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Lugares revelados (5)

Lugares revelados: ser ou não ser, eis a questão?

| 21/08/2024

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A visita a Florença revelou-me o imenso que ainda me falta saber sobre História e sociedade e reiterou aquilo em que sempre acreditei: as mulheres é que movem o mundo. Será sobre o que ignorava sobre a História de Itália e sobre a força da mulher que me irei deter neste texto.

A curiosidade que sempre tive, relativamente àquele lugar no mundo, era a de perceber a dimensão que se dizia ter David, a maior “escultura do mundo”, de Michelangelo e perceber a estrutura anatómica daquela, bem como as razões pelas quais a Rainha Victória de Inglaterra solicitou que a réplica que lhe foi oferecida, tivesse algo a cobrir o falo da escultura.

Mais do que o significado da escultura, o deixar ou não partes íntimas à vista, alucinou-me a perfeição do desenho anatómico de David, muito próxima de um corpo humano real. Aquele trabalho, se tivesse sido realizado na época da cibernética que vivemos, mais os movimentos que este saber nos permite utilizar, seria um trabalho próximo do divino. Aprendi, através da escultura que, houve uma inversão do que se sabia bíblico: Golias era o gigante. A escultura revela-nos um David enorme, sugerindo o renascimento e as diferentes possibilidades que temos de nos reinventar – de pequenos meninos, para o grande David de Michelangelo, enfrentando os males da humanidade, sem sucumbirmos de cabeça baixa.

“Nessa praça, sentei-me muitas vezes a coscuvilhar e a tentar, com o pouco italiano que percebo, compreender que vida é que alguns migrantes levam na Europa.Praça de Independência.”  Foto © Sara Laísse

 

Hospedei-me algures, próximo da Praça da Independência. Poucas vezes me recordo que a “poderosa Europa”, antes das suas migrações para “conquistar o mundo”, viveu mergulhada em suas próprias batalhas. Daí o espanto em encontrar uma praça rememorativa da independência.

Nessa praça, sentei-me muitas vezes a coscuvilhar e a tentar, com o pouco italiano que percebo, compreender que vida é que alguns migrantes levam na Europa. Devo dizer que vi mais migrantes em Florença do que os originários do país. E como foi que identifiquei isso, mesmo relativizando algumas cores de pele e sotaques que denunciavam as origens das pessoas? A gastronomia ainda é, também, um desses sinais. Quer dizer, os estereótipos prenunciam ou denunciam alguma coisa. Prestam-nos alguma informação, mesmo que esta tenha que, se necessário, ser aferida a posteriori.

Havia, então vários migrantes asiáticos na praça. E dividiam-se em dois grupos: de homens e de mulheres, estas acompanhadas de suas crianças. Ficavam lá dias e noites, mas ao que parecia, iam-se revezando, por turnos, a ir não sei para onde, o que me levou a suspeitar ser para casa. E, tratando-se de muita gente, para a mesma casa, a vida far-se-ia à vez. Devendo alguns habitantes ficar no jardim, na Praça da Independência. Ali eram livres, desde que não fizessem barulho a meio da noite. Ouvia-se-lhes as vozes, de manhã muito cedo e ao longo do dia.

E eram muitas vozes, audíveis e barulhentas, na verdade. As que me chamaram a atenção foram as das crianças rapazes, que se tentam fazer mais autoritários que os demais. Pareceu-me imitarem a forma como os pais se dirigem às mães. O modo era inapropriado. E isto não acontece apenas naquelas etnias. Acontece em todas. O mundo é machista, embora, em alguns lugares, casos e grupos culturais, esse problema da autoridade masculina se esteja a desmoronar. E se desmorona porque a força da mulher é imensa. É silenciosa, mas frutífera.

Vista de Florença e do rio Arno. Foto © Sara Laísse

 

Como dizia, sentei-me a ouvir. Fazer a minha etnografia. Aflorei, com elas, a questão da natalidade e, no contexto, uma mulher perguntou à outra, como é que, em três anos, ainda não tinha conseguido engravidar e só tinha três filhos. A outra, com cinco, estava grávida e dizia-se cansada. Dizia que, com o sonho de chegar à Europa, acreditou que, no que à natalidade diz respeito, teria um destino diferente do das mulheres da sua terra. O de ter imensos filhos. Debalde.

