Saborear os Clássicos X

Luís de Camões e “Os Lusíadas”: a Lira destemperada, a voz enrouquecida

| 25 Set 2022

As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano

(ed. da Fundação Calouste Gulbenkian)

 

Frontispício da 1ª edição de Os Lusíadas

Frontispício da 1ª edição de Os Lusíadas

Comemoram-se este ano 450 anos da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões (1524-1579), obra que é a “confissão de um poeta” (Roget Bismut, Paris, 1974).

Eis o seu epitáfio:

“Aqui jaz Luís de Camões / Príncipe dos Poetas do seu tempo. / Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, ano de 1579.”

“Esta campa lhe mandou aqui pôr D. Gonçalo Coutinho, no qual se não enterrará pessoa alguma.”

Estas palavras são uma síntese biográfica. Certo é que o apelido do mais notável poeta da literatura portuguesa, tem origem numa família galega que era nobre e que no reinado de D. Fernando veio para Portugal: Vasco Pires de Camões, possivelmente tetravô de Camões. Posteriormente os seus bens foram confiscados. Os descendentes mergulharam na pobreza. Sabe-se só que o poeta era filho de Simão Vaz – nobilitado, mas não fidalgo e por esse motivo sujeito às leis relativas aos plebeus. A mãe, Ana de Sá, permanece na obscuridade.

Toda a obra camoniana – lírica, epopeia e até dramática – baseia-se na experiência da sua vida:

Metido tenho a mão na consciência / e não falo senão verdades puras / que m’ensinou a viva experiência.
Nem eu delicadezas vou cantando / com gosto de louvor, mas explicando / puras verdades já por mim passadas. / Oxalá fossem fábulas sonhadas!
Ouçam a longa história dos meus males / e curem sua dor com minha dor.

“Nos negrumes – pobreza, bastardia ou sangue hebraico – se hão-de procurar as infelizes estrelas do nascimento”. (José H. Saraiva)

A obra do poeta foi escrita entre 1540 e 1579/80, período de grandes perseguições aos judeus. Segundo José H. Saraiva, foram amigos de Camões os cristãos-novos Garcia de Orta, que lhe publicou em Colóquios o primeiro poema; Manuel Barata; Diogo de Couto; Soropita, Estácio da Fonseca, Belchior Barreto e outros. O Cancioneiro, manuscrito, de Fernandes Tomás, apresenta um número elevado de versos de Camões – foi adquirido em 1887, em Amesterdão, centro da diáspora sefardita; o nome de Joana é substituído num poema por Anha, o nome hebraico correspondente; muito posteriormente, foi revelada a existência de uma edição manuscrita de Os Lusíadas em letra do séc. XVI, constituindo uma versão judaizante da obra. Mesmo assim, nada se poderá concluir sobre o assunto, mas a amizade e os vínculos associam-no muito a cristãos-novos.

 

Bicho da terra vil e tão pequeno!

Retrato de Camões por Fernão Gomes (cópia de Luís de Resende), considerado o mais autêntico retrato do poeta: há muitas incertezas sobre a vida do poeta.

Retrato de Camões por Fernão Gomes (cópia de Luís de Resende), considerado o mais autêntico retrato do poeta: há muitas incertezas sobre a vida do poeta.

 A maioria dos investigadores contemporâneos apresenta dados bastante incompletos e muitas incertezas sobre a vida do poeta. José Hermano Saraiva é o único investigador moderno que, baseando-se na obra camoniana, apresenta uma biografia bastante completa. A 1ª edição da sua obra relativa à vida de Camões teve duas tiragens com 8000 exemplares cada e mais duas se seguiram. Em geral, caiu um silêncio sobre esta obra, embora fosse lida por muitos, de acordo com a afirmação do investigador.

Nessa obra, Vida Ignorada de Camões, José H. Saraiva considera que o poeta, na Canção X, narra factos da sua adolescência que o marcaram para sempre. A partir da análise desse poema e de muitos outros, tece uma biografia de Camões.

