Luca Badetti: A fé não é só crer em Deus, mas também crer em nós e nos outros

| 19 Jan 19

Luca Baldetti: “Temos de chegar ao nível do apoio mútuo, em que não somos apenas nós a ajudar as pessoas com deficiência, mas todos a ajudarem-se.” Foto © Maria Wilton

Depois de viver durante 11 anos numa comunidade de A Arca, Luca Badetti esteve em Portugal a apresentar o seu livro I Believe in You (“Acredito em Ti”) editado nos EUA pela editora New City Press, relativo às suas experiências naquela comunidade de inspiração cristã onde pessoas com e sem deficiências vivem  em conjunto. Italiano, Luca Badetti, 34 anos, é professor na Universidade de Loyola, em Chicago (EUA) e consultor da comunidade n’A Arca. 

No livro, cuja apresentação decorreu numa sessão organizada pelo Serviço de Pastoral das pessoas dom Deficiência, Badetti conta a história de Karen, a mulher que insistia em andar com uma máscara de leão para todo o lado, para falar das máscaras que todos usamos no dia-a-dia; ou ainda a de Albert, um jovem com síndrome de Down e a sua capacidade de se mostrar vulnerável perante o outro. 

No texto de apresentação, escrito por Jean Vanier, escreve o fundador d’A Arca: “Este livro traz algo de novo e surpreendente. Ele diz-nos, através das experiências do autor, que [as pessoas com deficiência] podem ensinar-nos a tornar-nos mais humanos e, desse modo, trazer mudanças às nossa sociedade.” Jean Vanier é autor de dois livros publicados recentemente em Portugal: Ouve-se Um Grito – O Mistério da Pessoa é um Encontro (ed. Paulinas) e Verdadeiramente Humanos (ed. Principia). 

I Believe In You conta uma história muito humana por meio de pequenos exemplos de grandes histórias.

 

7M – Não é muito comum que alguém se decida doutorar em pessoas com deficiência… Qual é a sua história?

Luca Badetti (L.B.) – Todos temos histórias diferentes e vidas diferentes. E é algo extraordinário quando conhecemos outras pessoas que encontraram pessoas com deficiências e tiveram uma necessidade de partilhar a vida com eles.

Eu cresci na área de Roma e mudei para Milão quando era pequeno. Depois, mudei para os Estados Unidos. Mas, desde pequeno, sempre me interessei pelos marginalizados e por aqueles que se sentem excluídos da sociedade. Ao longo da minha educação, comecei a ler livros sobre o assunto, a informar-me. E senti-me convidado interiormente para me juntar à Arca, uma comunidade onde pessoas com e sem desafios intelectuais partilham experiências e vivem juntas: cozinham, passeiam, rezam etc.

7M – De onde veio a ideia de escrever um livro acerca do assunto?

L.B. – Não houve um dia especifico em que acordei e decidi que queria escrever um livro. Andava a querer escrever acerca d’A Arca mas, para contar a experiência, primeiro precisava de a viver – vivo lá há 11 anos.

Queria partilhar esta experiência porque nem toda a gente sente este chamamento, não é para todos. Mas há algo acerca de partilhar a vida com pessoas com deficiências, que fala a todos nós, porque é uma questão de humanidade. Portanto, não é apenas um livro acerca de deficiência ou para pessoas que trabalham com pessoas com deficiência. É um livro acerca da humanidade através de histórias de trabalhar com pessoas com deficiência.

7M – O que é que aprendeu ao trabalhar na Arca?

L.B. – Aprendi muitas coisas. Uma que me ocorre e é relevante é apreciar mais o ato de viver a partir do coração. No trabalho académico é muito fácil ficarmos presos nos pensamentos, mas o âmago de ser humano é viver do coração. Viver com pessoas cujas valências podem não ser intelectuais, mas que têm outras capacidades de amar, fala muito acerca do que é ser humano, aprende-se muito.

