Diretor d'A Economia de Francisco, ao 7M

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

| 26 Set 2022

luigino bruni no encontro a economia de francisco 24 set 2022 foto clara Raimundo

“Os jovens querem compromisso e não apenas cantar e dançar”, afirma Luigino Bruni. Foto © Clara Raimundo/7Margens.

 

Em março de 2018, escreveu ao Papa pedindo-lhe dez minutos para apresentar a sua ideia de como renovar a economia. Para sua surpresa, Francisco propôs-lhe uma audiência privada no Vaticano. E dez minutos não foram suficientes porque, logo ali, começaram a sonhar juntos aquele que viria a ser o movimento d’A Economia de Francisco. Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma, e consultor do Dicastério para os Leigos, Luigino Bruni é um apaixonado pela Bíblia e pelo cruzamento entre disciplinas como a Ética e a Economia, como se pode verificar na série de textos O Mercado e o Templo, aqui já publicada. No final do encontro global d’A Economia de Francisco, do qual é o diretor científico, conversou com o 7MARGENS sobre o balanço que faz desta iniciativa, e deixou alguns conselhos aos organizadores da Jornada Mundial da Juventude 2023, que irá realizar-se em Lisboa.

 

Francisco não é o primeiro Papa a apelar a uma nova economia. Em 2009, na encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI falava na “urgência da reforma da arquitetura económica e financeira internacional”… Porque é que foi necessário Francisco renovar este apelo, dez anos depois?

Eu vejo uma continuidade entre João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Mas quando o Papa Bento XVI escreveu a Caritas in Veritate o contexto era muito diferente. Estávamos a recuperar depois de uma crise financeira, havia um otimismo geral em relação ao crescimento dos mercados, a crise climática não era tão urgente… Entretanto, o mundo mudou, a pobreza aumentou, veio a pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise climática tomou enormes proporções… Quando, em 2019, o Papa Francisco escreveu a carta aos jovens [a convidá-los para se juntarem ao movimento d’A Economia de Francisco e participarem no encontro em Assis], nós estávamos no início destas outras mudanças, e foi uma carta profética. De qualquer modo, a abordagem do Papa Francisco à vida e à economia é diferente da dos seus antecessores. Ele dá mais atenção à pobreza, à economia que mata, à cultura do descarte. E esta Economia de Francisco está voltada em primeiro lugar para os bens comuns e não para os bens privados, como a economia que se ensina normalmente nas faculdades.

 

Numa das conferências do segundo dia do encontro, o padre jesuíta e economista Gaël Giraud referiu que, para que haja uma verdadeira mudança na economia, é necessário que os bancos consigam libertar-se dos ativos que dependem dos combustíveis fósseis, e que isso só é possível com a intervenção do Banco Central Europeu. Concorda? E, nesse caso, o que é que está nas mãos dos jovens fazer?

Eu concordo que nós necessitamos de uma mudança radical no sistema financeiro. Mas a receita concreta não é fácil, porque a Ásia, a África, a América Latina… são diferentes da Europa ou dos EUA. Independentemente disso, é verdade que precisamos de algo novo… O ativismo da sociedade civil e dos jovens clama por um modelo diferente. Há muita gente a pensar sobre este tema, de uma forma académica e teórica, incluindo eu próprio, e n’A Economia de Francisco juntamos os académicos e os empreendedores, o que não é muito comum (porque habitualmente os académicos só falam entre si e não gostam de empreendedores, e vice-versa). [Risos] Mas esta união é muito importante e penso que pode fazer a diferença.

 

Este encontro presencial aconteceu dois anos depois do previsto, tendo sido adiado por causa da pandemia. Agora que realmente pôde realizar-se, correspondeu às expetativas?

Foi muito além! Eu fiquei verdadeiramente surpreendido e esmagado pelo que aconteceu: a adesão e o envolvimento tão forte de jovens economistas, académicos e empreendedores deixou-nos impressionados. Estou muito grato ao Papa Francisco por ter confiado nestes jovens (de resto, é uma das poucas pessoas no mundo que o faz), e muito feliz por ver como aquilo que era um desejo pessoal se tornou realidade e superou todas as expetativas. Nunca na história da Igreja tinha havido um movimento de jovens economistas tão global. Foram apresentadas centenas de projetos, um sinal de que os jovens não são apenas sonhadores utópicos. Agora espero que mantenham a fé na fraternidade e na justiça, e que continuem este caminho nos seus países, para que o movimento seja cada vez mais amplo e possa mudar realmente a economia.

 

Estamos a menos de um ano de outro encontro do Papa com os jovens: a Jornada Mundial da Juventude, que irá realizar-se em Lisboa. A Economia de Francisco deveria ser um dos temas a abordar nesse grande encontro?

Penso que esta ideia de organizar os jovens por aldeias temáticas pode ser aproveitada para Lisboa e A Economia de Francisco deveria ser uma das aldeias, sem dúvida. E acho que temos de mudar a forma como organizamos a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), porque hoje a juventude é diferente do que era no século XX. A juventude reúne-se em torno de um processo, de uma mudança social, e não apenas porque é bonito estarmos juntos, cantarmos e dançarmos. Isso já não é suficiente. Eles são muito mais maduros do que no passado… Pensemos na ativista ambiental Greta Thunberg, no movimento Fridays for Future… Os jovens querem compromisso e não apenas cantar e dançar. Por isso, temos de envolvê-los na política, na economia, no ambiente, nas artes. Temos de estar atentos e perceber que o mundo mudou, a Igreja também está a mudar, e a juventude mudou mesmo muito. Temos de organizar a JMJ ao nível da juventude de hoje, não da juventude de há dez anos. Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total.

 

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