 

Humanismo e Renascimento em Portugal

Enquadrando a vida do poeta no contexto social e político do seu tempo, sabe-se que em relação aos ideais humanistas e do Renascimento, houve em Portugal um desejo inovador, iniciado nos fins do séc. XV até à primeira metade do séc. XVI. Neste século, distinguiram-se então duas correntes: a humanista, na sequência do século anterior; a partir da segunda metade do século, a escolástica tornou-se predominante.

Assim, em 1547, D. João III fundou ainda em Coimbra o famoso e inovador Colégio das Artes. Posteriormente, processos inquisitoriais instaurados a professores deste colégio, fizeram desaparecer os docentes convidados estrangeiros e os nacionais. Em 1555, o Colégio foi entregue à Companhia de Jesus.

No entanto, encontramos na obra de Camões uma cultura de sabor fortemente humanista. No final da epopeia exprime-se assim:

Nem me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado / nem engenho, que aqui vereis presente, / Cousas que juntas se acham raramente (X. 154. 5-8)

Conclui-se que a sua família era pobre, mas como era de origem fidalga, o pai procurou dar uma posição honrosa ao nosso vate. Este deve ter estudado com o tio D. Bento Camões, frade crúzio, cursando humanidades. Mas o poeta não optou nem por um mosteiro nem pelo exército. Segundo José H. Saraiva, tornou-se, ainda adolescente, terminados os estudos, escudeiro de uma família da alta nobreza. E é a partir dessa altura que J. H. Saraiva tece a biografia camoniana. Mas todos estão de acordo que num certo tempo da sua juventude vivia de expedientes, do seu engenho, a troco de comida, convivendo com gente mal-afamada, encontrando nos prostíbulos, bares, outros indivíduos que se interessavam pelas novas ideias e discutia com eles.

Perseguido por uma família da alta aristocracia? Preso? Desterrado? Provavelmente, mas permanecem dúvidas, incertezas. Certo é que embarcou para a Índia, após ter sido preso por causa de uma rixa – uma cutilada dada a outro jovem temerário – e isso levá-lo-ia ao Tronco, a prisão dos plebeus.

Com o perdão de el-rei, embarca para a Índia, permanecendo no Oriente desde 1553 até 1569, ano em que embarca para Lisboa. Como escudeiro, toma parte de uma expedição militar; depois, poderia pedir a nomeação para funções civis ou administrativas. Mas levava tempo – a burocracia já tem séculos, em Portugal. Pensa-se que o único cargo para o qual foi nomeado foi provedor dos Defuntos, em Macau. Mas tudo é bastante nebuloso.

Inicia a viagem de regresso a Lisboa em 1566. Diogo de Couto encontrou-o em 1568 na ilha de Moçambique, vivendo miseravelmente. Foram os amigos que o ajudaram monetariamente a seguir viagem para Lisboa, chegando em 1569. Também há poucos elementos deste fim de vida. Certo é que publicou Os Lusíadas, recebendo uma tença miserável.

“Ninguém o excede; não só [é] um prodígio da arte narrativa, como um prodígio de arquitectura significativa” (Jorge de Sena).

A epopeia camoniana “Os Lusíadas”, causou grande impressão não só na península Ibérica, mas também na intelectualidade europeia. Justifica-se pela própria obra, mas também devido à grande viagem marítima e à frota de Gama referenciarem o Oriente: a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aquele Oriente, aos olhos dos ocidentais, surgia mítico e exótico devido aos aromas do sândalo e às especiarias; pelas referências bíblicas – o Paraíso, o rei Salomão, a rainha de Sabá, o Reino do Prestes João nas Índias…

Há também outro factor que tornou a epopeia camoniana muito importante: foram os portugueses que iniciaram as viagens marítimas, escrupulosamente planeadas. A conquista de Ceuta foi a porta de entrada para a grandiosa aventura marítima portuguesa.

 

“Numa mão, sempre a espada; noutra, a pena.”  

Vénus aplaca os ventos e a tormenta, desenho de Fragonard para a edição de Os Lusíadas do Morgado de Mateus, Paris, 1837, França.

Vénus aplaca os ventos e a tormenta, desenho de Fragonard para a edição de Os Lusíadas do Morgado de Mateus, Paris, 1837, França.

