Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

| 2 Mar 2024

 

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos. Algumas perguntas, poucas, um quase sonoro “Estou aqui!” e entrelaçámos as mãos, como em despedida…

Tive a consciência do fim de um corpo exausto de sofrimento. E rumei a Lisboa a padecer pelas horas e dias que passavam vertiginosamente. Ao fim da manhã de 1 de Março, frei Cruz, o autor do último alarme e colega de frei Morgado, dedicado assistente religioso no IPO do Porto, trazia-me a fatídica notícia da sua morte. [ver notícia no 7MARGENS]

A quente ainda, revejo no frei Lopes Morgado uma personalidade sensível de intensidade variável que evidenciava onde quer que estivesse.

 

O chamamento do sangue

 

Primavera. Foto Lopes Morgado

Rebento de uma figueira no início da Primavera, no Jardim Bíblico dos Capuchinhos em Fátima: Lopes Morgado guardava do pai a sua vocação telúrica pela Mãe Terra Fotografia © Lopes Morgado

 

Possuído de um amor infinito à própria mãe, que exaltou em poesia íntima e poderosa, guardou toda a simplicidade de uma família numerosa de dez irmãos, olhada pela sua condição de filho último. Nem a obrigatoriedade das leis conventuais lhe retiraram o chamamento do sangue.

Do pai guardava a sua vocação telúrica pela Mãe Terra, que alegrava com os sons melódicos da banda em que tocava, na freguesia de Cabreiros, nas proximidades de Braga.

Areias de Vilar é a localidade do concelho de Barcelos, onde nasceu, há 85 anos, José Joaquim Lopes da Silva Morgado – daí que tenha colocado no seu nome de religioso franciscano o nome de Agostinho de Vilar.

A igreja paroquial de Areias de Vilar integrou o mosteiro dos Loios, cujos membros eram designados por cónegos seculares de São João Evangelista, também conhecidos por cónegos azuis. A igreja foi objecto de uma profunda requalificação. Muitas vezes, ela foi cenário de conteúdos bíblico-litúrgicos da autoria de frei Lopes Morgado.

 

Sábio e inovador

Foi, aliás, a Bíblia que motivou de modo decidido, a vida e a obra que deixa agora este especialista em pastoral bíblica. Sempre se distinguiu no labor desta difícil tarefa, como director da revista Bíblica, a cujos quadros ainda pertencia. Os cursos de Dinamização Bíblica e as Semanas Bíblicas, que os Capuchinhos ainda realizam, eram objecto de inevitáveis participações de Lopes Morgado até à exaustão. E nenhuma das dioceses do país deixou de ser percorrida pelo empenho devotado do frade sábio e inovador na utilização da linguagem audiovisual, fruto de uma especialização na Universidade Católica de Lyon, França.

O mesmo esforço se obrigou a fazer quando, nos anos 70, pôs no ar múltiplos programas de rádio. Entre eles, Palavra do Dia e Marana tha, sobre a Bíblia, na Rádio Renascença. Imerso nos acontecimentos atribulados daquela emissora católica, frei Morgado desempenhou na crise da Renascença, em 1975, juntamente com António Rego, Carlos Capucho e Eloy de Pinho, um histórico papel de solidariedade com os trabalhadores da estação radiofónica. Seriam também sempre claras e límpidas as homilias que preparava cuidadosamente, mesmo quando os ouvintes eram os da televisão, por integrar a equipa de padres que cada domingo celebrava na RTP, por escolha do cardeal-patriarca de Lisboa.

 

Poeta até ao fim

 

Frei Lopes Morgado. Foto © DR

Lopes Morgado: A poesia era um mar largo em que navegava tranquilamente.. Foto © Direitos reservados.

 

A poesia era um mar largo em que navegava tranquilamente. Dom que levava a sério todos os dias. Até a edição, na Difusora Bíblica. São muitos os títulos com que brindou leitores assíduos, grupos bíblicos que se alimentavam da sua seiva fecunda e grupos litúrgicos que se projectavam em múltiplas linguagens. Pena foi que o frade poeta tivesse ficado circunscrito à sua editora de casa. A falta de meios e o voto de pobreza que levava a sério deixaram-no fora de outros voos bem merecidos.

Que em breve possa surgir a edição de uma colectânea de todos os poemas e de inéditos, que porventura existam para memória futura. Eu, consumidor me confesso de tantas liturgias, ter servido com traços iluminadores da sua poesia sadia, refrescante, profundamente evocativa, surpreendente. Jamais esquecerei O Recado, a tocar a surpresa dos noivos.

 

Recado[1]

Não precisas de escrever-me
que te lembre
Não precisas de lembrar-me
que te diga
Não precisas de dizer-me
que te peça
Não precisas de pedir-me
que te ame
Só precisas é de amar-me
sem que eu diga
nem precise de dizer-te
que te amo

 

Um Evangelho como se fosse um Presépio

 

Capuchinhos, Presépio, Evangelho da Vida, Lopes Morgado

Colecção Evangelho da Vida: “Um sonho de criança, o Presépio como um desejo infantil, num espaço museológico em Fátima.” Foto © José Luís Caetano

 

Há dois acontecimentos que marcaram indelevelmente os últimos anos de vida de Frei Morgado. Um sonho de criança, o Presépio como um desejo infantil, num espaço museológico, no Centro Bíblico dos Capuchinhos, em Fátima.

Este seria inaugurado no dia 4 de Janeiro de 2020, denominado “Evangelho da Vida”. É uma exposição luminosa de 1300 presépios. Qual deles o mais surpreendente. [ver 7MARGENS] Ao lado dos Presépios, também da inspiração de frei Morgado, sobrevive um Jardim Bíblico com árvores e plantas do universo bíblico. Apoiado pelo arquitecto paisagista Miguel Velho da Palma, o jardim foi inaugurado em Junho de 2003.

Frei Morgado, também jornalista (fazia questão de que eu, todos os anos, lhe renovasse, no Sindicato de Jornalistas, o título profissional), tocou diversos meios de comunicação social, designadamente, a rádio e a televisão, mas com preponderância para a escrita, livros e revistas. Assolado por uma crise grave de saúde, há dois anos, frei Morgado conseguiu ainda acabar a magna publicação do Apostolado Bíblico dos Capuchinhos de Portugal – 70 anos: 1951-2021, em que se relata a gesta de 70 anos dos frades capuchinhos na Igreja Católica portuguesa. Sangue, suor e dramático sofrimento. Uma palma para a eternidade.

 

Até sempre, Morgado!

Frei Lopes Morgado foi, de modo determinado, “Homem Religioso e Sacerdote, de fortes convicções, de fé e fibra inquebrantável, na sequela de São Francisco de Assis, cujo ideal abraçou com entusiasmo”. É com estas palavras que se inicia, de modo oficial, o relato da sua morte, ocorrida “ao meio-dia do primeiro dia deste mês de Março, mês em que chega a Primavera e se vai celebrar a Páscoa na fraternidade dos Franciscanos Capuchinhos do Ameal – Porto”.

O retrato ainda emocionado de uma vida íntegra, solidária, exigente, exemplar em excesso de trabalho e dedicação.

Um franciscano de corpo inteiro.

Até sempre, Morgado!

 

Manuel Vilas Boas

[1] LOPES MORGADO © Poemas de “Mulher minha Mãe, Difusora Bíblica, 1.ª edição 2018, p. 22

 

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