Livro: Papa Francisco Debaixo de Fogo

| 1 Mai 19 | Cultura e artes, Ensaio, Newsletter, Últimas

Papa Francisco Debaixo de Fogo Autores: Andrea Tornielli e Gianni Valente Ed. Planeta, 264 pág.s, 17,76 €

O arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos da América, protagonizou em Agosto do ano passado um invulgar caso com um fortíssimo impacto mediático, político e eclesial ao acusar o Papa Francisco de conhecer situações de assédio sexual cometidas pelo então cardeal Theodore McCarrick e de não ter agido contra o prelado com o vigor que a gravidade da situação requeria. A imprecação terminava com o insólito pedido para que Francisco se demitisse. O primeiro comentário do Papa surgiu sob a forma de apelo aos jornalistas para que fizessem o seu trabalho e confirmassem a veracidade dos factos da acusação.

Esse trabalho foi realizado pelos jornalistas Andrea Tornielli, do diário La Stampa e responsável pelo site Vatican Insider, entretanto nomeado director editorial do Dicastério para a Comunicação, e Gianni Valente, colaborador do Vatican Insider, e está publicado no livro Papa Francisco debaixo de fogo, que a editora Planeta disponibilizou em Março em língua portuguesa. O livro é bastante mais do que o fact-checking do caso Viganò, mas a desmontagem das acusações do arcebispo é tão minuciosa e eloquente que, por si só, justificaria a edição da obra.

Os exemplos do modo peculiar como Carlo Maria Viganò lida com a verdade factual são abundantes, mas dois bastam para o leitor ficar elucidado. Diz o arcebispo que o primeiro encontro com o Papa correu mal: Francisco “sem preâmbulo algum dirigiu-se a mim, atacando-me num tom de recriminação”. O Papa Francisco, segundo Viganò, quase o impediu de se apresentar e tratou-o de “maneira agressiva”. O comentário dos autores do livro não necessitaria de mais do que isto: “Infelizmente para Viganò e para a sua memória selectiva, daquele primeiro encontro existem imagens fornecidas pelas câmaras de televisão do Centro Televisivo do Vaticano, que registaram o beija-mão de todos os núncios apostólicos”, permitindo verificar que o Papa recebe o arcebispo com “um sorriso e gentileza”.

O segundo exemplo que se pode escolher para ilustrar o modo singular como Viganò se relaciona com a verdade, ainda que algo patético, também é suficientemente esclarecedor e encontra-se igualmente documentado por imagens. Veemente a denunciar uma espécie de cumplicidade que Theodore McCarrick obteve do Papa, Viganò esqueceu os seus pruridos contra o cardeal abusador numa cerimónia pública. Depois de ter recebido do Vaticano, pela voz do cardeal Marc Ouellet, “a reiteração das instruções sancionadoras contra o cardeal molestador”, o arcebispo Viganò não só não se incomodou em aparecer ao lado dele, como o cumprimentou afectuosamente e o elogiou. Saudou-o na sua intervenção considerando-o como alguém “que todos nós estimamos imenso” (e a expressão aliás peca por defeito em relação ao original, uma vez que Viganò afirma que McCarrick é “very much loved from us all”, como verificará quem vir a intervenção disponível no YouTube).

O interesse do livro de Andrea Tornielli e de Gianni Valente não está tanto no que diz e faz o arcebispo Carlo Maria Viganò, mas naquilo de que ele é sintoma. Os autores chamam a atenção para o facto de o arcebispo ter sido apoiado por dezenas de bispos dos Estados Unidos da América que “parecem recorrer às tácticas utilizadas pelos grupos financeiros na escalada empresarial: o director lança a oferta e os stakeholders correm de imediato a manifestar em uníssono o próprio apoio à operação para fazê-la parecer necessária, conveniente e defendida por um largo consenso. Um efeito-eco para impressionar os accionistas mais pequenos, impelindo-os a apoiar a escalada”. O caso evidencia que “as dinâmicas da vida eclesiástica são remodeladas com base em mecanismos predatórios da finança especulativa”.