O autor da epopeia é, segundo António José Saraiva, “um cavaleiro humanista”. Expressão contraditória, mas em concordância com o contexto político e intelectual em Portugal, unindo as duas ideologias díspares já referidas: a Escolástica da Idade Média; o Renascimento e Humanismo na época camoniana.

Na epopeia, os factos históricos narrados reflectem a ideologia medieval; a burguesia mercantil, os negócios e trocas comerciais estão ausentes. Este aspecto reflecte, como vimos, a situação de Portugal, na segunda metade do séc. XVI. No entanto, o saber camoniano é humanista, “não é de um autodidacta”, segundo Hélder Macedo. O poeta é um estudioso da Bíblia, latinista, conhecendo os clássicos, reflectindo-se tudo isso na sua escrita tão harmoniosa. Conhecedor da mitologia, cosmografia, história e até dos escritores e intelectuais modernos: Garcilaso, Petrarca, Bembo, Ariosto, Bernardim Ribeiro.

 

Diversidade de vozes na epopeia

O que dá verdadeiramente vida à nossa epopeia, é a interacção de vozes na narrativa: a voz do narrador – na narração propriamente dita, nas invocações a Calíope, às ninfas do Tejo e do Mondego e em particular, nas reflexões que faz no fim de cada Canto; a narração da história de Portugal feita por Vasco da Gama ao rei de Melinde (C.III e IV), destacando-se os belíssimos episódios de “Inês de Castro” (C. III) e do “Velho do Restelo” (C. IV); as preces do Gama à Divina Guarda (C. II e VI) ; a narração do irmão de Vasco da Gama, Paulo da Gama (C. VIII) discorrendo acerca de várias figuras da história de Portugal ao Catual, ao chegar a frota à Índia.

Mas são as vozes de diversas personagens míticas, as intrigas entre os deuses do Olimpo, que dão verdadeiramente vida à trama da narrativa.

“Amor é um brando efeito / que Deus no mundo pôs e a Natureza / para aumentar as cousas que criou” (in “As doces cantilenas que cantavam”)

O amor, o verdadeiro amor, que surge cantado na lírica e na epopeia, não se insere no conceito platónico, mas na dignificação do eros que se eleva ao transcendente. Esta concepção do amor é iniciada através da experiência, na relação amorosa com o objecto amado.

Camões é influenciado pela filosofia de Leão Hebreu – judeu português exilado em Itália, nos seus Diálogos do Amor – exprimindo uma concepção dinâmica da mitologia e da Natureza. Esta apresenta uma vida própria, uma força interna baseada no amor – profunda força expansiva nos corpos e nas almas de todo o Universo.

“Segundo o Amor que tiverdes, / Tereis o entendimento dos meus versos” (soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse”, Canção X)

Ora esta concepção do amor – o eros como força dinâmica vital e transcendente – torna Camões um poeta moderno, segundo Hélder Macedo, ultrapassando, assim, o platonismo e o petrarquismo – correntes humanistas da época na Europa.

Nestes excertos transcritos, os seres humanos – no acto amoroso – e a natureza circundante, unem-se numa só alma, em profunda comunhão espiritual.

Aquelas tranças de ouro que ligaste / Que os raios do Sol têm em pouco preço, / não sei se para engano do que peço, / se para me matar as desataste! (soneto “Lindo e sutil trançado que ficaste”)

…Conheci-me não ter conhecimento / e nisto só o tive, porque via / meus espritos de mim serem saídos / tal força era dos seus, esclarecidos / que mudava a humana natureza / nos montes, e a rudeza / deles em mim, por troca, trespassava.  (canção VII)

Aquele não sei quê / suave, respirando, / causava um desusado e novo espanto, / que, as cousas insensíveis o sentiam / porque as gárrulas aves, entretanto, / vozes desordenadas levantando, / como eu em meu desejo, se acendiam. / As cristalinas fontes não corriam / inflamadas na vista clara e pura… O ar, o vento, o dia, / espíritos contínuos influía… (ibidem)

Pode um desejo imenso / arder no peito tanto / que à branda e à viva alma o fogo intenso / lhe gaste as nódoas do terreno manto / e purifique em tanta alteza o esprito / com olhos imortais / que faz que leia mais do que vê escrito. (Ode VI)

 

Os Lusíadas ou a confissão de um poeta

Camões segundo André Carrilho, na capa do livro de Hélder Macedo

Camões segundo André Carrilho, na capa do livro de Hélder Macedo

Toda a viagem é iniciática, pois no fim o viajante transfigura-se, devido à experiência que teve. Tal facto sucede na epopeia camoniana.

