A mudança de regime que se avizinha na Venezuela de 2025 resulta do embate entre duas ficções políticas violentas, a venezuelana e a norte-americana, ambas fabricadas no topo do poder.
Em dezembro de 2020, começaram a dar à costa em Güiria, vila piscatória do leste da Venezuela, dezenas de cadáveres, muitos da mesma família. Eram migrantes que tentaram sem êxito fugir do país. Dias depois, o Procurador-Geral de Caracas informou sobre a detenção de Luis Alí Martínez, alegado proprietário do barco “Mis Recuerdos”, que transportara os afogados ao largo de Güiria.

Cinco anos depois, a 1 de Setembro de 2025 Luis Ali Martínez morreu atingido por mísseis norte-americanos no primeiro ataque aéreo nas Caraíbas contra um barco venezuelano, que matou as onze pessoas a bordo. Trump trompeteou que o ataque destruiu narcóticos com destino aos Estados Unidos. Até 22 de dezembro de 2025, pelo menos 105 pessoas foram mortas em 29 ataques contra 30 embarcações. A crise de 2020 foi a manifestação física do colapso de um Estado venezuelano. O colpaso moral americano veio ao mesmo tempo. Em novembro de 2025, o The Washington Post noticiou que Pete Hegseth, Secretário da Defesa, contra o direito na guerra, deu ordens para não deixar sobreviventes; sendo liquidados dois sobreviventes ao ataque inicial. O falhanço moral de Washington é total e a efabulação do Tren de Aragua também.
Na região de Güiri e Río Salado, Martínez era um produto típico do sistema chavista, simultaneamente um criminoso e um benemérito local: numa sociedade onde o Estado já não governa mas negocia pactos com a criminalidade Luis Ali Martínez ajudava a aldeia, ostentava relógios custosos, participava em festas religiosas enquanto liderava um gang de extorsões num território de onde tinham desaparecido gasolina, os alimentos e o futuro.
Tudo por causa do fracasso monumental do projeto do comboio de alta velocidade, o “TGV venezuelano”. Era um projeto de corrupção e propaganda pura, lançado em 2012 por Diosdado Cabello, e financiado por capital chinês. Um cenário de modernização forçada, em territórios vazios. Os trabalhadores foram sonegados de todos os direitos, as obras degeneraram em ruínas, os estaleiros em gangues, os trabalhadores em predadores. Os técnicos chineses desertaram. Do símbolo do progresso nasceu o símbolo da rapina.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.
O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com










