Livro evoca 94 anos de Telmo Ferraz, padre da Obra da Rua que elogiou as tabernas e foi censurado pela PIDE

| 24 Nov 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Últimas

Num texto de apresentação do livro Telmo Ferraz: Uma vida, tantas vidas!, publicado em 2013, Henrique Manuel Pereira começava por recordar uma história pessoal: “Padre Telmo cruza e preenche a minha geografia íntima. De algum modo também a física, desde o dia em que, era eu bebé, no Lombe, a poucos quilómetros da Casa do Gaiato de Malanje [Angola], passei do colo de minha Mãe ao dele, até há escassos dias, quando nos abraçámos no aeroporto, no seu regresso de Angola. Pelo meio houve um hiato. A guerra e a vida separaram-nos, mas nunca ele se apagou das nossas conversas familiares. Em todo o caso, só na adolescência o conheci.

“A pedido de D. António José Rafael [então bispo de Bragança-Miranda], Padre Telmo fez uma pequena palestra aos seminaristas de Bragança. No fim, apresentei-me a ele: Sou de Malanje. ‘De Malanje?’ Do Lombe. ‘Do Lombe? E teus pais quem são?’ Henrique Pereira e Domitília Guiomar. ‘Ó meu sacana, a primeira vez que peguei em ti ao colo mijaste-me todo!’ Assim, tal qual. E foi nesse instante, antes ainda do abraço, que ele me envolveu num sorriso imenso. Talvez o ‘meu’ sorriso do Padre Telmo seja ainda esse, embora composto de tantos outros que ele me foi oferecendo de então para cá. Quem o conhece e o viu sorrir sabe que aquele sorriso se nos cola à alma e anda connosco.”

No Tempo e na Eternidade: Caminhos com Telmo Ferraz, título do livro que esta segunda-feira, 25 de Novembro, será apresentado no Porto (Auditório Carvalho Guerra da Universidade Católica Portuguesa, UCP, 18h30), evoca esta e muitas outras histórias sobre o padre da Obra da Rua, autor de O Lodo e as Estrelas (ed. Editorial da Casa do Gaiato) e de Um Retiro na Montanha (ed. Tenácitas).

Na obra, Henrique Manuel Pereira, professor da Escola das Artes da UCP, recolhe vários textos que publicou sobre Telmo Ferraz, que precisamente nesta segunda-feira completa 94 anos (nasceu em 1925 em Bruçó, concelho de Mogadouro, Bragança, filho de José Manuel Ferraz, sapateiro de profissão, e de Isabel Maria Lucas, doméstica).

 

Um livro proibido pela PIDE

O livro inclui ainda uma entrevista de vida feita em 2012 e uma biografia do homem que começou por apoiar trabalhadores pobres que construíram barragens em Portugal e Angola, muitos deles contraindo silicose, acabando “pai adoptivo” de centenas de crianças órfãs ou abandonadas acolhidas na Casa do Gaiato de Malange (Angola). Aliás, por causa de uma frase escrita no livro (“Obrigado, ó tascas, pelo alívio que dais ao Operário!”) O Lodo e as Estrelas foi proibido em 1960 pela PIDE, a polícia política do fascismo português.

A obra será apresentada por Luís Amaral, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e sobre ela escreve o autor: “O que quer que sobre ele diga ou escreva deixa-me sempre a impressão de ficar no limiar de algo profundo ou muito alto. Este livro celebra a vida e a amizade.”

Por isso Henrique Manuel Pereira já por várias vezes se debruçou sobre a vida e a obra do padre Telmo. Em 2013, realizou o documentário Telmo Ferraz: Mibangas e Frutos – mibangas são os sulcos de terra cavada onde se plantam as sementes. A propósito das obras de Telmo Ferraz (além dos dois livros já referidos, também MourelaConTigo no PlanaltoPelo Caminho das Tipóias e os dois volumes de Mibangas e Frutos), Henrique Manuel Pereira escrevia, na altura da estreia do documentário: “‘Que lugar o de [padre] Américo e Telmo no quadro da Literatura Portuguesa do século XX? Apologética, como dizem alguns? Ou realismo realista e pragmático?’ A pergunta aí fica. Sim, porque este homem, depois de se irmanar com o ‘bando’ que vivia debaixo de pedras cobertas com sacos vazios de cimento, depois de idêntico trabalho na barragem de Cambambe, de construir e assistir uma aldeia de leprosos, fez-se Padre da Rua. Encontrou em Padre Américo o companheiro que comia do mesmo pão.”

No primeiro texto de O Lodo e as Estrelas, intitulado “Tema”, Telmo Ferraz escrevia:

O Zeca vomitou sangue. Um sangue vivo.

Quase encheu um tacho!

Esse tacho de sangue é o meu exórdio.

Que todos me perdoem.

Riam-se de mim.

Mas, pelo amor de Deus e de nossos pais, peço um olhar de piedade para todos os personagens deste livro.

São personagens reais.

 

Temos os mesmos nomes e a mesma vida, no nosso pequeno mundo – uma barragem.