Assim, quem verdadeiramente é activo ao longo da acção, são os deuses – uns a favor, e outros contra – e a voz do poeta, intervindo no fim de cada canto, narrando a sua própria viagem/ vida. Roger Bismut afirma por essa razão que esta epopeia “é a confissão de um poeta”.

Vénus é a protectora dos portugueses, contrariando Baco, que se lhes opõe. Os nautas portugueses ultrapassam os perigos graças ao Amor, personificado na deusa que insiste junto de Júpiter para ajudar os Lusitanos. (C.II. 33 – 55)

Surge resplandecente ao Pai Júpiter, / Tão fermosa no gesto se mostrava / Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho / E tudo quanto a via a namorava. / Dos olhos, onde faz seu filho o ninho, / Uns espíritos vivos inspirava / … E por mais namorar o soberano / Padre, de quem foi sempre amada e cara / se lhe apresenta assi… Os crespos fios de ouro se esparziam / Pelo colo que a neve escurecia; / Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, / Com quem Amor brincava e não se via… Cum delgado cendal as partes cobre / … porém, nem tudo esconde nem descobre / O véu, dos roxos lírios pouco avaro…

É deste modo, quase nua, que a deusa do Amor vem pedir a Júpiter proteção pelos portugueses na viagem marítima. Esta aparição de Vénus causa em Júpiter tão grande amor por ela, … de modo que dali, se só se achara / Outro novo Cupido se gerara.

Noutra passagem, face a uma grande tempestade, Gama ajoelha-se e apela à “Divina Guarda”, enquanto que Vénus manda as ninfas vencer pelo Amor os ventos furiosos, mandados por Baco, roído de inveja, desejando provocar danos na viagem:

… [Vénus manda às] Ninfas amorosas / grinaldas nas cabeças pôr de rosas… sobre cabelos louros à porfia. [os ventos] / … abrandar, determina, por amores, / Dos ventos a nojosa companhia, / Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas, / Que mais fermosas vinham que as estrelas…  tanto que chegaram / à vista delas, [aos ventos] logo lhe falecem / as forças com que dantes pelejaram… (C. IV.87.88)

 

A transfiguração do terrível gigante chamado Adamastor

No meio da epopeia, Canto V – a simbologia dos números e suas correspondências são exaustivamente analisados na obra de Jorge de Sena – os portugueses dobram o cabo Bojador, saindo do Atlântico/ Ocidente e entrando no Índico/ Oriente. Enfrentam o desconhecido, vencem o medo, conseguindo o seu objectivo. O medo é representado pelo gigante Adamastor que devido ao amor possessivo, brutal, violento – “o baixo amor” – por uma ninfa, foi transformado num grande penedo. Depois, vencido, conta aos nautas a sua história, o seu amor infeliz. E a sua dureza transforma-se, “vem ao de cima”, deixando de ser áspero e brutal:

… Assi contava; e cum medonho choro / Subito de ante os olhos se apartou. / Desfez-se a nuvem negra, e cum sonoro / Bramido muito longe o mar soou…  (C. V. 60).

A Viagem, símbolo da busca do conhecimento de si mesmo, foi só possível devido à força do amor: venceu-se o medo, o ódio, a inveja, a destruição, pela compreensão do outro.

Abertas estão as portas do Oriente: novos perigos engendrados por Baco os esperam, mas o Amor, personificado por Vénus, suplanta-os sempre.

