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Arcebispo da Arquidiocese de Maputo
Bispo D. João Carlos Hatoa Nunes, Arcebispo da Arquidiocese de Maputo Foto © Sara Laísse

[Moçambique, margem Sul]

Lugar de honra, acolher Jesus e Hatoa: viver com gratidão, verdade e audácia

| 08/06/2025

 

Jesus Cristo tem sido sempre recebido na Universidade Católica de Moçambique, mas desta vez, na Extensão de Maputo, foi de modo mais objectivo: já temos sacrário, temos tabernáculo. Aleluia! A Universidade tem 30 anos de existência, em Moçambique e surgiu primeiro na Beira, mais tarde em outro locais. Em Maputo, foi implantada há cinco anos.

D. João Carlos Hatoa Nunes é arcebispo da Arquidiocese de Maputo. Eu já o conhecia, de perto, e gostava da sua pregação, sempre regada de aspectos das culturas locais de Moçambique, sobretudo a ronga, que é de Maputo, onde vivo. Entretanto, ele nasceu na Beira, lugar de outras culturas e saberes. Foi convidado a proferir uma palestra e a realizar a bênção do sacrário na Extensão de Maputo.

Entre outros assuntos abordados na sua visita à Extensão daquela Universidade, na qual trabalho, ele explicou-nos a razão de ser de um dos seus nomes: Hatoa. É típico dele ater-se a questões culturais, dizia, e gosta de ilustrar as suas intervenções com cânticos religiosos, o que, em minha opinião ajuda a fixar a mensagem que transmite, seja ela qual for. Há-de o caro leitor assíduo à minha crónica, neste jornal, recordar-se que o meu “prato forte” é a cultura e a interculturalidade. Nesse contexto, o presente texto não é, nem o resumo do que aconteceu no evento retratado, nem uma encomenda vinculativa de alguma entidade. Trata-se apenas da minha leitura ao momento mencionado.

Voltando àquele nome. Acabada de ser apresentada a sua biografia, D. João Carlos recordou-nos que Moçambique é um país multicultural. Há árabes e asiáticos, para além dos nativos e outros a habitarem o país. E ele é de ascendência asiática, chinesa, mais concretamente. O seu nome Hatoa é uma corruptela de “Wathola”, ie, aquele que emprega (língua changana). Tendo sido, o seu avô um empregador de pessoas, esse foi um dos nomes que lhe foi atribuído. Esclarecimento curioso, porque, muitos de nós julgávamos que fosse um nome de origem chinesa.

Gostava de destacar o que aprendi, nesse dia e interpreto à luz de Estudos sobre a interculturalidade.

2(…) foi útil saber, a partir de uma explicação do Bispo, que a convivência pacífica entre as religiões não será e não deve ser para retirar a identidade de cada uma das religiões em contacto, mas vivê-la em comunhão (…). Foto © Adérito Guirrugo, cedida pelo autor

Falou-se, na palestra, sobre o ecumenismo (cooperação/convivência entre diferentes religiões), e foi útil saber, a partir de uma explicação do Bispo, que a convivência pacífica entre as religiões não será e não deve ser para retirar a identidade de cada uma das religiões em contacto, mas vivê-la em comunhão, de tal sorte que esteja clara a distinção entre as “coisas sagradas” e as “coisas religiosas”. Comunga-se e há coexistência, entre religiões, no que concerne às “coisas religiosas”. Já as “coisas sagradas” marcam a distinção entre as religiões e o relacionamento no qual cada um preserva a sua identidade e convive com o outro, só não dissolve a sua razão de existir.

Algumas dessas “coisas sagradas”: a fé, a formação integral do indivíduo (tanto na aquisição do conhecimento científico, quanto na aquisição do conhecimento espiritual), mais o sacrário, para destacar a presença de Cristo nessa casa do saber, são, entre outros, os ingredientes necessários para a existência de uma Universidade Católica. Junta-se a tudo isso, segundo o Bispo, a busca pela verdade.

João Carlos referiu que iria fazer, durante a palestra, uma abordagem de um padre ou de um pastor e não uma intervenção académica. Utilizou, em minha opinião, todo o princípio da sabedoria: “só sei que nada sei”, o que equivale à designada humildade científica, aliada à abordagem simbólica, que caracteriza o discurso religioso.

Então, na sequência do seu discurso, apelou que ao desenvolvermos a nossa actividade, enquanto corpo técnico-administrativo, docentes ou enquanto estudantes, tivéssemos o cuidado de seguir três pressupostos básicos, entre outros que possam existir: a gratidão (ser grato pelo passado), a verdade (abordar o presente, tal como o é, para que se possa fazer a real face da questão) e a audácia (coragem para cuidar do futuro, que é sempre incerto), claramente, tudo nos devidos limites da fé católica.

Tocou-me sobremaneira, o discurso, porque não entendendo de Teologia, nem do discurso teológico que envolveu toda a fala do Bispo, pude constatar que, esses pressupostos tidos como fundamentais, que nos foram incumbidos, fazem, também, por analogia, parte do texto académico.

Nesse texto, é meu entender que, o passado é representado pela convivência (utilização/interacção) com os autores que precederam determinado autor, na abordagem de um certo tema ou conceito operacional à pesquisa. Esses autores que antecedem, tanto com argumentos a favor, como com argumentos que fazem um contraponto, devem ser mencionados na pesquisa. Para mim o presente ou a verdade, corresponde à análise crítica ao trabalho realizado por esses autores, ao qual o pesquisador deve acrescentar o seu posicionamento, para a leitura do fenómeno estudado, em função de um presente que vive, na preparação do futuro. Além disso, essa verdade, corresponde ao processo de produção de prova, porque o trabalho científico trata disso, de criação de evidências. A audácia, partiria da humildade de o autor da pesquisa reconhecer que não sabe tudo, não abordou tudo no seu texto, mas aprendeu tanto, que seria capaz de deixar recomendações para futuras abordagens desse tema ou dele mesmo transformado. Mas uma abordagem tal, que superasse todos os obstáculos antes enfrentados. Na verdade, a audácia é a pujança necessária para enfrentar qualquer futuro, qualquer incerteza. Foi o que pude aprender e resinificar, para o meu entendimento e aproveitamento daquele evento.

Fui feliz, nesse dia, aprendi os rituais em torno da recepção da bênção a um tabernáculo, do seu significado e de como receber Cristo nas nossas casas, no caso, na nossa Escola, o que foi uma honra. Estimei acolher o Bispo e com ele poder aprender os caminhos da ligação entre a Igreja Católica e os modelos de disseminação de conhecimento científico, que, numa Universidade comum devem considerar a gratidão, a verdade e a audácia e, numa Universidade Católica, devem integrar essas três vertentes, acrescentando-lhes a fé e os valores humanos. Estou grata por ser contemporânea de Hatoa. Tentarei seguir sempre a verdade e ser audaz em ouvi-lo, em busca de Jesus Cristo.

 

Sara Jona Laisse, docente universitária, membro do graal – Movimento internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

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