Capuchinho morreu no Porto aos 85 anos

Lopes Morgado (1938-2024): o frade apaixonado pela Bíblia, os presépios e a comunicação

| 1 Mar 2024

José Joaquim Lopes Morgado, Bíblia, Capuchinhos,

Lopes Morgado, animador do movimento de dinamização bíblica, responsável da Bíblica, coleccionador de presépios: fortes convicções na sequela de Francisco de Assis”. Foto: Direitos reservados

 

A poucas semanas de completar 86 anos, o frade capuchinho José Joaquim Lopes Morgado morreu nesta sexta-feira, 1 de Março, ao meio-dia, na casa dos Capuchinhos no Amial (Porto), onde estava depois de hospitalizações sucessivas nos últimos meses para tratamentos médicos. Lopes Morgado era um apaixonado pela divulgação da Bíblia, pelos presépios e pela comunicação: foi o principal responsável da revista Bíblica em vários períodos, animador do movimento de dinamização bíblica, cronista de jornais e rádios, inspirador de um “Jardim Bíblico” e de um núcleo museológico de presépios em Fátima, autor de livros poéticos e sobre Bíblia.

O funeral decorre neste sábado, dia 2, em dois momentos: às 10h30, na igreja paroquial do Amial, celebra-se missa de corpo presente, partindo em seguida o cortejo fúnebre para Fátima, em cuja comunidade Lopes Morgado vivia antes de ir fazer tratamentos hospitalares no Porto; às 15h30, será celebrada de novo a eucaristia na igreja paroquial de Fátima, ficando o corpo sepultado no cemitério da localidade, ao lado da igreja.

A nota biográfica divulgada pelos Capuchinhos define Lopes Morgado como um homem, um religioso e um padre de “fortes convicções, de fé e fibra inquebrantável, na sequela de São Francisco de Assis cujo ideal abraçou com entusiasmo”. Que “celebra, agora, a ‘Páscoa’ gloriosa dos redimidos, entrando na família dos que ‘ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática’.”

Nascido em Areias de Vilar (Barcelos), em 23 de Abril de 1938, José Joaquim Lopes da Silva Morgado entrou no seminário franciscano do Porto em Setembro de 1949. Em 1953, recorda a nota biográfica divulgada pelos capuchinhos, tomou o hábito da ordem em Barcelos para fazer o noviciado, recebendo na altura o nome religiosos de frei Agostinho de Vilar. Em 5 de Agosto de 1962 foi ordenado presbítero na Sé Catedral do Porto. Cursou Filosofia (1955-1958) no Convento dos Capuchinhos em Salamanca (Espanha), e Teologia (1958-1961) nos conventos de León (Espanha) e do Porto. Depois disso, exerceu como professor no seminário franciscano de Gondomar e numa escola pública.

 

Da Bíblia à comunicação…

José Joaquim Lopes Morgado, Bíblia, Capuchinhos,

Lopes Morgado na casa dos Capuchinhos em Fátima: um franciscano que se deu ao mundo da comunicação. Foto: Direitos reservados

Em 1965, foi escolhido pela primeira vez como director da revista Bíblica, em Lisboa, cargo em que permaneceria até 1978; voltaria a ser o principal responsável da revista entre 1987 e 1999 e, depois, entre 2000 e 2021, oscilando entre director e chefe de redacção; neste último período foi também o responsável da Difusora Bíblica, a editora dos Capuchinhos, onde foi um dos principais dinamizadores da colecção Cadernos Bíblicos, publicados desde o final da década de 1970, que reúne estudos de aprofundamento sobre mais de uma centena de temas; e da Bíblica – Série Científica, que reúne as comunicações de muitas das Semana Bíblica Nacional, realizada anualmente desde 1978.

Em Outubro de 1969, Lopes Morgado iniciou na Rádio Renascença (RR) o programa semanal Marana tha, expressão grega que significa “vem, Senhor Jesus”. No ano seguinte passou a integrar a equipa de padres que celebrava a missa na televisão pública e, em Dezembro de 1973, iniciou ainda na RR o programa diário Palavra do Dia; com os outros padres de uma equipa que incluía Elói Pinho (que já morreu), António Rego e Carlos Capucho (que mais tarde abandonou o ministério e se dedicou ao ensino universitário) criou vários programas, incluindo o célebre Esquema XIII, cujo nome remetia para o texto que, no II Concílio do Vaticano, preparou o que viria a ser o documento sobre a presença da Igreja no mundo actual.

Na Renascença, Lopes Morgado e os seus colegas padres chegaram a fazer trabalho de jornalista – no seu caso, ele recordava-se de ter ido ao Parque Eduardo VII, em Lisboa, em Janeiro de 1975, fazer a reportagem da primeira manifestação feminista em Portugal, ou da manifestação do 1º de Maio de 1974, e das eleições para a Assembleia Constituinte, em Beja, em Abril de 1975.