 

A Ilha dos Amores

A Ninfa Tétis e Vasco da Gama, ilustração de Desne e Richomme (1837)

A Ninfa Tétis e Vasco da Gama, ilustração de Desne e Richomme (1837)

Após chegarem ao seu destino, no início da viagem de regresso à Pátria, os nautas vislumbram no oceano uma ilha que Vénus lhes prepara, ajudada pelo seu filho Cupido. Seduzidos pela beleza do lugar, os marinheiros lusitanos ancoram aí as caravelas.

Belíssima é a Ilha, transbordando de regatos de água, abertos ao sol resplandecente… é o Paraíso primordial, a Magna mater, Schekiná, a metáfora feminina de Deus, a Rainha, Filha e noiva de Deus, a Mãe, de acordo com Fiama Pais Brandão e outros.

Aí os nautas vislumbram as ninfas e cada um escolhe a que lhe compete: [um/outros] … se lançam a correr pelas ribeiras. / Fugindo as ninfas vão por entre os ramos… mais industriosas que ligeiras… sorrindo e gritos dando / Se deixam ir dos galgos alcançando… (C.IX.70)

Gama é levado pelo seu par – Téthis, esposa do Oceano, mãe de todos os rios do mundo, a mais nobre de todas as deusas do mar, personificação da fecundidade – para um sumptuoso palácio. A união de Gama com Téthis, segundo Stephen Reckert, “representa a união com o Uno primordial que toma a forma das águas”.

União do Fogo com a Água

Numa analogia alquímica e cabalística, segundo Yvette Centeno e outros, o fogo – Marte, símbolo da terra, dos guerreiros que defendem o solo pátrio, evocado nos Cantos III e IV – une-se à água – símbolo da primeira natureza, húmida, de onde tudo sai, de índole feminina; antes dela, só o Espírito de Deus está presente.

Estas bodas sacralizadas – segundo Stepen Reckert, devido à interdependência entre o eros e a gnosis – são festejadas no C.X.5. no palácio de Téthis: … Mil práticas alegres se tocavam / Risos doces, sutis e argutos ditos… Despertando os alegres apetitos … Cum doce voz, Téthis anuncia as profecias dos feitos dos portugueses no Oriente.

Aquisição do Saber Profundo

Téthis convida depois Gama e os nautas a subir a um monte: “sigue-me firme, forte, com prudência/ Por este monte espesso, tu cos mais”, a fim de contemplarem a “Máquina do Mundo”, revelando-lhes os seus segredos. Esta subida representa o esforço, a tarefa árdua da viagem. No final, o prémio da Sabedoria.

“… Saber alto e profundo / Que é sem princípio e meta limitada” – Assim é definido Deus, que … ninguém o entende, / Que a tanto o engenho humano não se estende, (C.X.80.). Com estas palavras, Téthis oferece-lhes a contemplação do Universo, facultando aos heróis a Sabedoria.

Esta Viagem foi, pois, uma transfiguração, um percurso espiritual, vivido também pelo poeta, sendo “os deuses … a metáfora das potencialidades humanas” (Hélder Macedo).

Invocação às ninfas do Tejo e do Mondego

O poeta pede ajuda e invoca as ninfas do Tejo e do Mondego, numa linguagem metafórica – por exemplo, o meu fraco batel, é a sua vida, lutando, amando e sofrendo no mundo. A Fortuna significa a sorte, neste caso, má Fortuna, provocando no sujeito infelicidade.

vosso favor invoco, [o das ninfas] que navego / por alto mar, com vento tão contrário, / que, se não me ajudais, hei grande medo / que o meu fraco batel se alague cedo. // Olhai que há tanto tempo que, cantando /o vosso Tejo e os vossos Lusitanos /a Fortuna me traz peregrinando, / novos trabalhos vendo e novos danos…. (C. VII.78.79)

 

A voz do Poeta

Túmulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos. Foto: Direitos reservados.

Túmulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos. Foto: Direitos reservados.

 Lastima-se pelas tamanhas misérias [que o cercam]. Ironicamente, os que são exaltados na sua obra, deveriam louvar o seu trabalho literário. São, no entanto, insensatos e intensificam os seus males:

…senão que aqueles que eu cantando andava / tal prémio de meus versos me tornassem: / a troco dos descansos que esperava, / das capelas de louro que me honrassem, / trabalhos nunca usados me inventaram, / com que em tão duro estado me deitaram! (C.VII, 81)

E a sua voz não se cala, criticando ironicamente os grandes, os responsáveis da nação pelo seu desprezo pela Poesia:

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores / o vosso Tejo cria valerosos, / que assim sabem prezar, com tais favores, / a quem os faz, cantando, gloriosos!

E de que modo os prezam? No futuro, como tratarão os poetas que dignificam a pátria, o seu passado? O Poeta responde profeticamente, numa ironia amarga:

Que exemplos a futuros escritores, / para espertar engenhos curiosos, / pera porem as cousas em memória / que merecerem ter eterna glória! (C. VII, 82).

 

Regeneração da Pátria através do canto

Segundo Hélder Macedo, o Poeta tem um propósito futuro: estimular os portugueses e principalmente os responsáveis da nação a uma regeneração da pátria, cultivando o amor da poesia e enaltecendo os que a cantam. Os poetas serão, assim, os arautos futuros de uma pátria restaurada; devem ser estimados e acalentados.

Já anteriormente, na dedicatória da epopeia ao rei D. Sebastião, dá-lhe conselhos, mas num tom crítico, a fim daquele tomar consciência da sua função, num momento difícil da governação. Daí o pedido:

“tomai as rédeas vós do Reino vosso…”

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, / sublime Rei, que não me atrevo a tanto, / tomai as rédeas vós do Reino vosso: / dareis matéria a nunca ouvido canto… (C.I.15)

E continua, agora no fim da obra, a dirigir-se ao rei – significando que o rei não o faz ou é mal aconselhado – pedindo-lhe para dignificar os [seus] vassalos honestos, excelentes (C.X.146):

Favorecei-os logo, e alegrai-os / com a presença e leda humanidade; / de rigorosas leis desalivai-os… os mais experimentados, levantai-os… (C. X. 149).

 

Actéon

O rei parece estar surdo a estes apelos: é interessante relevar o conjunto de estâncias de 25 a 29, C.IX, segundo Hélder Macedo. No momento em que Vénus prepara com Cupido a Ilha dos Amores.

Neste passo, a voz do poeta eleva-se… Contra o mundo revelde, por que emende / Erros grandes que há dias neles estão / Amando cousas que nos foram dadas / Não pera ser amadas, mas usadas /.

O soberano surge como um Actéon – segundo a mitologia, Actéon era um grande caçador – … na caça tão austero, / De cego na alegria bruta, insana, / Que, por seguir um fero e animal fero / Foge da gente e bela forma humana… Diana converteu-o por esse motivo em veado e foi assim trucidado pelos cães. O mesmo acontecerá ao rei que não quer saber de amores – não se casa, só preza a caça. Os seus conselheiros são falsos: … esses que frequentam os reais / Paços por verdadeira e sã doctrina / Vendem adulação, que mal consente / Mondar-se o novo trigo florecente.

Na verdade, o rei será realmente devorado – morto na batalha de Alcácer-Quibir. Mais do que uma crítica, é uma profecia. O rei, mal aconselhado, insistindo em aspirações medievais, ultrapassadas, faz guerra aos chamados infiéis, é morto nessa batalha e Portugal perde a independência.

 

No mais, Musa, no mais

Camões parece saber, de antemão, como um grande visionário, que o que escreve e aconselha: o enaltecimento do amor, da amizade, da justiça, da honestidade e da lealdade – não terão lugar na sua Pátria e irrompe então com este discurso que se assemelha a um grito de desespero que ecoa até nós, portugueses, agora.

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho / destemperada e a voz enrouquecida, / e não do canto, mas de ver que venho / cantar a gente surda e endurecida. / O favor com que mais se acende o engenho / não no dá a pátria, não, que está metida /no gosto da cobiça e na rudeza / de uma austera, apagada e vil tristeza. (C. X. 145)    

Esta estância é, para mim, essencial na obra épica porque exprime a dor, a desolação, a apatia, o desprezo da pátria, a quem ele, verdadeiramente, dedica a obra.

É a chave de Os Lusíadas. O grande desencanto do Poeta face aos seus contemporâneos e a quem os governa: insensíveis à vida, ao amor, à beleza, à justiça, à poesia. Gama e os nautas transformaram-se nesta viagem através do amor, da concórdia, da fidelidade, mas essa luz transformadora não consegue iluminar as trevas em que a pátria está mergulhada.

Termino com as palavras de João Gaspar Simões, sintetizando deste modo o grande poeta Luís Vaz de Camões, o maior génio lírico da nossa literatura:

[Camões lutou contra a] “intolerância religiosa, ideológica e fanatismo do dinheiro e da espada. Um homem na mais completa acepção da palavra, tanto maior quanto mais fraco, tanto mais humano, quanto mais sujeito à própria condição humana; vate, valdevinos, visionário e trinca-fortes; genial e insensato.”

 

Nota

Foram consultadas as seguintes obras, na generalidade:

Luís de Camões – Os Lusíadas. Porto Editora, 1975
Yvette K. Centeno, Hélder Godinho, Stephen Reckert, M.C. Almeida Lucas – A Viagem de “Os Lusíadas”: símbolo e mito.  Artes e Letras/Arcádia, 1981
“Estudos sobre Camões” – páginas do Diário de Notícias dedicadas ao poeta no 4º centenário da sua morte”: alguns autores seleccionados: João Gaspar Simões; Américo da Costa Ramalho; Fiama Hasse Pais Brandão e outros. Coedição: INCM/Editorial Notícias, 1981
Hélder Macedo – Camões e a Viagem Iniciática. Moraes Editores, “Margens do Texto”, 1980 (há uma reedição na Abysmo, 2013)
António José Saraiva – Para a História da Cultura em Portugal, vol. II. Livraria Bertrand, 1979
José Hermano Saraiva – Vida Ignorada de Camões – Uma História que o Tempo Censurou, Publicações Europa-América, 1994
Jorge de Sena – Trinta anos de Camões, I volume – Edições 70, 1980; A Estrutura de Os Lusíadas e outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI”. Edições 70, 1980
J.S. da Silva – Camões no Portugal de Quinhentos. Biblioteca Breve, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1981.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas

Uma forma de "construir pontes"

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas novidade

Amir tem cinco anos e, até agora, não podia correr nem brincar como a maioria das crianças da sua idade. Quando tinha apenas 24 meses, apanhou um vírus que resultou no bloqueio de uma das suas artérias coronárias, pelo que qualquer esforço físico passou a ser potencialmente fatal. Mas, muito em breve, este menino palestiniano poderá recuperar o tempo perdido. Com o apoio da organização humanitária israelita Save a Child’s Heart, Amir acaba de ser operado num hospital em Tel Aviv e está fora de perigo.

Francisco contra o divisionismo e a ordenação de mulheres

Entrevista à revista America

Francisco contra o divisionismo e a ordenação de mulheres novidade

“O divisionismo não é católico. Um católico não pode pensar ‘ou, ou’ e reduzir tudo a posições irreconciliáveis. A essência do católico é “e, e”. O católico une o bem e o não tão bom. O povo de Deus é um” – afirmou o Papa Francisco, a propósito das divisões na Igreja americana, na entrevista concedida no dia 22 de novembro a um conjunto de editores jesuítas e publicada na edição da revista America – The Jesuit Review desta segunda-feira, 28 de novembro.

Terra de pobreza e de milagres

[Crónicas da Guiné – 1]

Terra de pobreza e de milagres novidade

A Guiné-Bissau, como país, é um bom exportador de más notícias. E quando se chega ao território, o que imediato se faz notar é a pobreza e o lixo. Mas quando nos dizem “Tenho orgulho em Bissau ser uma cidade limpa… em comparação com outras capitais desta região de África”, percebemos que tudo é relativo – relativo aos padrões que adoptamos. Ou às notícias que procuramos. Porque há notícias que vêm ter connosco, pois sabem que serão bem acolhidas, e outras que se deixam ficar no seu cantinho, silenciosas, porque se reconhecem sem interesse.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This