Sé ou sobre o poder que devem ter na estrutura eclesial[2].

É evidente que as mulheres assumem, desde há muito tempo, responsabilidades essenciais para que as comunidades a que pertencem se mantenham vivas e dinâmicas. Responsáveis de catequese, obras sociais, e movimentos de leigos, chefes de escuteiros, responsáveis de coros…  Aliás, sempre me habituei a ver mulheres na linha da frente das paróquias e movimentos por onde passei, algumas delas verdadeiras líderes nas suas comunidades, outras, visionárias espirituais que vêem a décadas de distância. Até aqui, tudo tranquilo. E já as ouvi serem muito elogiadas, é verdade.

Mas o que louvamos nestas mulheres?

Quais os dons que nelas apreciamos?

O que esperamos delas?

Por agora, a cabeça enche-se e atordoa-se até à exaustão com os elogios que li e ouvi durante anos e anos em casamentos, funerais, conferências e conversas de todos os dias e que despertam estas perguntas. A decantação é mesmo um processo lento, pelo que me permito fazer uma pausa e devolver as perguntas. Não posso fazer o trabalho todo sozinha.

Espero que a pausa seja breve: “Não percam o próximo episódio, porque nós também não.

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

[1]  Preciso de expurgar os resquícios de pós-modernismo dos anos que passei a lidar com o queixume profissional que invadiu o discurso dos direitos humanos e que nos faz ver o mundo pelo prisma distorcido segundo o qual uma entidade abstracta tem de garantir o meu conforto emocional, para que eu possa desresponsabilizar-me em absoluto do que decido fazer com a minha vida.

[2] O protagonismo de temas como a ordenação das mulheres ou a nomeação para cargos de direcção – absolutamente fulcrais – será essencialmente um reflexo do nosso conceito de “valor”, muito ligado ao poder, à hierarquia e à projecção exterior, e consequência de uma visão demasiado clerical e demasiado “moderna” do que a Igreja é ou deve ser.

 

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra novidade

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sessões gratuitas

Sol sem Fronteiras vai às escolas para ensinar literacia financeira

Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This