Lopes Morgado deixou as missas na RTP em Março de 1974 e a RR em 27 de Maio de 1975, quando as instalações da rádio em Lisboa foram ocupadas pelos trabalhadores. No ano 2000, recordando esses tempos conturbados, Lopes Morgado dizia, falando de si e dos padres): “Estávamos ali a defender a doutrina social católica, a tentar credibilizar a Igreja, tentando equilibrar as coisas”.

De acordo com a nota biográfica já citada, Lopes Morgado foi para Lyon (França) frequentar, em 1978, o Centro de Investigação e Comunicação Audiovisual para a Expressão da Fé, especializando-se em técnicas de Comunicação Audiovisual dos Grupo-Media pela Universidade Católica daquela cidade, após o que criou, em 1979, em Gondomar, o Centro Audiovisual de Apoio à Pastoral (CAVAP). Essa atenção ao audiovisual continuou, em Lisboa, no Centro de Produção Audiovisual, onde estavam também o padre António Rego, Carlos Capucho e Manuel Vilas Boas.

Os média foram para ele uma dimensão importante. Além de fotógrafo amador e durante vários anos responsável gráfico da Bíblica, multiplicou colaborações nas revistas Paz e Bem (1961-1964), Paz e Alegria e Stella (desde Janeiro 2002); nos jornais Comércio de Gondomar (1964- 1966), O Almonda (1999) e Diário de Notícias (1992); e nas rádios RDP 2 (agora Antena 2, 1981-82), e TSF (crónicas Como se visse o Invisível, 1996-1997), além das colaborações na RR já referidas; na televisão, foi colaborador esporádico do programa 70×7.

 

… e aos presépios, jardins e livros

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Gruta central do núcleo museológico de presépios em Fátima, dinamizado por Lopes Morgado, a partir da colecção por ele iniciada. Foto © José Luís Caetano.

 

Na congregação, Lopes Morgado ocupou vários cargos de governo, incluindo o de conselheiro do governo provincial (1969-1975) e foi também pároco da paróquia do Calhariz de Benfica, entregue aos Capuchinhos (1970-73).

Na segunda metade da década de 1970 foi um dos grandes animadores dos cursos de dinamização bíblica e, depois, da Semana Bíblica Nacional. Na mesma linha, foi ele o inspirador de um jardim bíblico na casa dos Capuchinhos em Fátima, inaugurado em Junho de 2003 com projecto do arquitecto paisagista Miguel Velho da Palma; e do espaço museológico, denominado Evangelho da Vida, que reúne uma vasta colecção de presépios e que foi inaugurado em Janeiro de 2020 [ver reportagem no 7MARGENS].

Como autor, publicou 27 títulos, um deles a colecção de dez cadernos Jubileu 2000 (1996-2001) e um outro, Via Sacra de Cristo e Outras Vias (Não) Sacras, em dois volumes (1977). A sua obra de maior fôlego foi a última: Apostolado Bíblico dos Capuchinhos de Portugal – 70 anos: 1951-2021, publicado em 2022, faz a história do movimento de dinamização bíblica amimado em Portugal pelos Capuchinhos, desde 1955, quando o espanhol frei Inácio de Vegas fundou em Beja a revista Bíblica e, depois a Difusora Bíblica, editora que viria a distinguir-se como a responsável pela edição mais divulgada da Bíblia em Portugal. Essa história tinha já sido contada em 2005 no livro de Lopes Morgado Frei Inácio de Vegas, o Profeta da Palavra.

A Bíblia foi ainda o tema e inspiração de outros livros da sua autoria: As Mais Belas Orações da Bíblia (1977); Para a Festa da Palavra (1984); Mateus – Reino, Igreja, Comunidades (1986); Marcos – Este Homem era Deus (1987); Lucas …e paz na terra! (1988); Quem Ouvir Que Entenda – Parábolas dum Novo Reino (1986); Crer – Raízes da Minha Fé (1988); Felizes! (Bem-Aventuranças) (1989); Dia da Bíblia – sugestões e apoios (1995); em minha memória (2004), 40 Semanas Bíblicas Nacionais (2012), Dou-te a Minha Palavra (2014) e ABeCedário do Espírito Santo (2017).

O Natal, outro tema a que dava grande importância na sua vida, inspirou os livros Agora que Nasci – Poema do Natal Intemporal (1976), o seu primeiro livro publicado; Roteiro de Natal (1987); Neste Natal (1989); Um Filho Nos Foi Dado –5 Autos de Natal (1989); Natal Intemporal (2015), e Maria! Orações a Nossa Senhora (2017).

Entre a Bíblia, a teologia pastoral e a linguagem poética, Lopes Morgado escreveu ainda de raiz – poemas (1983); Canto de Sol e Sal – diário do meu país (1983); Mulher Mãe (1987); Caderno para a Minha Mãe (1989); e Ao Encontro do Sol – poemOrações (1998).

 

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