Artigos relacionados

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Pelo menos 14 cristãos protestantes foram “executados” durante o serviço religioso que decorria neste domingo, numa igreja protestante no leste do Burkina Faso. O ataque ocorreu em Hantoukoura, perto da fronteira com o Níger (leste do país) e terá sido executado por um dos vários grupos jihadistas que operam na região.

Apoie o 7 Margens

Breves

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Cinco cristãos libertados na Índia depois de 11 anos presos por acusações falsas

Cinco cristãos indianos que tinham sido presos em 2008 com acusações falsas, na sequência da morte de Swamy Laxmananda Saraswati em Kandhamal (distrito de Orissa, a quase 700 quilómetros de Calcutá) foram agora libertados, onze anos depois das condenações e quatro anos depois de, em 2015, testemunhos apresentados por dois polícias terem levado à consideração da falsidade das acusações.

Igreja Católica em Espanha tem de “relançar compromisso” com os migrantes, pede responsável das Migrações

O diretor da Comissão de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola, José Luis Pinilla, pediu o “relançamento do compromisso” da Igreja Católica em Espanha com os migrantes, fazendo frente à “xenofobia”. Numa conferência sobre Juan Antonio Menéndez, o antigo bispo e presidente desta comissão que morreu em maio de 2019, Pinilla afirmou que é necessária uma Igreja mais comprometida com os migrantes e lembrou os ensinamentos de Menéndez.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro novidade

Foi na Praça de São Pedro, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab.

Tem graça: ainda vou à missa!

Tem graça: ainda vou à missa! É o que fico a pensar, depois de ouvir certas conversas… Por isso, apreciei muito a sugestão do Conselho Diocesano de Pastoral, de Aveiro: «escutar as pessoas sem medo do que disserem». Mas… E se as pessoas têm medo de dizer o que lhes vai na alma? E não seria igualmente importante perguntar «Por que é que vai à missa»?

O elogio da frugalidade – por um Natal não consumista

O livro do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard, Le Système des Objets[1], é uma reflexão sobre a sucessão de objectos de vária ordem, que se produzem a um ritmo acelerado nas civilizações urbanas. Interessa-lhe sobretudo o tipo de relação que os consumidores estabelecem com essa avalanche de gadgets, de aparelhos e de produtos de várias espécies. Ao relê-lo para efeitos de um trabalho académico, encontrei algumas páginas que me levaram a pensar nesta fase de consumismo desenfreado que, quer queiramos ou não, nos acompanha na época do Natal.

Cultura e artes

Joker, o desafio da diferença

Filmes baseados em banda desenhada não faltam, mas este Joker é diferente. Para melhor. É o único representante desta década nos vinte melhores filmes de sempre da IMDb e parece-me sério candidato aos Óscares de melhor ator, realizador e banda sonora.

Concertos de Natal nas igrejas de Lisboa

Começa já nesta sexta-feira a edição 2019 dos concertos de Natal em Lisboa, promovidos pela EGEAC. O concerto de abertura será na Igreja de São Roque, sexta, dia 6, às 21h30, com a Orquestra Orbis a executar obras de Vivaldi e Verdi, entre outros.

“Dois Papas”: um filme sobre a transição na Igreja Católica

Dois Papas é um filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles (A CIdade de Deus) que, através de uma conversa imaginada, traduz a necessidade universal de tolerância e, mesmo sendo fantasiado, o retrato das duas figuras mais destacadas da história contemporânea da Igreja Católica. O filme, exclusivo no Netflix, retrata uma série de encontros entre o, à altura, cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) e o atual Papa emérito Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins).

Livro sobre “o facto” Simão Pedro apresentado em Lisboa

Um livro que pretende ser “um testemunho, fruto de uma meditação” sobre a vida do apóstolo Pedro, será apresentado nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, em Lisboa (Igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, Av. Berna, 18h30). Da autoria do padre Arnaldo Pinto Cardoso, Simão Pedro – Testemunho e Memória do Discípulo de Jesus Cristo pretende analisar o “facto de Pedro” que se impôs ao autor, fruto de longos anos de estadia em Roma, a partir de diferentes manifestações.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
10
Ter
Apresentação do livro “Os dons do Espírito Santo”, de frei João de São Tomás @ Livraria da Universidade Católica Portuguesa
Dez 10@17:30_18:30

O livro será apresnetado por Manuel Cândido Pimentel, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Dez
11
Qua
Apresentação do livro “John Henry Newman”, de Paolo Gulisano @ Capela do Rato
Dez 11@21:15_22:15

O cardeal Newman testemunhou, na Inglaterra do século XIX, uma prodigiosa aventura intelectual e espiritual de diálogo ecuménico (entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana). Reclamava uma fé lúcida, inteligente, em diálogo com a cultura e a tradição patrística (o passado). Antecipou o Vaticano II com a sua compreensão da soberania da consciência. Foi um motivar da intervenção dos leigos na sociedade do seu tempo. A sua recente canonização, em 13 de Outubro, pelo Papa Francisco, é estimulo para se aprofundar o seu pensamento e a novidade do seu testemunho.

O livro será apresentado pelo padre António Martins (Faculdade de Teologia/Capela do Rato) e Artur Mourão, filósofo, tradutor de Newman e membro do Centro de EStudos de Filosofia. O debate é moderado por Nuno André.

Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco