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Luca Casarini a bordo do navio Mare Jonio. Foto DR

Entrevista ao 7MARGENS

Luca Casarini: “Se queres viver realmente o Evangelho, é muito provável que tenhas problemas com a Igreja”

| 22/11/2024

Luca Casarini a bordo do navio Mare Jonio. Foto DR

Luca Casarini fundou, em 2018, a Mediterranea Saving Humans, ONG que detém o único navio de resgate civil com bandeira italiana, o Mare Jonio. Foto: Direitos reservados

Foi um dos “convidados especiais” do Papa para acompanhar as duas sessões da assembleia sinodal, e essa escolha provocou surpresa geral, a começar nele próprio. Luca Casarini, 57 anos, estava afastado da Igreja, ou pelo menos dos seus edifícios. E o seu sítio preferido para ir à missa e ler a Bíblia era o meio do mar. Nascido em Veneza, no seio de uma família de operários, Luca abraçou desde cedo as mais variadas lutas pela defesa dos direitos humanos, de Génova à Palestina, passando por Belgrado ou Buenos Aires, as quais lhe valeram muitos processos em tribunal, ordens de expulsão e até penas de prisão. Nada disso o parou e, em 2018, fundou a Mediterranea Saving Humans, ONG que detém o único navio de resgate civil com bandeira italiana, o Mare Jonio. Depois de muitas lutas em terra, a sua missão prossegue no Mediterrâneo, onde descobriu o verdadeiro poder de um simples abraço. E nem enquanto esteve no Vaticano descansou: foi a partir do seu quarto, com vista para a Basílica de São Pedro, que coordenou uma operação que culminou no resgate de 58 pessoas que tinham partido da Líbia e estavam à deriva há mais de 22 horas. Em entrevista ao 7MARGENS no rescaldo do Sínodo, fala sobre a emoção dessa noite passada em claro, sobre o papel dos cristãos no acolhimento aos migrantes, e sobre a Igreja do terceiro milénio, da qual, graças ao Papa Francisco, quer fazer parte.

 

7MARGENS – Porque é que acha que o Papa o escolheu para participar neste Sínodo?

Luca Casarini – Bem… eu não sou teólogo, não sou bispo, não sou padre, não sou perito em Religião, nem sequer sou um bom cristão! Sou apenas alguém que vai para o mar e tem uma grande experiência de encontro com os pobres. E acho que foi por isso que o Papa me escolheu. Ele disse-me: “Será bom para ti… e será bom para a Igreja”. Porque, para mim, foi como um regresso a casa… e a Igreja precisa de testemunhos, de experiências concretas. A Igreja não pode ser apenas uma experiência espiritual e íntima. A Igreja também são as pessoas como eu, que apesar de estarem fora dos seus “edifícios”, encontram Jesus. Verdadeiramente, encontram Jesus.

 

7M – Mas li, numa entrevista que deu após ter participado na primeira sessão da assembleia, que se sentiu “deslocado” e “inadequado”… Continuou a sentir-se assim durante a segunda sessão?

É verdade: na primeira sessão tive essa sensação, um pouco como um peixe fora de água… Mas desta vez já não me senti assim, talvez porque já conhecia toda a gente, e todos me conheciam. No entanto, tentei que isso não mudasse a minha perspetiva ou a minha forma de estar. Isto é, que eu não me sentisse como um príncipe da Igreja, com mais importância que os outros que não estavam ali, mas que continuasse a sentir-me como um dos últimos. Porque acho que vivemos num mundo em que todos querem ser primeiros… onde não há últimos. E é preciso aprender dos últimos, não dos primeiros.

Luca Casarini cumprimenta o Papa na aula Paulo VI, durante a segunda sessão da assembleia do Sínodo, outubro 2024. Foto DR

Luca Casarini cumprimenta o Papa na aula Paulo VI, durante a segunda sessão da assembleia do Sínodo, outubro 2024. Foto: Direitos reservados

7M – Se o Papa tivesse convidado alguns dos migrantes que o Luca já resgatou no Mediterrâneo, o que acha que diriam à assembleia?

O Papa não os convidou para a assembleia do Sínodo, mas pediu-me para conhecê-los pessoalmente. E eu levei vários a Roma, para que pudessem encontrar-se com ele. O que aconteceu foi absolutamente incrível… Para eles, ver o Papa Francisco acho que foi como ver o próprio Jesus. Ajoelharam-se aos seus pés, num misto de gratidão, alegria, esperança… e também dor. E ele abraçou-os, um a um. E para estas pessoas, um abraço é muito mais do que possamos pensar. Quando os resgatamos no mar, eu ainda me surpreendo como, depois de tudo aquilo que eles passaram – depois da tortura, das violações, da perda de filhos, dos maiores horrores… – para eles o nosso abraço é um tesouro. Porque lhes devolve a esperança numa nova vida. Para nós, um abraço não é nada… Nós queremos carros, dinheiro, blá. blá, blá! E eles ensinam-nos esta lição: um abraço e ver de novo o nascer do sol são um verdadeiro tesouro. Foi isso que procurei transmitir na assembleia: que, no mar, há duas pobrezas que se encontram – a pobreza material deles e a nossa pobreza de espírito – e se conseguirmos misturá-las podemos seguir num outro caminho. A esperança deles é um exemplo e mostra que confiam verdadeiramente em Deus. Confiam muito mais do que nós, disso não tenho dúvidas.

 

7M – A verdade é que muitos migrantes não recebem esse abraço, e a Igreja nem sempre faz o suficiente para acolhê-los… Acha que, com este Sínodo, a Igreja aprendeu também a acolhê-los melhor?

Acho que sim, porque muitos trouxeram as vozes dos migrantes até aqui, como por exemplo o bispo do Texas, que contou o que se passa na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não fui só eu… Todos perceberam que se trata de uma questão global. E que a Igreja tem uma responsabilidade particular em lidar com ela. E acho que essa também é a mensagem desta encíclica [Dilexit nos], que o Papa fez questão de publicar antes de o Sínodo terminar. Nela, o Papa diz que o mundo está “sem coração”, e a situação dos migrantes é um paradigma dessa ausência de coração na gestão política, na Igreja, na Humanidade. Se o coração não estiver no centro de tudo, o mundo caminhará para uma era pós-humana. O mundo empurra-nos para uma vida individualista, para estarmos sozinhos, mas isso não é possível para o ser humano. Nós precisamos de relações, e de relações com o que é diferente, porque não há ninguém igual, todos somos únicos e diferentes. E a sociedade das relações é uma alternativa à sociedade do individualismo. Acho que a Igreja tem uma responsabilidade grande na criação dessas relações e o Sínodo é também uma prova de que elas são possíveis.

Luca Casarini em encontro de migrantes com o Papa. Foto Vatican Media

O encontro do Papa com migrantes e responsáveis da ONG Mediterranea Saving Humans, em julho deste ano. Foto © Vatican Media

7M – Houve pelo menos uma missão de resgate de migrantes da Mediterranea Saving Humans enquanto o Luca estava no Vaticano, este ano… Foi difícil só poder acompanhar à distância?

Eu nem sempre vou no barco. Também são necessárias pessoas em terra, para gerir o sistema de comunicações. E foi isso que eu fiz nessa missão, a partir do Vaticano. E nem imagina como foi especial… Porque, no dia antes, eu tinha estado a falar num simpósio, na Universidade Urbaniana, sobre a minha experiência com o resgate de migrantes no Mediterrâneo. E, no final desse simpósio, uma freira veio ter comigo e disse-me: “Guarde esta frase: ‘Onde está o teu irmão?’. É a pergunta que Deus faz a Caim, no Génesis. Eu achei aquilo bonito, mas não pensei mais nisso. Na noite seguinte, quando estava no meu quarto a controlar a missão, as coisas não estavam a correr bem. Tínhamos recebido uma denúncia, mas procurámos durante dez horas e não encontrávamos nada… Até que um companheiro disse: “temos de parar, a informação que tínhamos devia ser falsa”. E nessa altura a frase da irmã veio-me à mente. Eu estava ali, no Vaticano, com aquela missão… da janela do meu quarto olhei para a Basílica de São Pedro iluminada, e soube que não podíamos desistir. Disse: “Continuem, insistam… E eles foram e finalmente encontraram o barco… eram cinco da madrugada”. No dia seguinte, fui à procura da irmã e contei-lhe o que tinha acontecido. Ela abraçou-se a mim, a chorar.

 

7M – Sabemos que aquilo que vocês fazem comporta vários riscos… É fácil encontrar pessoas dispostas a participar nestas missões de resgate?

Esta experiência é um dom, é um grande privilégio, e marca-nos para o resto da vida. Felizmente, há muitas pessoas dispostas a participar, sim, apesar de arriscarem acusações de facilitar a imigração ilegal, por exemplo… E a Igreja deve olhar para isto… Em 2018, quando comecei, só havia dois navios civis de resgate. Hoje, há 18, de diferentes grupos e organizações, de toda a Europa. Esta é a resposta da sociedade civil. É muito interessante! É como se fosse uma outra Europa… E envolvidos nesta resposta estão milhares de jovens, católicos, de outras religiões, ateus… que têm coração. Ao contrário dos políticos, que não se coíbem de afirmar em público que as mortes no Mediterrâneo são um aviso para os outros que ainda não vieram, para que não venham… A Igreja deve olhar para isto com os olhos bem abertos, olhar para partes do mundo que são invisíveis, e o Papa quis isto neste Sínodo.

Luca Casarini a bordo do navio Mare Jonio, março 2024. Foto DR

Luca Casarini (ao centro, de laranja) a bordo do navio Mare Jonio, março 2024. Foto: Direitos reservados

7M – Parece que o Papa conseguiu: foi proposta, por um dos membros, uma assembleia eclesial mediterrânea, para poder escutar diretamente a voz das pessoas migrantes…

Exatamente! Quando falava da responsabilidade da Igreja, essa pode ser uma forma de a assumir, que nasce deste Sínodo: no fundo, trata-se de criar um novo continente, o Mediterrâneo, e olhar para ele com olhos de ver. Porque, como dizia o Papa numa catequese no final de agosto deste ano, “na era dos satélites e dos drones, há homens, mulheres e crianças migrantes que ninguém deve ver. Só Deus os vê e ouve o seu clamor. E esta é uma crueldade da nossa civilização”.

 

7M – Essa catequese do Papa serve de prefácio ao livro que o Luca acaba de lançar em Itália… Porque decidiu escrevê-lo e qual a principal mensagem que pretende transmitir?

O livro chama-se La cospirazione del bene (em português, A conspiração do bem). Nele, conto com nasceu, em segredo, a Mediterranea, falo sobre as missões que levámos a cabo, e sobre o modo como resistimos aos ataques, fossem eles tiros de metralhadora da guarda-costeira da Líbia, ou  atos judiciais de um poder inspirado em princípios desumanos. É um livro em que quero levar as pessoas a questionar-se: “Que tempos são estes, em que para fazer o bem – para salvar a vida de quem a perde – é preciso agir secretamente, em conspiração?”. Em breve, irei lançar outro livro, mais pessoal, sobre como esta missão levou à minha conversão.

Luca Casarini na apresentação do seu livro em Milão, novembro 2024. Foto DR

Luca Casarini (segundo, da esquerda) na apresentação do seu livro em Milão, na passada terça-feira, 19 de novembro. Foto: Direitos reservados

7M – E pode já levantar um pouco do véu dessa história para os leitores do 7MARGENS? Sei que estava afastado da Igreja desde os 12 anos…

Sim, eu fui batizado e a minha primeira catequista foi a minha avó. A minha família era pobre, vivíamos na zona industrial de Veneza, em Mestre, e os meus pais passavam o tempo quase todo a trabalhar, cada um na sua fábrica. Foi nessa altura que conheci o don Aldo Cristinelli, que era um padre muito amigo dos trabalhadores e que se tornou um grande amigo nosso… Tornou-se quase como um pai para mim. Mas um dia cheguei à paróquia – eu era acólito – e ele não estava lá. A Igreja tinha decidido mudá-lo para outro sítio, não sei exatamente porquê… Mas fiquei muito zangado. E depois, passado pouco tempo, nós também nos mudámos para outra cidade, onde fui encontrar um pároco muito conservador, hipertradicionalista… E eu, que estava habituado a um padre de rua, fiquei ainda mais zangado. Não conseguia estar ali naquele ambiente, era impossível para mim. Mas, curiosamente, nessa altura comecei a ir ao encontro dos pobres de outra forma, através do meu envolvimento com um movimento social, muito radical, muito de esquerda… mas onde cheguei a fazer várias coisas com padres e freiras.

A verdade é que não deixei de ser cristão… Afastei-me da Igreja, no sentido em que me afastei dos edifícios. Mas continuei a rezar, mesmo quando estava a seguir Cristo sem ter bem noção disso. Rezava sobretudo para pedir ajuda, nos momentos de grande aflição… e hoje já rezo também para agradecer. E sou cristão, absolutamente. Sinto que pertenço a um fluxo que vem mudando o mundo há dois mil anos… No navio, temos um capelão, o don Mattia Ferrari, que é também uma inspiração. Celebra missa a bordo, lemos a Bíblia… E quando o Papa me fez este convite senti que tinha de aceitar. Não foi bem uma conversão, foi mais um regresso… como o regresso do Filho Pródigo. Mas uma coisa é certa: se queres viver realmente o Evangelho, é muito provável que tenhas problemas com a Igreja! [Risos]

 

7M – Continua a ter problemas com a Igreja, apesar desta experiência no Sínodo?

Hmmm… eu gosto da Igreja do primeiro milénio, não gosto da Igreja do segundo milénio… Em relação à Igreja do terceiro milénio, ainda não sei, porque depende de nós… e aqui também me incluo! O Papa Francisco está a tentar regressar à origem e acho que esse deve ser o sentido da reforma. Sempre tendo em conta que a Igreja não é a nossa meta, a meta é o reino… e o reino não é deste mundo.

 

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