7M – Mas isso não é muito fácil de fazer, tendo em conta que estamos sempre tão focados nas capacidades intelectuais…

L.B. – É uma boa observação. No livro, às vezes, trago reflexões e contribuições de outros escritores e pensadores. Portanto não digo que a cultura intelectual não é importante. Mas a cultura deve servir os humanos, aproximar-nos do coração. Não é uma questão de coração versus razão mas é uma questão de integrar o pensamento, emoções e desejos, encontrando-nos a nós mesmos nos outros – não apenas intelectualmente, mas também no coração. Por vezes, as pessoas acham que a cabeça equivale a intelectual e o coração a emocional. Mas o coração é o centro de tudo, a junção das coisas.

7M – Numa conferência ted talk que deu há anos contava histórias de algumas das pessoas que conheceu e as suas experiências. O que aprendeu ao estar com cada uma dessas pessoas?

L.B. – É uma pergunta difícil porque cada pessoa é tão diferente. É como perguntar o que aprendeste com os teus amigos. Perguntas: que amigo? De cada pessoa aprende-se algo diferente.

7M – Mas há alguma história que o tenha marcado mais?

L.B. – As palavras I believe in you que dão título ao livro vêm de uma senhora que tem síndrome de Down e se chama Jennifer. Numa noite, numa reunião na comunidade, ela estava sentada ao meu lado. Ela é uma pessoa muito espiritual e, nessa noite, eu estava a duvidar um pouco da minha fé e virei-me para ela à procura palavras de sabedoria, conforto.

Disse-lhe: “Sabes, eu acredito em Deus, mas…” – e ela não me deixou acabar. Olhou para mim nos olhos por detrás dos seus óculos e disse I believe in you, I believe in you. Ou seja, ela não levou a conversa para o etéreo e abstracto mas para um nível muito humano – algo que, se pensarmos bem, é também um nível divino, pois encontramos o espiritual na nossa humanidade. Portanto, quando falamos de fé, a questão não é só se acreditamos em Deus mas também se acreditamos em nós mesmos e nos outros.

7M – Tem havido um caminho legal relativo a pessoas com deficiências, mas há ainda muito a fazer. O que é preciso fazer ainda?

L.B. – Muito precisa de ser feito mas, ao mesmo tempo, mais importante do que fazer é estar. Estar presente para os outros, ouvir o que têm a dizer, o que querem e o que precisam. Muitas vezes, quando falamos de inclusão, pensamos no que isso quer dizer para a população em geral. Mas o que significa inclusão para as pessoas com deficiências? Inclusão não é só um imperativo moral, não devemos ser obrigados a incluir. A inclusão pode ser uma alegria porque temos oportunidade de conhecer pessoas que são diferentes e celebrar a humanidade juntas.

7M – Como é que a sociedade ocidental aceita hoje as pessoas com deficiências?

L.B. – Sociedade é um termo vasto. Pode-se referir a comunidades locais, internacionais… Já foram dados grandes passos a caminho da aceitação, mas a exclusão ainda é, infelizmente, uma realidade proeminente. Muitas vezes digo que pessoas com deficiências têm, ao longo da história, sido excluídas muitas vezes de tudo. Portanto há muito que precisa de ser feito.

Em termos do que está a ser feito, vemos políticas a ser implementadas, comunidades a nascer e movimentos a aparecer como é o caso do movimento de direitos dos deficientes, que tem capacitado pessoas a falar por elas mesmas, reclamando os seus direitos. Eu participei num desfile de orgulho da deficiência (disability pride parade) com A Arca. E as pessoas com deficiências marcharam e celebraram quem são, ao contrário do que faziam no passado, escondendo-se. 

7M –  Pessoas com deficiências, pessoas com incapacidades, pessoas incapazes…Qual é a maneira certa de falar do assunto?

L.B. – Há um debate relativo a pessoas com deficiências, no sentido de saber se são pessoas incapacitadas ou pessoas capacitadas mas com limitações… Eu costumava dizer que todos temos alguma incapacidade até ter conhecido uma pessoa que tinha muitas deficiências e imensas necessidades médicas. Se começarmos a dizer que todos somos incapacitados, será que estamos a esconder o facto de que algumas pessoas têm coisas muito piores do que as nossas? Será que estamos a falar de uma perspectiva de privilégio?

É difícil. Há restrições médicas que se tem de levar a sério mas também há atitudes que incapacitam as pessoas. Por exemplo, se uma pessoa de cadeira de rodas chegar ao pé de um edifício que só tem escadas. Se houvesse uma rampa, a pessoa estaria capacitada a entrar no edifício. Onde está a deficiência: será que é a pessoa ou o edifício?

Todos temos coisas que fazemos melhor e outras com em que precisamos de auxilio, faz parte do facto de sermos humanos.

7M – Qual a mensagem principal do seu livro?

L.B. – Confiar na nossa preciosidade e na dos outros e, ao fazer isso, crescer na nossa humanidade pessoal e partilhada – individualmente e inclusivamente.

7M – Como é que a religião é importante neste caminho? Na Igreja Católica, por exemplo aqui em Portugal, há muito para ser feito ainda já que a mensagem principal é ajudar aquele que mais necessita.

L.B. – O principal problema é identificar essa mensagem: quem é que mais necessita? Muitas vezes assumimos que são as pessoas deficientes, o que não está errado. Mas todos temos necessidades. Todos temos necessidades de nos encontrarmos uns aos outros, ouvir as nossas histórias e ajudarmo-nos mutuamente. Penso que temos de chegar ao nível do apoio mútuo, em que não somos apenas nós a ajudá-los, mas todos a ajudarem-se. É um bom caminho.

Artur Bual, “Pietá”

Breves

Boas notícias

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

À medida que a pandemia alastrava, a angústia crescia no pequeno mosteiro do sul de França onde vivem as Irmãs da Consolação do Sagrado Coração e da Santa Face. As 25 religiosas queriam fazer mais do que rezar. Diante da imagem de Nossa Senhora do Povo, que acreditam ter salvo a sua região da peste em 1524, pediram lhes fosse dada uma tarefa: queriam colaborar com a virgem no combate a esta nova pandemia. No dia seguinte, receberam uma chamada do bispo da diocese e outra do presidente da câmara: ambos lhes pediam para fabricar máscaras.

É notícia

Cultura e artes

Editora francesa oferece “panfletos” sobre a crise

Sendo certo que as doações essenciais neste período de pandemia dizem respeito a tudo o que nos pode tratar da saúde física, não há razão para negligenciar outras dádivas. É o caso de uma das mais famosas editoras francesas, a Gallimard, que diariamente oferece textos que pretendem ser uma terceira via entre a solenidade da escrita de um livro e o anódino da informação de um ecrã.

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Júlio Martín, actor e encenador: O Teatro permite “calçar os sapatos do outro”

O actor e encenador Júlio Martín diz que o teatro permite fazer a experiência de “calçar os sapatos do outro”, mantém uma conversa em aberto e, tal como a religião, “faz religar e reler”. E permite ainda fazer a “experiência de calçar os sapatos do outro, como os americanos dizem; sair de mim e estar no lugar do outro, na vida do outro, como ele pensa ou sente”, afirma, em entrevista à agência Ecclesia.

Pessoas

Abiy Ahmed Ali, o Nobel da Paz para um cristão pentecostal

Abiy Ahmed Ali, o Nobel da Paz para um cristão pentecostal

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, receberá nesta terça-feira o Nobel da Paz de 2019, numa cerimónia em Oslo. O Comité Nobel não o disse, mas várias das atitudes e propostas do mais jovem líder da África, com 43 anos, radicam na sua fé cristã de matriz pentecostal.

Sete Partidas

Um refúgio na partida

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

A ilusão do super-homem novidade

As últimas semanas em Portugal, e há já antes noutros cantos do mundo, um ser, apenas visível a microscópio, mudou por completo as nossas vidas. Na altura em que julgávamos ter atingido o auge da evolução e desenvolvimento técnico e científico, surge um vírus.

Esse Deus não é o meu!

Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.

Fale connosco