A outra, a dos três filhos apenas, respondeu que se tinha recordado que, mesmo na sua terra, as mulheres utilizavam plantas, à revelia dos maridos, para evitarem gravidezes excessivas. Então, chegada à Itália, questionou-se sobre qual é que seria a planta similar. Não tendo conseguido uma resposta, por intuição desconfiou que a excessiva toma de café poderia ser um inibidor. E como o seu esposo a proibira de o tomar, atiçara a desconfiança; daí que, insubordinada, tomava-o às escondidas. Por isso, ou por alguma outra razão, dizia ela, não tinha voltado a engravidar

Devo referir que obtive esta informação após uma longa conversa, iniciada pelo meu questionamento acerca do modo como os rapazes se dirigiam às suas mães. Ali fiquei com as senhoras, numa “torre de babel”, em três ou mais línguas, ao que se seguiu a conversa sobre a natalidade. E, um parêntesis, por terem de cuidar das suas crianças que frequentam a escola, as mães acabam aprendendo italiano e outras línguas de outros imigrantes.

Esta questão sobre a natalidade levou-me, também a uma outra conversa que tinha tido, em Maputo, numa catequese de preparação para o casamento, em que fui acompanhar noivos, um dos quais meu filho. Debatia-se a importância de ter uma “natalidade responsável”. Não trazer ao mundo crianças para sofrerem, por causa da falta de condições económicas dos pais. Dizia-se no debate que a natalidade, para além de ser um assunto religioso, era também assunto de Estado. Ou seja, há que se cumprir com os desígnios de Deus, mas seguir-se, também, as condições económicas dos pais, no país em que vivem. Conciliar a quantidade de filhos com a possibilidade de os poder educar, prestar assistência sanitária, alimentar, entre outras necessidades.

Tendo em linha de conta esse debate, conversei com as senhoras sobre que regras eram impostas, nas suas terras, quanto à natalidade e algumas responderam-me que tinham sido educadas para terem o número de filhos que Deus e o marido permitissem ter, que não se deve evitar a concepção. Foi nesse contexto que tentamos ter um debate sobre a inibição com recurso ao café. O que é que ele significava para os preceitos das suas culturas. A referida mãe de três filhos disse que o café não constituía problema, uma vez tomado como meio de prevenção, que ela designava como natural, quando a outra não o achava natural. Entretanto, dada a complexidade do assunto, à dificuldade com as diferentes línguas, mais a desconfiança que alguns dos maridos teriam, pelo facto de eu, uma estranha, ficar muito tempo com as senhoras, tivemos de interromper a conversa.

Segui o meu caminho, questionando-me sobre o café ser ou não um inibidor natural; lembrei-me, comparativamente, o que é que seria, na minha cultura, um atemorizador natural de natalidade; já que nela também se defende que a mulher deve ter o número de filhos que Deus definir.

Recordei-me do Ritual de Águeda, fenómeno homónimo do título do livro de Sónia Jona, no qual se conta que, logo após a menarca, a mãe de Águeda, para evitar que ela concebesse cedo, enterrou o primeiro pano utilizado como penso higiénico escondido numa lata. Na sociedade narrada, que é a de Inhambane, acredita-se que esse seja um bom método para evitar uma gravidez indesejada. O livro é de ficção, mas relata uma realidade. A obra conta ainda que, tendo chegado a guerra civil, a família de Águeda deslocou-se da sua residência habitual para um outro local, tendo regressado anos depois. Durante o período de ausência desse lugar habitual, Águeda tentou engravidar, sem sucesso. Só depois de imensa pesquisa e de ter-se encontrado aquele primeiro pano usado na menarca, desenterrando-o, é que a moça concebeu.

Águeda tinha passado por muitos dissabores, dado que, na maioria das sociedades africanas há um controlo do corpo da mulher por parte do homem. Além disso, não podendo conceber, nessas sociedades a mulher passa por muitos maus momentos e chega a ser humilhada, porque o seu trabalho é agradar ao homem e à família. Em alguns desses lugares, quando a infertilidade é da parte do homem, o assunto é abafado pela família, que chega a aconselhar um dos seus membros do sexo masculino para copular com essa mulher e o filho, nascido dessa união, é assumido como se fosse do seu próprio esposo. Reina a regra: “nasceu no meu curral, é meu.” E não se fala mais no assunto.

Os homens são esse lado presumivelmente “forte”, os Golias que, só com manhas, as mulheres colocam no devido lugar. Só a luta pela sua própria sobrevivência é que as torna o David de Michelangelo. Neste período de férias e nesse lugar, fiquei muito tempo a pensar no quão a arte pode iluminar e transformar a vida. Mas, também perguntei-me se o café, a abstinência sexual em período fértil e o enterrar o pano da menarca serão métodos naturais equivalentes. Ser ou não ser, eis a questão!

Foi isto que me interpelou a minha viagem a Florença, parada na encantadora e enorme varanda da Piazza Michelangelo; após ter apreciado o trabalho do renascentista e anatomista Micheangelo, na Galleria dell’Accademia.

David, escultura de Michelangelo. Academia de Belas Artes, Florença. / Wikipedia

 

Sara Jona Laisse, docente universitária. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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