Andrea Tornielli e Gianni Valente observam ainda que o caso Viganò “serve de gatilho para operações inéditas de intimidação de toda a hierarquia católica”. Uma iniciativa, intitulada “Relatório Barrete Vermelho”, organizada pela Universidade Católica da América propõe-se monitorizar os cardeais eleitores de um futuro conclave convocado para eleger um novo papa. Percebe-se que o empreendimento, suportado por um conjunto de super-ricos, reunidos no “Grupo para um melhor governo da Igreja”, fomentará a desconfiança em relação aos prelados que não circunscrevem a defesa da vida às fases embrionária e terminal. Entre o nascimento e a morte, há um período que tem de ser vivido com dignidade, razão por que esses prelados também se batem “contra o racismo, pelos direitos dos imigrantes e respectivas famílias, pelos pobres, pelos sem-abrigo e pelos desempregados, pelas vítimas da crise económica provocada pela idolatria do dinheiro e pela ideologia turbo-capitalista, tentando aplicar todos os ensinamentos da doutrina social da Igreja e do magistério dos últimos pontífices”.

O “Relatório Barrete Vermelho” será minucioso e um dos seus responsáveis revela algo que consta na lista de tarefas: “Modificar os perfis dos cardeais presentes na versão inglesa da Wikipedia, dado que ‘é do conhecimento geral que no último conclave muitos secretários dos cardeais usaram essas páginas para ajudar os purpurados a conhecer-se melhor uns aos outros’”.

“Sem demasiados pudores”, a operação Viganò favorece a primeira tentativa declarada de utilizar o padrão do lobbying político norte-americano “para condicionar e pilotar as dinâmicas íntimas dos grupos eclesiásticos envolvidos em cada conclave”. O mérito da análise de Andrea Tornielli e de Gianni Valente é expor o que, de facto, se oculta por detrás do caso Viganò.

Artigos relacionados

Um ano de 7MARGENS

Um ano de 7MARGENS

Hoje, 7 de Janeiro de 2020, o 7MARGENS completa o primeiro ano de publicação. Garantir a pertinência diária de uma publicação deste tipo, única no panorama da informação religiosa, pela abrangência que marca o seu fluxo noticioso não foi tarefa fácil. Mas, com o apoio, a solidariedade, o contributo e o incentivo de muitas pessoas foi possível corresponder ao que de nós esperavam os que acreditaram neste projeto.

Apoie o 7 Margens

Breves

A mulher que pode ter autoridade sobre os bispos novidade

Francesca di Giovanni, nomeada pelo Papa para o cargo de subsecretária da Secção para as Relações com os Estados, considerou a sua escolha como “uma decisão inovadora [que] representa um sinal de atenção para com as mulheres.

Henrique Joaquim: “Assistencialismo não tira da rua as pessoas sem-abrigo”

“O assistencialismo não tira a pessoa da rua, não resolve o problema; ainda que naquela noite tenha matado a fome a uma pessoa, não a tira dessa condição”, diz o gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo, Henrique Joaquim, que esta quinta-feira, 2 de Janeiro, iniciou as suas funções.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Cultura: novas histórias e paradigmas… novidade

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades.

Um imperativo de coerência

Ao renunciar, num ato de humildade e, seguramente, após longa reflexão, Joseph Ratzinger declarou não se encontrar em condições físicas compatíveis com o exercício das funções de Papa. Após a renúncia, o colégio dos cardeais eleitores escolheu Jorge Mario Bergoglio, o atual Papa Francisco, alguém que tem procurado atender as necessidades da Igreja, ouvir os fiéis e responder às suas inquietações. Revelou-se uma feliz surpresa para a Igreja, apesar dos movimentos de contestação que surgem em várias frentes.

Esquecer Simulambuco

Como português que sou senti-me um pouco comprometido em Simulambuco, quando visitei Cabinda no mês passado. Portugal falhou aos cabindas talvez porque o que tem de ser tem muita força. É o caso do petróleo.

Cultura e artes

Que faz um homem com a sua consciência? novidade

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
21
Ter
Viagem pela Espiritualidade – Conversa com Luís Portela @ Fund. Engº António de Almeida
Jan 21@18:15_19:15

Conversa em torno do livro Da Ciência ao Amor – pelo esclarecimento espiritual, de Luís Portela, com apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins e a participação de Isabel Ponce de Leão, Luís Carlos Amaral, Luís Miguel Bernardo, Luís Neiva Santos,
Manuel Novaes Cabral e Manuel Sobrinho Simões

Jan
23
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 23@21:30_23:00

Conferência sobre “Periferias”, com Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco