Editorial 7M

Luís Moita (1939-2023): “Para que as pessoas sejam felizes”

| 28 Jan 2023

Luís Moita

Luís Moita. Foto: Direitos reservados

 

Uma bica e um pastel de nata para cada um alimentam hora e meia de conversa numa pastelaria de Campo de Ourique. É dia 8 de abril de 2022 e o tema principal da conversa – com o Luís nunca uma conversa girava apenas de volta de um só tema – é, desta vez, o Sínodo convocado pelo Papa Francisco e o que poderíamos fazer nesse âmbito em Santa Isabel. O Luís disserta sobre a “canga doutrinal” que a Igreja Católica criou ao longo dos séculos e que nos esconde a novidade absoluta de Jesus. E tudo isso, de onde deriva “um discurso casuístico sobre todos aspetos da vida” faz esquecer que a única coisa para que serve a Igreja é “para fazer as pessoas felizes”, para que “cada um viva em plenitude”.

Muitos obituários que agora se escreverão sobre o Luís, muitos dos amigos seus que agora sobre ele falarão, vão recordar-nos uma vida dedicada a pensar e a agir para superar inúmeros obstáculos a essa felicidade que nos reconcilia com a vida, com os demais, connosco próprios, com as coisas e o mundo delas. A vigília de São Domingos, a ruptura com o sacerdócio, a centralidade da moral e da ética, o Boletim Anti-Colonial, a vigília da Capela do Rato, o CIDAC, a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, outras campanhas e outras lutas, a paixão pelas relações internacionais, a reitoria da Universidade Autónoma de Lisboa… Muitos lembrarão o gosto que punha nas suas aulas. No ano passado continuava, apesar da sua saúde já bastante debilitada, a dar aulas via internet, por vezes, três longas horas intermináveis de que saía “ligeiramente cansado”, tal era o prazer que nelas sentia.

9 de setembro de 2022. Longa conversa tarde fora na esplanada da Fundação S. João de Deus onde o Luís convalesce há umas semanas. Os amigos que o visitam, os dias que passam, a guerra na Ucrânia, as coisas que ainda gostaria de fazer, os olhos que brilham quando fala da Ana e da Madalena. As saudades de um mergulho no mar da Ericeira. A morte. O mergulho no imenso escuro. As nossas dúvidas. A verdade da incerteza inquieta sobrepondo-se à grande mentira das certezas tranquilizadoras. “Nada sabemos e é tão difícil acreditar”, diz com tranquilidade. Corroboro: “Entre a luz e a escuridão, balançamos, esperando que talvez haja uma fresta que nos conduza à primeira… faria mais sentido.” Faz uma pausa e remata: “Sim, mantenho uma grande abertura a essa possibilidade… sim, fará todo o sentido.”

Quebramos o silêncio com as últimas novidades sobre os preparativos das comemorações dos 50 anos do “caso” da Capela do Rato e da participação que dele esperamos. “Pois é! Pensei que isso iria ser a parte mais substancial da nossa conversa” – ironiza. Depois faz-se tarde e sentimos que há que pôr fim à conversa. Saudamo-nos despedindo-nos e o Luís atira: “Sabes o que me dói mais nesta limitação a que me vejo condenado? Não poder guiar – essa grande libertação do aperto do espaço – e de não poder voltar a mergulhar no mar – essa sensação física da libertação do peso do corpo.” Com esses desejos de liberdade combatia o bom combate de manter a fresta aberta para a luz onde encontrar todos os que fez felizes, todos os que ajudou a tornarem-se verdadeiramente felizes.

 

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